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Edição 2051

12 de março de 2008
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Amiga dos carrascos

A história da escritora judia que fez sucesso
com romances anti-semitas e morreu em Auschwitz


Miguel Sanches Neto

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Trecho do livro

O último romance de Irène Némirovsky permaneceu esquecido em uma mala por mais de sessenta anos. Depois que a escritora judia morreu de tifo no campo de concentração de Auschwitz, em 1942, o manuscrito de Suíte Francesa ficou em poder das filhas, que imaginavam tratar-se de um diário pessoal. Só em 2004 o livro foi redescoberto e publicado na França, país onde Irène – nascida em Kiev, na Ucrânia, em 1903 – fez sua carreira literária. Embalado pela biografia dramática da autora, Suíte Francesa tornou-se uma sensação e até freqüentou listas de mais vendidos nos Estados Unidos. E, claro, despertou interesse para a obra anterior da escritora, que passou a ser reeditada depois de décadas de ostracismo. Uma surpresa incômoda viria daí: no seu retrato dos judeus, a ficção de Irène pesava a mão nos piores estereótipos racistas. Recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora que publicou Suíte Francesa, O Senhor das Almas (tradução de Rosa Freire d’Aguiar; Companhia das Letras; 232 páginas; 43 reais) dá motivos de sobra para a acusação de anti-semitismo que pesa sobre a autora – mas é também uma poderosa reflexão sobre os dramas morais de um exilado que tenta assimilar a cultura do país de adoção.

Filha de uma família abastada que deixou a Ucrânia depois da revolução comunista, Irène teve desde cedo uma educação francesa. Não se via como uma judia da Europa Oriental – preferia se imaginar como uma ocidental que participava do grande mundo da cultura. Foi como tal que fez sucesso entre os intelectuais da direita francesa nos anos 30. Seus mais de dez romances, que tendiam para o naturalismo, estavam voltados para o conflito entre os valores rústicos das aldeias e os da civilização. O descompasso entre esses dois mundos era flagrado na trajetória de estereótipos que fixavam uma imagem negativa dos judeus como criaturas mesquinhas, afeitas ao dinheiro e indiferentes às coisas do espírito. Com a invasão da França pelos alemães, Irène mudou-se de Paris para o interior e se viu obrigada a publicar seus textos anonimamente. Quando ela afinal foi presa, em 1942, seu marido pediu sua libertação ao embaixador alemão, argumentando que, apesar da origem judaica da mulher, seus livros não mostravam nenhuma simpatia pelo judaísmo. Mas a perseguição desfez a distância entre Irène e o judeu comum, o que modificaria a sua literatura. Suíte Francesa, seu último livro, já não opõe mais raças. É um testemunho dramático dos padecimentos da massa humana em tempos de guerra.

Publicado como folhetim em 1939 na revista Gringoire, de orientação anti-semita, O Senhor das Almas é um livro de passagem. O personagem principal é o médico Dario Asfar – como a autora, um fugitivo do comunismo que se estabelece na França. Só o que ele deseja, ao recomeçar a vida no exílio, é criar o filho que está por nascer e cuidar da esposa frágil. Mas a sociedade o vê apenas como um judeu desclassificado, e ele acaba confirmando essa visão preconceituosa. Enriquece recorrendo às práticas mais ilícitas – faz abortos clandestinos e professa uma versão charlatã da psicanálise. Mas há um fim nobre que tenta justificar os seus meios: o futuro do filho. Dario se corrompe para que o filho possa tentar a posse de um outro mundo, que ele não conseguiu ter. Só uma nova geração poderia buscar a igualdade que lhe era negada pela sociedade francesa a que ela tanto desejava se assimilar – essa parece ser a crença de Irène Némirovsky. A invasão nazista tratou de mostrar que até isso era impossível.



 

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