Trabalho x fama
Por que a carreira e a vida
pessoal muitas
vezes entram em rota de colisão
Anna Paula Buchalla
Claudio Rossi
 |
| Lina Fagundes começou
no emprego junto com o marido: concorrência e
separação |
Os departamentos de recursos humanos gostam de fazer listas
sobre razões que conduzem alguém ao sucesso
ou sobre fatores que podem contribuir para o fracasso no
mundo dos negócios. O conteúdo dessas listas
costuma ser renovado com o tempo, e a última fornada
apresenta um item novo na coluna do fracasso: a influência
da vida pessoal. O assunto vem sendo debatido com grande
entusiasmo, pois os especialistas observaram um fenômeno
notável. Muitas vezes, o maior adversário
para uma carreira de sucesso não está no trabalho,
onde impera a conhecida concorrência selvagem por
um lugar ao sol, mas em casa. São maridos e esposas
descontentes porque o parceiro dedica mais tempo à
empresa do que à família. A lógica
da desavença é simples. Quando duas pessoas
se casam, elas imaginam algumas das dificuldades que vão
enfrentar durante o matrimônio. Com poucas exceções,
elas sabem que correm o risco de sofrer uma traição
amorosa ou que talvez não possam criar os filhos
da maneira que queriam. O que as pessoas não antecipam
é que o emprego do outro –
principalmente quando ele é bem-sucedido –
pode ser um entrave à relação. Todo
aquele tempo que havia para ir ao cinema ou comer em restaurantes
fica comprometido porque o outro está trabalhando
como nunca. Na opinião dos psicólogos, o conflito
entre família e trabalho faz parte das principais
razões que conduzem à separação
de casais.
Num processo já estudado, o sucesso exige quase
sempre uma jornada mais extensa. Essa jornada diminui o
tempo de convívio do casal, comprometendo a qualidade
da vida a dois. Resultado: as crises conjugais podem tornar-se
inevitáveis. Conforme o tempo passa, as pessoas trabalham
mais, a vida a dois fica ainda mais curta e o processo de
produção de crises pode intensificar-se. Os
frutos que se colhem no emprego, como salário mais
alto e posto de destaque, acabam sendo "punidos" com uma
desilusão em casa. Os estudos sobre o assunto mostram
que a reação ao problema varia conforme o
casal. Quando só um dos dois trabalha fora, o choque
de realidades pode dificultar a convivência. Aquele
que sai todo dia quer chegar em casa e ser recompensado
com beijos por seus esforços no emprego. É
uma evidente confusão. Cabe ao chefe ou ao patrão
reconhecer os bons serviços prestados à firma,
não ao marido ou à mulher. Quanto àquele
que fica em casa, é frustrante perceber que o empenho
do outro é maior no trabalho do que em casa. Daí,
surge a necessidade de reafirmar o tempo todo que o relacionamento
é mais importante do que o salário no final
do mês. Identifica-se, claramente, um sentimento de
ciúme. É como se o trabalho fosse uma espécie
de amante que rouba o melhor da energia do homem ou da muher.
Quando os dois estão empregados, o problema é
mais sutil e, dizem os estudiosos, bem mais grave. Ao sentimento
de ciúme soma-se em diversos casos relatados uma
sensação de inveja. "Por que meu marido (ou
minha mulher) vai tão bem na firma
onde trabalha e eu não?" Essa mistura de ciúme
e inveja tem dose diferente conforme as carreiras do casal
e a faixa de renda de cada um. Imagine um médico
casado com uma profissional do mercado financeiro, os dois
com 27 anos. Há grande probabilidade de o médico
estar cumprindo dois ou três plantões semanais
de 24 horas em hospitais públicos da periferia em
troca de um salário modesto. Enquanto isso, a jovem
profissional do mercado financeiro estará participando
de almoços de negócios e de viagens ao exterior
e fechando contratos milionários, em troca de um
salário fabuloso. É preciso muito empenho
para que os dois compreendam a dura realidade do outro.
"Sabe-se que é mais grave quando os dois têm
a mesma profissão", diz a consultora Patrícia
Molino, da KPMG. Nesse caso, a comparação
entre a trajetória de cada uma das carreiras é
imediata.
Lina Paes de Barros Fagundes, diretora-geral de produtos
panificados da Pullman, viveu essa situação.
Por catorze anos, ela foi casada com Lelis Vieira, hoje
presidente da Lisonda, empresa de engenharia e construção,
com sede em São Paulo. Eles tiveram trajetórias
muito parecidas: estudaram juntos, formaram-se em administração
de empresas na Fundação Getúlio Vargas,
na capital paulista, e trabalharam na Gessy Lever no início
da carreira. No tempo em que estavam casados, houve pelo
menos três oportunidades de mudar de país por
causa das promoções na carreira. Duas vezes
com ele e uma com ela. Quando o convite foi feito para Lina,
ocorreu um imprevisto. Ela recebeu a proposta e convenceu
o marido a trocar o seu posto aqui no Brasil por uma vaga
no futuro endereço. Na última hora, Lina não
fechou o acordo e Lelis ficou sem o emprego. O episódio
não foi a razão principal, é claro,
mas o casal acabou se separando anos mais tarde.
O desacerto entre casais por causa da carreira é
um fenômeno recente no país. No passado, o
papel reservado à mulher era o de dona-de-casa e
mãe de família. Se o marido fosse transferido
para outra cidade, ela apenas se conformava com a situação
e ia atrás dele. Afinal, era o homem quem se encarregava
da manutenção financeira da família.
Houve uma mudança muito significativa na estrutura
da sociedade brasileira. Dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a participação
das mulheres no mercado de trabalho subiu de 19% para 48%
nos últimos trinta anos. Isso significa que a mulher
parou de aceitar o papel de coadjuvante para influir diretamente
não só no orçamento da casa como no
destino profissional do casal. Por isso, quando se fala
que o sucesso de um cônjuge pode incomodar o outro,
não se pensa mais naquela imagem do homem saindo
para trabalhar e da mulher reclamando que ele não
liga mais para a casa. Muitas vezes, é o homem quem
tem de conviver com o complexo de inferioridade em conseqüência
do sucesso profissional da parceira.
Mas como abraçar com força a oportunidade
de deslanchar na carreira sem dar margem a que o outro fique
com raiva? Os especialistas recomendam aos casais que não
cheguem a tal situação, para só depois
tomar uma providência. O ideal é que o casal
sempre discuta os objetivos profissionais juntos e não
se esqueça de incluir os filhos nesse projeto. Eles
devem se fazer perguntas do tipo: "Onde queremos estar daqui
a dez anos?". Se as respostas forem muito diferentes, a
hora de ajustar diretrizes é agora. Não devem
deixar para mais tarde, quando já não há
mais nada a fazer. "É fundamental que um se sinta
importante no projeto profissional do outro", diz o consultor
Gilberto Guimarães, diretor da BPI, empresa francesa
especializada em processos de mudanças profissionais.
"Eles precisam sentir-se um time."