Edição 1 644 -12/4/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
A condenação da Microsoft e a crise nas bolsas
O Brasil já não precisa de especulador
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Lista de mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

A semana em que
Bill Gates perdeu

A condenação da Microsoft dá choque no
mercado americano de ações de alta tecnologia.
Mas foi só um susto

Roberta Paduan

Ilustração: Angelo

O resultado era esperado. Mesmo assim, houve choque. A decisão do juiz americano Thomas Penfield Jackson de considerar a Microsoft culpada de "práticas monopolistas, anticompetitivas e predatórias", anunciada na segunda-feira da semana passada, deixou o mercado nervoso e provocou queda recorde no valor das empresas de alta tecnologia. Pressionado pela baixa das ações da Microsoft, o índice Nasdaq, que mede a cotação das companhias do mundo digital, perdeu num único dia o equivalente a 350 bilhões de dólares. Isso é mais que o PIB da Argentina. A Microsoft teve uma desvalorização de 81 bilhões de dólares. Mais de um Chile. E Bill Gates, seu fundador, perdeu mais de um Paraguai. Foi dormir 11,5 bilhões de dólares menos rico do que havia acordado. A tensão prosseguiu no dia seguinte. O mercado abriu novamente em queda. Depois, o índice teve pequena recuperação, ficou estável e chegou ao final da semana sem solavancos. Apesar das quedas, o índice Nasdaq já se valorizou 16% neste ano. O principal efeito da decisão da Justiça americana foi cutucar com espeto curto o que alguns analistas chamam de bolha especulativa das ações de alta tecnologia. Para um bom número deles, essas ações estão sendo infladas pelo otimismo injustificável dos compradores. Para outros, a valorização apenas reflete um momento especialmente feliz da economia movida a internet.

Sobressalto – A Microsoft foi condenada por usar sua condição de líder para impor ao mercado o Explorer, o programa de navegação na internet. A Justiça entendeu que a decisão da empresa de torná-lo parte indissolúvel do Windows, o sistema operacional utilizado por nove entre dez PCs do mundo, teria sido mortal para a concorrência. Com base numa lei de 1890, a empresa de Gates poderá sofrer sanções. Ela corre o risco de ser fatiada, como já aconteceu à companhia de petróleo Standard Oil, em 1911, e à gigante de telefonia AT&T, em 1984. A decisão final deverá demorar alguns meses. Qualquer que seja a sentença, conforme aviso dado por Bill Gates e por seu principal sócio, Steve Ballmer, logo após a decisão do juiz, a empresa recorrerá. O processo provavelmente se arrastará durante anos. Seja como for, a decisão do juiz Jackson e o choque que ela gerou no mercado de ações de alta tecnologia causaram um sobressalto. Muitos analistas acreditam que o preço das ações de alta tecnologia pode cair ainda mais neste ano. Quando se toma o pico dos papéis, nota-se que em parte essa correção anunciada já foi feita. A questão agora é saber se haverá novos sustos no mercado daqui para a frente.

As ações de empresas de alta tecnologia chegaram ao final de 1999 com uma valorização de 86% no ano. Muitos analistas apostavam que não haveria espaço para novas altas e, mesmo assim, a escalada prosseguiu. Num cenário como esse, quem acompanha o movimento das bolsas com um pouco de distanciamento já havia percebido que a cotação dos papéis poderia embicar para baixo ao primeiro suspiro que servisse de desculpa. Nas últimas semanas, uma discreta baixa havia se iniciado. A decisão do juiz foi um empurrão no rumo do terreno negativo. "As mesmas pessoas que compraram ações de tecnologia freneticamente nos últimos meses, porque os preços estavam subindo, as venderam freneticamente porque os preços estavam caindo", escreveu o respeitado economista americano Paul Krugman em sua coluna no New York Times. Era o conhecido "efeito manada" em funcionamento. O investidor compra porque todo mundo está comprando e vende porque todo mundo está vendendo. Num ambiente assim não há lugar para ponderações racionais. Ao final da semana, quando o susto maior provocado pela condenação da Microsoft tinha passado, a sensação era que os investidores podem até tirar um pouco o pé do acelerador quando se trata de colocar dinheiro em ações de tecnologia, mas o interesse continuará ainda alto. "A volatilidade pode continuar, mas a correção de preço de ações na Nasdaq chegou ao fim", diz Bill Meehan, estrategista-chefe da corretora nova-iorquina Cantor Fitzgerald.


No pregão da Nasdaq, BID é a maior oferta feita por determinada ação. O último BID da Microsoft foi de 88 dólares na terça-feira

HIGH no painel é o valor mais alto que a ação alcançou até aquele momento no pregão

Se Krugman foi o grande explicador das crises financeiras internacionais da Ásia e da Rússia há quase dois anos, Robert Shiller, professor da Universidade de Yale, é, definitivamente, o oráculo desses tempos de bolha de alta tecnologia. Seu livro, Exuberância Irracional, lançado na semana passada em Nova York, está sendo lido como um convincente alerta de que as empresas de tecnologia podem estar protagonizando um episódio de euforia financeira sem sustentação econômica material. Shiller chegou a comparar a súbita valorização das ações dessas empresas com um daqueles reles esquemas de "pirâmides" que, para funcionar, exigem que mais e mais pessoas adquiram ações de modo a remunerar quem já comprou há mais tempo. Num artigo recente, Krugman deixa claro que concorda com o colega de Yale.

