Edição 1 644 -12/4/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Lista de mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

A Rússia é uma decepção


Ilustração Miriam Duenhas

Acabo de voltar de Moscou. Por sete dias e sete noites, andei distraidamente por todos os cantos da cidade, com a esperança de que algum delinqüente me assaltasse. Ainda melhor, que me baleasse. Ainda melhor, que implodisse o luxuoso hotel em que eu estava hospedado e, milagrosamente, só eu conseguisse escapar ileso, em meio a dezenas de cadáveres mutilados. Nada. Pelo contrário: assim que viam a minha cara de contrabandista caucasiano, os moscovitas aceleravam o passo e olhavam com desconfiança para trás. A imprensa internacional, com suas histórias sobre máfia, corrupção política e tráfico de prostitutas, induziu-me a pensar que nenhum lugar do mundo pudesse oferecer tantas possibilidades de aventuras quanto a Rússia. Ao chegar lá, infelizmente, não vi nada disso. Moscou me pareceu tão pacata quanto qualquer cidade da Europa Ocidental. Quase sonolenta. Uma decepção.

Também me decepcionei com o clima em torno das eleições presidenciais. Acompanhei a minha intérprete Anie até a escola em que ela votaria. Mais do que isso: segui-a até a cabine eleitoral e votei junto. Ela fez um traço, eu fiz o outro, compondo um X no quadradinho que indicava "contra todos os candidatos". Pode parecer estranho que nenhum soldado armado tenha impedido o meu acesso à cabine eleitoral, mas juro que foi exatamente o que aconteceu. Naquela mesma noite, vi um alarmado jornalista da TV inglesa declarar que Moscou, no período eleitoral, era como uma cidade em estado de assédio. Devo ser meio tonto, porque não percebi. A julgar pela minha experiência, os russos votaram com surpreendente tranqüilidade, como se sempre tivessem votado. Efetivamente, é esse o caso: eles sempre votaram. A diferença é que, no passado, havia um só candidato, e agora existem doze, embora, de acordo com Anie, sejam todos iguais.

Se a violência e a repressão ficaram muito aquém do esperado, o mesmo se pode dizer em relação à miséria. Os correspondentes estrangeiros haviam-me preparado para encontrar um país reduzido à mais absoluta indigência. Em todas as reportagens que faziam, deleitavam-se em perguntar aos trabalhadores russos quanto ganhavam de salário. A resposta era sempre igual: 30 dólares. Resolvi imitá-los. Perguntei a um metalúrgico quanto ele recebia por mês. Trinta dólares, respondeu. Oficialmente. Por baixo do pano, porém, seu salário é dez vezes maior: 300 dólares. Na Rússia, tudo é por baixo do pano. Ninguém dá nota fiscal, ninguém recolhe imposto. Os russos continuam com a mesma aversão pelo lucro que tinham no passado. Antes, era por motivos ideológicos. Agora, para sonegar o Fisco. Não sei qual é o tamanho da economia informal russa. Só sei que eles são mais ricos do que aparece nas estatísticas oficiais. Há casas de câmbio em todas as esquinas de Moscou. Não se vêem turistas nessas casas de câmbio, apenas russos. Todo mundo guarda dólares debaixo do colchão. Somando a poupança de todos os russos, há bilhões e bilhões de dólares circulando pelo país.

Enfim, a tendência à homogeneização planetária é mesmo irrefreável. Até a Rússia está ficando cada dia mais parecida com o resto do mundo. Para quem a observa de fora, talvez perca um pouco da graça. Mas é muito melhor para quem vive lá dentro.