Edição 1 644 -12/4/2000

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Trabalho x fama

Por que a carreira e a vida pessoal muitas
vezes entram em rota de colisão

Anna Paula Buchalla

Claudio Rossi
Lina Fagundes começou no emprego junto com o marido: concorrência e separação

Os departamentos de recursos humanos gostam de fazer listas sobre razões que conduzem alguém ao sucesso ou sobre fatores que podem contribuir para o fracasso no mundo dos negócios. O conteúdo dessas listas costuma ser renovado com o tempo, e a última fornada apresenta um item novo na coluna do fracasso: a influência da vida pessoal. O assunto vem sendo debatido com grande entusiasmo, pois os especialistas observaram um fenômeno notável. Muitas vezes, o maior adversário para uma carreira de sucesso não está no trabalho, onde impera a conhecida concorrência selvagem por um lugar ao sol, mas em casa. São maridos e esposas descontentes porque o parceiro dedica mais tempo à empresa do que à família. A lógica da desavença é simples. Quando duas pessoas se casam, elas imaginam algumas das dificuldades que vão enfrentar durante o matrimônio. Com poucas exceções, elas sabem que correm o risco de sofrer uma traição amorosa ou que talvez não possam criar os filhos da maneira que queriam. O que as pessoas não antecipam é que o emprego do outro principalmente quando ele é bem-sucedido pode ser um entrave à relação. Todo aquele tempo que havia para ir ao cinema ou comer em restaurantes fica comprometido porque o outro está trabalhando como nunca. Na opinião dos psicólogos, o conflito entre família e trabalho faz parte das principais razões que conduzem à separação de casais.

Num processo já estudado, o sucesso exige quase sempre uma jornada mais extensa. Essa jornada diminui o tempo de convívio do casal, comprometendo a qualidade da vida a dois. Resultado: as crises conjugais podem tornar-se inevitáveis. Conforme o tempo passa, as pessoas trabalham mais, a vida a dois fica ainda mais curta e o processo de produção de crises pode intensificar-se. Os frutos que se colhem no emprego, como salário mais alto e posto de destaque, acabam sendo "punidos" com uma desilusão em casa. Os estudos sobre o assunto mostram que a reação ao problema varia conforme o casal. Quando só um dos dois trabalha fora, o choque de realidades pode dificultar a convivência. Aquele que sai todo dia quer chegar em casa e ser recompensado com beijos por seus esforços no emprego. É uma evidente confusão. Cabe ao chefe ou ao patrão reconhecer os bons serviços prestados à firma, não ao marido ou à mulher. Quanto àquele que fica em casa, é frustrante perceber que o empenho do outro é maior no trabalho do que em casa. Daí, surge a necessidade de reafirmar o tempo todo que o relacionamento é mais importante do que o salário no final do mês. Identifica-se, claramente, um sentimento de ciúme. É como se o trabalho fosse uma espécie de amante que rouba o melhor da energia do homem ou da muher.

Quando os dois estão empregados, o problema é mais sutil e, dizem os estudiosos, bem mais grave. Ao sentimento de ciúme soma-se em diversos casos relatados uma sensação de inveja. "Por que meu marido (ou minha mulher) vai tão bem na firma onde trabalha e eu não?" Essa mistura de ciúme e inveja tem dose diferente conforme as carreiras do casal e a faixa de renda de cada um. Imagine um médico casado com uma profissional do mercado financeiro, os dois com 27 anos. Há grande probabilidade de o médico estar cumprindo dois ou três plantões semanais de 24 horas em hospitais públicos da periferia em troca de um salário modesto. Enquanto isso, a jovem profissional do mercado financeiro estará participando de almoços de negócios e de viagens ao exterior e fechando contratos milionários, em troca de um salário fabuloso. É preciso muito empenho para que os dois compreendam a dura realidade do outro. "Sabe-se que é mais grave quando os dois têm a mesma profissão", diz a consultora Patrícia Molino, da KPMG. Nesse caso, a comparação entre a trajetória de cada uma das carreiras é imediata.

Lina Paes de Barros Fagundes, diretora-geral de produtos panificados da Pullman, viveu essa situação. Por catorze anos, ela foi casada com Lelis Vieira, hoje presidente da Lisonda, empresa de engenharia e construção, com sede em São Paulo. Eles tiveram trajetórias muito parecidas: estudaram juntos, formaram-se em administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas, na capital paulista, e trabalharam na Gessy Lever no início da carreira. No tempo em que estavam casados, houve pelo menos três oportunidades de mudar de país por causa das promoções na carreira. Duas vezes com ele e uma com ela. Quando o convite foi feito para Lina, ocorreu um imprevisto. Ela recebeu a proposta e convenceu o marido a trocar o seu posto aqui no Brasil por uma vaga no futuro endereço. Na última hora, Lina não fechou o acordo e Lelis ficou sem o emprego. O episódio não foi a razão principal, é claro, mas o casal acabou se separando anos mais tarde.

O desacerto entre casais por causa da carreira é um fenômeno recente no país. No passado, o papel reservado à mulher era o de dona-de-casa e mãe de família. Se o marido fosse transferido para outra cidade, ela apenas se conformava com a situação e ia atrás dele. Afinal, era o homem quem se encarregava da manutenção financeira da família. Houve uma mudança muito significativa na estrutura da sociedade brasileira. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a participação das mulheres no mercado de trabalho subiu de 19% para 48% nos últimos trinta anos. Isso significa que a mulher parou de aceitar o papel de coadjuvante para influir diretamente não só no orçamento da casa como no destino profissional do casal. Por isso, quando se fala que o sucesso de um cônjuge pode incomodar o outro, não se pensa mais naquela imagem do homem saindo para trabalhar e da mulher reclamando que ele não liga mais para a casa. Muitas vezes, é o homem quem tem de conviver com o complexo de inferioridade em conseqüência do sucesso profissional da parceira.

Mas como abraçar com força a oportunidade de deslanchar na carreira sem dar margem a que o outro fique com raiva? Os especialistas recomendam aos casais que não cheguem a tal situação, para só depois tomar uma providência. O ideal é que o casal sempre discuta os objetivos profissionais juntos e não se esqueça de incluir os filhos nesse projeto. Eles devem se fazer perguntas do tipo: "Onde queremos estar daqui a dez anos?". Se as respostas forem muito diferentes, a hora de ajustar diretrizes é agora. Não devem deixar para mais tarde, quando já não há mais nada a fazer. "É fundamental que um se sinta importante no projeto profissional do outro", diz o consultor Gilberto Guimarães, diretor da BPI, empresa francesa especializada em processos de mudanças profissionais. "Eles precisam sentir-se um time."