A presidente do STF
fala sobre a modernização
do Judiciário e explica por que, apesar de católica,
endossa a pesquisa científica com embriões humanos
Carlos Graieb
Ana Araujo
"O desafio
do Judiciário é se
reestruturar. Não adianta só
aumentar o número de juízes
e varas. A longo prazo, isso
não funciona"
Ellen Gracie Northfleet
encerra, no próximo dia 26, seu período de dois
anos como presidente do Conselho Nacional de Justiça.
Um mês mais tarde, ela também deixa a presidência
do Supremo Tribunal Federal. Seu mandato à frente das
duas instituições foi movimentado. Denúncias
sobre nepotismo e a necessidade de ajustar os salários
dos magistrados ao teto do funcionalismo público puseram
o Judiciário sob crítica. O STF esteve no centro
do noticiário ao acolher a denúncia contra os
envolvidos no mensalão e também ao impor aos políticos
a fidelidade partidária o que causou atritos com
o Legislativo. Na semana passada, outra causa polêmica
entrou em pauta: aquela que vai decidir sobre a validade dos
artigos da Lei de Biossegurança que autorizam a pesquisa
científica com embriões humanos. O julgamento
foi adiado, mas Ellen Gracie antecipou seu voto, rejeitando
a ação de inconstitucionalidade. A ministra, de
60 anos, se define como pragmática. Nesta entrevista,
mostra sua paixão pela "carpintaria administrativa"
que permitirá à Justiça superar os seus
gargalos e se modernizar.
Veja Na
semana passada, a senhora considerou que a lei que autoriza
o uso de embriões humanos na pesquisa científica
é constitucional. Qual a justificativa desse voto? Ellen Gracie Eu
não enxerguei, nos artigos da Lei de Biossegurança
que falam sobre embriões, nada que ferisse a ordem constitucional.
Meu raciocínio parte do princípio de que nosso
sistema jurídico protege duas entidades, o "nascituro"
e a "pessoa". Esses conceitos têm um significado
muito preciso no direito. O nascituro, a criança que
aguarda o nascimento no ventre da mãe, tem algumas expectativas
de direito no campo da herança, por exemplo. Já
a pessoa, do ponto de vista do nosso ordenamento, só
passa a existir no instante do nascimento com vida. É
aí que surge a personalidade jurídica, segundo
o nosso Código Civil. Ora, o embrião criado in
vitro não é nascituro, pois não foi implantado
no útero da mãe, nem pessoa, no sentido técnico.
Ele não desfruta as garantias que se aplicam aos dois
casos. Quanto ao princípio constitucional do direito
à vida, eu creio que ele não é ferido no
caso das pesquisas com embriões que seriam descartados
ou permaneceriam congelados indefinidamente. Essas pesquisas,
a médio ou a longo prazo, devem resultar em benefício
para um grande número de pessoas. Elas também
têm o objetivo de proteger a vida uma vida íntegra
e saudável para portadores de doenças. Sigo aqui
uma linha de raciocínio que tem uma longa história
no campo jurídico aquela que, no conflito aparente
entre normas, opta pelo bem maior, produzido com o menor sacrifício
possível.
Veja Em algum momento no curso desse julgamento a senhora se viu
num dilema por causa de convicções religiosas?
Ellen Gracie
Eu sou católica, estudei em colégio de freiras.
Mas não sou juíza do Supremo para expressar minhas
crenças religiosas, e sim para analisar as leis à
luz da Constituição e do restante do sistema jurídico.
Veja Outro caso complexo sob análise do STF é o
do mensalão. Procede a idéia de que o tribunal
não tem estrutura para lidar com um processo desse tipo,
que envolve uma extensa coleta de provas? Ellen Gracie
A idéia de que o Supremo não atua bem em causas
penais é falsa. Na verdade, somos um foro criminal muito
célere. Atualmente, temos 81 processos penais nesta casa,
70% com menos de um ano de tramitação. O processo
do mensalão vem transcorrendo de maneira ágil.
Uma das principais razões para isso se deve ao fato de
estarmos digitalizando todos os seus documentos. Já são
mais de 70.000 páginas escaneadas. Imagine o que aconteceria
se não tivéssemos feito isso. Cada vez que o advogado
de um dos réus pedisse vista do processo, haveria uma
delonga. E estamos falando de quarenta réus. Com a digitalização,
todos os envolvidos podem ter acesso aos autos simultaneamente.