Conceito básico – A argumentação deles, como não poderia deixar de ser, tem forte componente técnico. Para entender o que eles dizem não é preciso ser professor de economia. Basta compreender um conceito básico utilizado há quase um século pelos economistas para avaliar uma empresa com papéis na bolsa. Esse conceito é o PL, assim chamado porque é obtido dividindo-se o preço de pregão da ação (P) pelo lucro por ação (L) da companhia que a emite. As empresas mais exuberantes do capitalismo antes da internet tinham PL com valores entre 6 e 14. Um valor maior do que esse já colocava o investidor num terreno de risco. Por quê? Porque indicava que a empresa teria de obter um lucro muito alto, muito rapidamente, para ser atraente aos investidores. Pois bem, o PL médio das ações de alta tecnologia é 200. A estrela desse mercado, o Yahoo!, tem PL de 1.000. Isso mesmo, 1.000. São números que para os leigos não têm muito impacto – a menos que se acrescente a isso uma segunda informação. Quem compra ações de PL alto está apostando que a companhia vai obter lucros frenéticos num período de tempo muito curto. Se a companhia não conseguir crescer veloz como um cogumelo de bomba atômica, o investidor ficará com um mico na mão. Em resumo, é isso que Shiller está dizendo no novo livro.

Reuters
Clinton e Greenspan: reunião na Casa Branca para discutir os efeitos da nova economia


Tudo funcionará como esperam os investidores se existir mesmo uma nova economia – ou seja, uma economia regida por leis diferentes das antigas, com seus PLs e outros indicadores obsoletos. Mas existe mesmo essa nova economia? Os pioneiros da internet não têm dúvida de que sim. Submetido certa vez a essa pergunta, Alan Greenspan, presidente do Fed, o banco central americano, saiu-se com a seguinte evasiva: "É claro que nossa economia está mudando todos os dias e, nesse sentido, ela é sempre nova". Muita gente entendeu a resposta como um não. Mas um monte de gente entendeu que Greenspan concordava com a idéia de que pode estar em funcionamento na economia uma série de regras novas e um tanto desconhecidas que estão na base de um ciclo virtuoso que, teoricamente, pode durar muitos anos ainda. Na quarta-feira passada, o presidente americano Bill Clinton reuniu na Casa Branca um grupo de pesos pesadíssimos para debater essa questão. Greenspan comandou a reunião de que participaram os principais assessores do governo e alguns dos maiores empresários do ramo de tecnologia dos Estados Unidos, entre eles Bill Gates, o bilionário dono da Microsoft. O encontro, obviamente, terminou sem uma conclusão definitiva. Os americanos começam a ficar inquietos. Afinal, donos de 32% do PIB do planeta, os Estados Unidos dominam 73% dos negócios da nova economia.

Existe uma questão preocupante quando se discute a saúde do sistema econômico baseado na exuberância das companhias de alta tecnologia. Essa questão prende-se ao fato de que, nos últimos anos, milhões de americanos se endividaram para investir nas bolsas mirando um lucro fabuloso a ser obtido em pouco tempo. A lógica é a seguinte. A pessoa toma o empréstimo e compra ações. O preço sobe, ela vende os papéis, paga o banco e fica com um lucro formidável. De acordo com um levantamento das instituições financeiras, 40% dos americanos endividados são compradores de ações. Uma queda brusca e irreversível nas cotações jogaria esses investidores numa situação muito adversa. Eles teriam de conseguir dinheiro em algum lugar para quitar os papagaios. Os mais otimistas acreditam que a teoria econômica está ficando obsoleta, incapaz de medir os sinais vitais da nova economia que está surgindo no Vale do Silício e se espalhando pelo mundo por meio da rede capilar mais extraordinária já montada pela humanidade, a internet. "Está óbvio que as novas empresas de internet não podem ser entendidas pelos antigos modelos econômicos", diz Stephen Kanitz, administrador de empresas e colunista de VEJA. "Elas possuem um dinamismo cuja natureza escapa aos métodos tradicionais."

 

O que Fortune considera fortuna

Mesmo com a queda no preço de suas ações na semana passada, a Microsoft e a Cisco continuam entre as empresas com maior valor de mercado no mundo. Juntas, as duas valeriam 970 bilhões de dólares. É dinheiro suficiente para comprar pelo valor de mercado dezenove montadoras como a General Motors, a maior fabricante de automóveis do mundo, ou três e meia cadeias de varejo como a Wal-Mart. Essa é a realidade das bolsas de valores. Sólidas com suas fábricas e lojas, as empresas da velha economia parecem lentas demais diante das ágeis companhias do mundo digital. Nenhuma delas tem lugar entre as mais valorizadas do mundo. Pois bem. Na semana passada, enquanto a bolsa caía sob o impacto da desvalorização da Microsoft, a respeitada revista americana Fortune, dedicada a assuntos econômicos, divulgou sua tradicional lista das 500 maiores companhias do planeta. Organizada conforme o mais conservador dos critérios do mundo capitalista, o volume de vendas, a lista trouxe pela 16ª vez consecutiva a General Motors como a maior de todas as corporações. No ano passado, a GM faturou 189 bilhões de dólares e teve um lucro, palavra que soa estranha ao mundo da chamada nova economia, de 6 bilhões de dólares. A General Electric, a campeã mundial nesse quesito, teve um ganho de 11 bilhões de dólares no período.

O Yahoo!, uma exceção lucrativa entre os negócios de internet, teve um lucro de 57 milhões de dólares. Mas ele não está na lista das 500. Uma única empresa de internet, a America Online, aparece na relação da Fortune. Com seu faturamento de 4,8 bilhões de dólares, a AOL está na 337ª posição. Outras empresas de tecnologia, como a própria Microsoft, a 84ª, e a Cisco, 146ª, têm posições modestas quando comparadas com seu valor de mercado. Moral da história: não convide para a mesma lista as empresas da velha e as da nova economia.


Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  Todos contra Bill
  Entrevista: Scott McNealy
Da internet
  Microsoft
  Nasdaq
  Fortune
  Dow Jones