A semana em que
Bill Gates perdeu
A condenação da Microsoft dá choque no
mercado americano de ações de alta tecnologia.
Mas foi só um susto
Roberta Paduan
Ilustração: Angelo

O resultado era esperado. Mesmo assim, houve choque. A
decisão do juiz americano Thomas Penfield Jackson de considerar
a Microsoft culpada de "práticas monopolistas, anticompetitivas
e predatórias", anunciada na segunda-feira da semana
passada, deixou o mercado nervoso e provocou queda recorde
no valor das empresas de alta tecnologia. Pressionado pela
baixa das ações da Microsoft, o índice Nasdaq, que mede
a cotação das companhias do mundo digital, perdeu num único
dia o equivalente a 350 bilhões de dólares. Isso é mais
que o PIB da Argentina. A Microsoft teve uma desvalorização
de 81 bilhões de dólares. Mais de um Chile. E Bill Gates,
seu fundador, perdeu mais de um Paraguai. Foi dormir 11,5
bilhões de dólares menos rico do que havia acordado. A tensão
prosseguiu no dia seguinte. O mercado abriu novamente em
queda. Depois, o índice teve pequena recuperação, ficou
estável e chegou ao final da semana sem solavancos. Apesar
das quedas, o índice Nasdaq já se valorizou 16% neste ano.
O principal efeito da decisão da Justiça americana foi cutucar
com espeto curto o que alguns analistas chamam de bolha
especulativa das ações de alta tecnologia. Para um bom número
deles, essas ações estão sendo infladas pelo otimismo injustificável
dos compradores. Para outros, a valorização apenas reflete
um momento especialmente feliz da economia movida a internet.
Sobressalto A Microsoft foi condenada por
usar sua condição de líder para impor ao mercado o Explorer,
o programa de navegação na internet. A Justiça entendeu
que a decisão da empresa de torná-lo parte indissolúvel
do Windows, o sistema operacional utilizado por nove entre
dez PCs do mundo, teria sido mortal para a concorrência.
Com base numa lei de 1890, a empresa de Gates poderá sofrer
sanções. Ela corre o risco de ser fatiada, como já aconteceu
à companhia de petróleo Standard Oil, em 1911, e à gigante
de telefonia AT&T, em 1984. A decisão final deverá demorar
alguns meses. Qualquer que seja a sentença, conforme aviso
dado por Bill Gates e por seu principal sócio, Steve Ballmer,
logo após a decisão do juiz, a empresa recorrerá. O processo
provavelmente se arrastará durante anos. Seja como for,
a decisão do juiz Jackson e o choque
que ela gerou no mercado de ações de alta tecnologia causaram
um sobressalto. Muitos analistas acreditam que o preço das
ações de alta tecnologia pode cair ainda mais neste ano.
Quando se toma o pico dos papéis, nota-se que em parte essa
correção anunciada já foi feita. A questão agora é saber
se haverá novos sustos no mercado daqui para a frente.
As
ações de empresas de alta tecnologia chegaram ao final de
1999 com uma valorização de 86% no ano. Muitos analistas
apostavam que não haveria espaço para novas altas e, mesmo
assim, a escalada prosseguiu. Num cenário como esse, quem
acompanha o movimento das bolsas com um pouco de distanciamento
já havia percebido que a cotação dos papéis poderia embicar
para baixo ao primeiro suspiro que servisse de desculpa.
Nas últimas semanas, uma discreta baixa havia se iniciado.
A decisão do juiz foi um empurrão no rumo do terreno negativo.
"As mesmas pessoas que compraram ações de tecnologia
freneticamente nos últimos meses, porque os preços estavam
subindo, as venderam freneticamente porque os preços estavam
caindo", escreveu o respeitado economista americano
Paul Krugman em sua coluna no New York Times. Era
o conhecido "efeito manada" em funcionamento.