Além disso, estamos conduzindo a fase de depoimentos
de maneira rigorosa. Recebi vários pedidos de adiamento
durante o mês de fevereiro, mas julguei que nenhum deles
era procedente. Logo deveremos encerrar a oitiva dos réus.
Veja Nas próximas fases do processo, haverá dezenas
de testemunhas a ouvir. E os advogados de defesa certamente
usarão todos os recursos disponíveis para retardar
o momento da sentença. Teremos um festival de réus
livrando-se do processo por causa da prescrição? Ellen Gracie
Esse é um risco que faz parte do jogo. Podemos criticar
nossas leis processuais pelo número exagerado de recursos
à disposição dos advogados. Mas, enquanto
as regras forem essas, não haverá o que fazer.
Mais do que a faculdade, os advogados têm o dever de lutar
pelo interesse de seus clientes usando todas as armas da lei.
E o Poder Judiciário não pode saltar etapas em
um julgamento nem agir de maneira que desrespeite o devido processo
legal. Todos gostaríamos que o processo no Brasil fosse
mais ágil e enxuto. Para que isso aconteça, é
preciso reformar a legislação.
Veja Quando a denúncia contra os "40 do mensalão"
foi apreciada, alguns ministros sugeriram que a imprensa e a
opinião pública punham "uma faca no pescoço
do Supremo". A atenção do público
incomoda? Ellen Gracie
O tribunal está acostumado com isso. Nós atuamos
de portas abertas, o que é raríssimo: só
acontece na Suíça, no México e no Brasil.
Temos um canal de televisão que transmite os julgamentos,
e até nossas sessões administrativas são
franqueadas aos interessados. Isso deixa espantados juízes
estrangeiros que vêm nos visitar. Se o tribunal não
tem segredos, não há por que temer a atenção
do público, mesmo nos momentos em que ela é mais
aguda.
Veja Na semana passada, o presidente Lula disse que seria muito
bom se o Poder Judiciário "só metesse o nariz"
nos seus próprios assuntos. O Judiciário brasileiro
avança na seara dos outros poderes? Ellen Gracie
O Judiciário é um poder inerte. Ele só
age quando provocado pelas vias legais. Quando recebemos uma
ação, contudo, temos de dar uma resposta
e isso às vezes significa estabelecer uma regra, ou ampliar
o escopo de uma lei que já existe. Foi o que fizemos
recentemente, por exemplo, ao aplicar às greves do serviço
público as normas que valem no setor privado. Ou ao afirmar
que o mandato de um parlamentar pertence ao seu partido. Seria
mais confortável para nós não ter de lidar
com esse tipo de dificuldade. Mas às vezes as questões
se arrastam por anos no Congresso e acabam desaguando no Judiciário.
Esse fenômeno da judicialização da política
não acontece só no Brasil. É uma tendência
em muitos lugares, um resultado da dificuldade de obter consenso
sobre certos temas no plano do Legislativo. Outra fonte de tensão
entre os poderes nasce da troca de opiniões em público.
Alguns presidentes falam bastante, outros são mais quietos.
O mesmo vale para juízes e parlamentares. Tudo bem
não se faz democracia com pensamento único. Enquanto
a tensão entre os poderes for pontual, ela será
saudável. É isso que acontece no Brasil.
Veja O presidente Lula já nomeou sete ministros da corte.
Notadamente, substituiu os últimos ministros indicados
pelo regime militar. Isso significou uma mudança profunda
no perfil do STF? Ellen Gracie
Eu considero muito injusta essa divisão entre os nomeados
pelo governo militar e os nomeados pelos governos posteriores.
Mesmo durante a ditadura, a corte seguiu funcionando. Submetida
a pressões, soube garantir os direitos do cidadão.
Há um trabalho acadêmico interessante sobre o papel
do Judiciário nas ditaduras na América Latina.
