A Rússia é
uma decepção
Ilustração
Miriam Duenhas 
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Acabo de voltar de Moscou.
Por sete dias e sete noites, andei distraidamente por todos
os cantos da cidade, com a esperança de que algum
delinqüente me assaltasse. Ainda melhor, que me baleasse.
Ainda melhor, que implodisse o luxuoso hotel em que eu estava
hospedado e, milagrosamente, só eu conseguisse escapar
ileso, em meio a dezenas de cadáveres mutilados.
Nada. Pelo contrário: assim que viam a minha cara
de contrabandista caucasiano, os moscovitas aceleravam o
passo e olhavam com desconfiança para trás.
A imprensa internacional, com suas histórias sobre
máfia, corrupção política e
tráfico de prostitutas, induziu-me a pensar que nenhum
lugar do mundo pudesse oferecer tantas possibilidades de
aventuras quanto a Rússia. Ao chegar lá, infelizmente,
não vi nada disso. Moscou me pareceu tão pacata
quanto qualquer cidade da Europa Ocidental. Quase sonolenta.
Uma decepção.
Também me decepcionei
com o clima em torno das eleições presidenciais.
Acompanhei a minha intérprete Anie até a escola
em que ela votaria. Mais do que isso: segui-a até
a cabine eleitoral e votei junto. Ela fez um traço,
eu fiz o outro, compondo um X no quadradinho que indicava
"contra todos os candidatos". Pode parecer estranho que
nenhum soldado armado tenha impedido o meu acesso à
cabine eleitoral, mas juro que foi exatamente o que aconteceu.
Naquela mesma noite, vi um alarmado jornalista da TV inglesa
declarar que Moscou, no período eleitoral, era como
uma cidade em estado de assédio. Devo ser meio tonto,
porque não percebi. A julgar pela minha experiência,
os russos votaram com surpreendente tranqüilidade,
como se sempre tivessem votado. Efetivamente, é esse
o caso: eles sempre votaram. A diferença é
que, no passado, havia um só candidato, e agora existem
doze, embora, de acordo com Anie, sejam todos iguais.
Se a violência
e a repressão ficaram muito aquém do esperado,
o mesmo se pode dizer em relação à
miséria. Os correspondentes estrangeiros haviam-me
preparado para encontrar um país reduzido à
mais absoluta indigência. Em todas as reportagens
que faziam, deleitavam-se em perguntar aos trabalhadores
russos quanto ganhavam de salário. A resposta era
sempre igual: 30 dólares. Resolvi imitá-los.
Perguntei a um metalúrgico quanto ele recebia por
mês. Trinta dólares, respondeu. Oficialmente.
Por baixo do pano, porém, seu salário é
dez vezes maior: 300 dólares. Na Rússia, tudo
é por baixo do pano. Ninguém dá nota
fiscal, ninguém recolhe imposto. Os russos continuam
com a mesma aversão pelo lucro que tinham no passado.
Antes, era por motivos ideológicos. Agora, para sonegar
o Fisco. Não sei qual é o tamanho da economia
informal russa. Só sei que eles são mais ricos
do que aparece nas estatísticas oficiais. Há
casas de câmbio em todas as esquinas de Moscou. Não
se vêem turistas nessas casas de câmbio, apenas
russos. Todo mundo guarda dólares debaixo do colchão.
Somando a poupança de todos os russos, há
bilhões e bilhões de dólares circulando
pelo país.
Enfim, a tendência
à homogeneização planetária
é mesmo irrefreável. Até a Rússia
está ficando cada dia mais parecida com o resto do
mundo. Para quem a observa de fora, talvez perca um pouco
da graça. Mas é muito melhor para quem vive
lá dentro.