O investidor compra porque todo mundo está comprando e vende
porque todo mundo está vendendo. Num ambiente assim não
há lugar para ponderações racionais. Ao final da semana,
quando o susto maior provocado pela condenação da Microsoft
tinha passado, a sensação era que os investidores podem
até tirar um pouco o pé do acelerador quando se trata de
colocar dinheiro em ações de tecnologia, mas o interesse
continuará ainda alto. "A volatilidade pode continuar,
mas a correção de preço de ações na Nasdaq chegou ao fim",
diz Bill Meehan, estrategista-chefe da corretora nova-iorquina
Cantor Fitzgerald.
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No
pregão da Nasdaq, BID é a maior oferta
feita por determinada ação. O último
BID da Microsoft foi de 88 dólares na terça-feira
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HIGH
no painel é o valor mais alto que a ação
alcançou até aquele momento no pregão
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Se Krugman foi o grande explicador das crises financeiras
internacionais da Ásia e da Rússia há quase dois anos, Robert
Shiller, professor da Universidade de Yale, é, definitivamente,
o oráculo desses tempos de bolha de alta tecnologia. Seu
livro, Exuberância Irracional, lançado na semana
passada em Nova York, está sendo lido como um convincente
alerta de que as empresas de tecnologia podem estar protagonizando
um episódio de euforia financeira sem sustentação econômica
material. Shiller chegou a comparar a súbita valorização
das ações dessas empresas com um daqueles reles esquemas
de "pirâmides" que, para funcionar, exigem que
mais e mais pessoas adquiram ações de modo a remunerar quem
já comprou há mais tempo. Num artigo recente, Krugman deixa
claro que concorda com o colega de Yale.
Conceito básico A argumentação deles, como
não poderia deixar de ser, tem forte componente técnico.
Para entender o que eles dizem não é preciso ser professor
de economia. Basta compreender um conceito básico utilizado
há quase um século pelos economistas para avaliar uma empresa
com papéis na bolsa. Esse conceito é o PL, assim chamado
porque é obtido dividindo-se o preço de pregão da ação (P)
pelo lucro por ação (L) da companhia que a emite. As empresas
mais exuberantes do capitalismo antes da internet tinham
PL com valores entre 6 e 14. Um valor maior do que esse
já colocava o investidor num terreno de risco. Por quê?
Porque indicava que a empresa teria de obter um lucro muito
alto, muito rapidamente, para ser atraente aos investidores.
Pois bem, o PL médio das ações de alta tecnologia é 200.
A estrela desse mercado, o Yahoo!, tem PL de 1.000.
Isso mesmo, 1.000. São números
que para os leigos não têm muito impacto a menos
que se acrescente a isso uma segunda informação. Quem compra
ações de PL alto está apostando que a companhia vai obter
lucros frenéticos num período de tempo muito curto. Se a
companhia não conseguir crescer veloz como um cogumelo de
bomba atômica, o investidor ficará com um mico na mão. Em
resumo, é isso que Shiller está dizendo no novo livro.
Reuters
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| Clinton e Greenspan: reunião
na Casa Branca para discutir os efeitos da nova economia |
Tudo funcionará como esperam os investidores se existir
mesmo uma nova economia ou seja, uma economia regida
por leis diferentes das antigas, com seus PLs e outros indicadores
obsoletos. Mas existe mesmo essa nova economia? Os pioneiros
da internet não têm dúvida de que sim. Submetido certa vez
a essa pergunta, Alan Greenspan, presidente do Fed, o banco
central americano, saiu-se com a seguinte evasiva: "É
claro que nossa economia está mudando todos os dias e, nesse
sentido, ela é sempre nova". Muita gente entendeu a
resposta como um não. Mas um monte de gente entendeu que
Greenspan concordava com a idéia de que pode estar em funcionamento
na economia uma série de regras novas e um tanto desconhecidas
que estão na base de um ciclo virtuoso que, teoricamente,
pode durar muitos anos ainda. Na quarta-feira passada, o
presidente americano Bill Clinton reuniu na Casa Branca
um grupo de pesos pesadíssimos para debater essa questão.
