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Edição 2051

12 de março de 2008
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Cinema
Para rir e doer

Mais discreto do que de costume, Michael Moore
mostra o mal da ganância para a saúde


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Mutilado por uma serra, um homem recebe do hospital duas alternativas: reparar o dedo anular, por 12.000 dólares, ou o médio, por 60.000 dólares. "Sendo sentimental, ele optou pelo anular", ironiza o documentarista e polemista Michael Moore em $.O.$. Saúde (Sicko, Estados Unidos, 2007), desde sexta-feira em cartaz. Não ter convênio médico, como o sujeito acima, é uma desgraça – mas tê-lo pode ser tão ruim quanto, argumenta Moore neste documentário, em que esmiúça os abusos e as distorções do sistema americano de seguridade de saúde. Como sempre, o alvo de Moore é a ganância corporativa, e o modo como ela corrói o tecido social do país. Como sempre também, ele aqui recita estatísticas como quem saca coelhos da cartola, e pratica um tanto de demagogia. Numa seqüência que virou objeto de inquérito, Moore leva um punhado de voluntários que trabalharam nos destroços das Torres Gêmeas para receber, em Guantánamo, a assistência médica que a burocracia lhes nega nos Estados Unidos. Proibido de entrar na base militar, segue para um hospital de Havana, onde os doentes americanos são tratados a pão-de-ló – "como acontece com qualquer cubano", juram os médicos, sorrindo para as câmeras ianques, e Moore, oportunista, finge que acredita. Mas algo ele aprendeu com as surras que levou por conta da egomania e das manobras duvidosas de Fahrenheit 11 de Setembro. Em $.O.$. Saúde, ele reduz drasticamente seu tempo em cena. E, mais ao ponto, exercita algo muito próximo da objetividade.

Num dos trechos mais divertidos do filme, Moore interpreta com grande efeito sua persona de americano caipira. Em visitas ao Canadá e à Europa, arregala os olhos diante de exemplos de eficiência da medicina socializada e faz perguntas sonsas para receber respostas elucidativas. Em outros trechos, estes sombrios, documenta fraudes contra segurados e expõe uma prática medonha hoje em curso em alguns hospitais americanos: a de despejar pacientes desorientados, ainda de camisolão, à porta de missões de caridade, porque eles não têm como pagar sua conta. "Que espécie de gente nós nos tornamos?", Moore indaga. Nesses momentos, fica claro por que um país – qualquer país – necessita da dissensão e da controvérsia para sobreviver como democracia. Moore não é perfeito, mas o setor que ele quer colocar em questão também não poderia estar mais longe de sê-lo.


 

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