Greenspan comandou a reunião de que participaram os principais
assessores do governo e alguns dos maiores empresários do
ramo de tecnologia dos Estados Unidos, entre eles Bill Gates,
o bilionário dono da Microsoft. O encontro, obviamente,
terminou sem uma conclusão definitiva. Os americanos começam
a ficar inquietos. Afinal, donos de 32% do PIB do planeta,
os Estados Unidos dominam 73% dos negócios da nova economia.
Existe uma questão preocupante quando se discute a saúde
do sistema econômico baseado na exuberância das companhias
de alta tecnologia. Essa questão prende-se ao fato de que,
nos últimos anos, milhões de americanos se endividaram para
investir nas bolsas mirando um lucro fabuloso a ser obtido
em pouco tempo. A lógica é a seguinte. A pessoa toma o empréstimo
e compra ações. O preço sobe, ela vende os papéis, paga
o banco e fica com um lucro formidável. De acordo com um
levantamento das instituições financeiras, 40% dos americanos
endividados são compradores de ações. Uma queda brusca e
irreversível nas cotações jogaria esses investidores numa
situação muito adversa. Eles teriam de conseguir dinheiro
em algum lugar para quitar os papagaios. Os mais otimistas
acreditam que a teoria econômica está ficando obsoleta,
incapaz de medir os sinais vitais da nova economia que está
surgindo no Vale do Silício e se espalhando pelo mundo por
meio da rede capilar mais extraordinária já montada pela
humanidade, a internet. "Está óbvio que as novas empresas
de internet não podem ser entendidas pelos antigos modelos
econômicos", diz Stephen Kanitz, administrador de empresas
e colunista de VEJA. "Elas possuem um dinamismo cuja
natureza escapa aos métodos tradicionais."
O que Fortune considera
fortuna
Mesmo com a queda no preço de suas ações na semana
passada, a Microsoft e a Cisco continuam entre as
empresas com maior valor de mercado no mundo. Juntas,
as duas valeriam 970 bilhões de dólares. É dinheiro
suficiente para comprar pelo valor de mercado dezenove
montadoras como a General Motors, a maior fabricante
de automóveis do mundo, ou três e meia cadeias de
varejo como a Wal-Mart. Essa é a realidade das bolsas
de valores. Sólidas com suas fábricas e lojas, as
empresas da velha economia parecem lentas demais diante
das ágeis companhias do mundo digital. Nenhuma delas
tem lugar entre as mais valorizadas do mundo. Pois
bem. Na semana passada, enquanto a bolsa caía sob
o impacto da desvalorização da Microsoft, a respeitada
revista americana Fortune, dedicada a assuntos
econômicos, divulgou sua tradicional lista das 500
maiores companhias do planeta. Organizada conforme
o mais conservador dos critérios do mundo capitalista,
o volume de vendas, a lista trouxe pela 16ª vez consecutiva
a General Motors como a maior de todas as corporações.
No ano passado, a GM faturou 189 bilhões de dólares
e teve um lucro, palavra que soa estranha ao mundo
da chamada nova economia, de 6 bilhões de dólares.
A General Electric, a campeã mundial nesse quesito,
teve um ganho de 11 bilhões de dólares no período.
O Yahoo!, uma exceção lucrativa entre os negócios
de internet, teve um lucro de 57 milhões de dólares.
Mas ele não está na lista das 500. Uma única empresa
de internet, a America Online, aparece na relação
da Fortune. Com seu faturamento de 4,8 bilhões
de dólares, a AOL está na 337ª posição. Outras empresas
de tecnologia, como a própria Microsoft, a 84ª, e
a Cisco, 146ª, têm posições modestas quando comparadas
com seu valor de mercado. Moral da história: não convide
para a mesma lista as empresas da velha e as da nova
economia.
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