Ele conclui que o número de vítimas da repressão
no Brasil foi menor porque aqui os conflitos eram judicializados,
ou seja, havia espaço para que eles fossem tratados no
âmbito institucional. Recordemos o caso Herzog, em que
um jornalista preso por razões políticas foi encontrado
morto em sua cela. Em pleno período militar, foi um juiz
federal de primeira instância que comandou o julgamento
e condenou a União. O Brasil tem esse diferencial e deve
valorizá-lo. Em 2008, comemoramos os 200 anos de Judiciário
independente no Brasil. Com a vinda da família real portuguesa
para cá, nossos tribunais deixaram de se submeter a Lisboa.
Eu diria que é isto que estamos celebrando: um Judiciário
isento e autônomo na pessoa dos seus juízes. Novos
integrantes sempre virão ao Supremo, cada um com sua
bagagem. Mas o que eu vejo é uma grande continuidade.
Veja Pensando no futuro, qual o maior desafio para o Judiciário
brasileiro? Ellen Gracie
É o de se reestruturar. Já está provado
que não adianta simplesmente aumentar o número
de juízes e o número de varas. A longo prazo,
a tática do "mais do mesmo" não torna
o Judiciário nem mais ágil nem mais moderno. Só
com a criação de novos procedimentos encontraremos
uma saída para os nossos problemas. E estamos vencendo
esse desafio. Às vezes, mexer só um pouquinho
nas praxes dá um resultado imenso. Por exemplo, decidimos
que a presidência do STF poderia descartar recursos com
vícios formais. Desde que a medida foi tomada, descartamos
26.000 processos. Ao impedirmos que eles avançassem,
poupamos tempo e mão-de-obra. Isso sempre é importante,
se lembrarmos que 70% do tempo de um processo é gasto
com burocracia. Outro exemplo de mudança estrutural,
mais ambicioso, está na criação dos juizados
especiais. Eles têm se mostrado muito eficientes. Sua
taxa de congestionamento é de 33%, contra 75% da Justiça
comum. Eu diria que um segundo desafio é levar a população
a uma mudança de mentalidade. Num país de 186
milhões de habitantes, temos 34 milhões de causas
pendentes. É uma litigiosidade altíssima. Por
isso lançamos no ano passado uma campanha pelo uso de
meios alternativos de solução de conflitos, como
a conciliação e a mediação.
Veja Recentemente foi criado o processo judicial eletrônico.
Qual o impacto dessa medida? Ellen GracieEnorme. Creio que esse projeto, batizado de Projudi,
é o mais revolucionário na alçada do CNJ.
Sem exagero, eu diria que ele tem potencial para mudar a face
da Justiça brasileira, tão criticada pela lentidão.
O sistema é bastante inteligente e flexível
podemos, por exemplo, reparar facilmente o software a distância.
E alguns dos juizados eletrônicos estão em lugares
de difícil acesso. Onde implantamos o sistema, o tempo
médio entre o ajuizamento de uma ação e
a sentença de primeiro grau tem ficado em 33 dias, o
que é extraordinário.
Veja A adoção das súmulas vinculantes, que
obrigam as demais instâncias do Judiciário a seguir
o entendimento do Supremo num determinado tema,foi saudada
como um avanço, no sentido de diminuir o volume de processos
nos tribunais. Mas em 2007 o Supremo só promulgou três
súmulas. Ele foi tímido no uso da ferramenta? Ellen Gracie
Tímido não, cauteloso. Analisamos oito temas no
ano passado e concluímos que só em três
deles o consenso era maduro o bastante para ser traduzido em
súmula vinculante. Sabemos que a ferramenta é
poderosa, mas o enunciado tem de ser muito claro e preciso para
que os resultados sejam os melhores. Ao tornar-se obrigatória
não apenas para as diversas instâncias do Judiciário,
mas também para a administração pública,
uma boa súmula pode de fato diminuir o número
de processos. Na medida em que vincula o poder público
a um certo entendimento em questões tributárias
ou previdenciárias, por exemplo, ela diminuirá
os casos em que o contribuinte sentirá necessidade de
recorrer à Justiça. Gostaria de ressaltar que
a súmula vinculante também aumenta a segurança
jurídica. Acabam aquelas situações em que,
num mesmo assunto, um cidadão recebe uma sentença
e o seu vizinho, a sentença oposta.
Veja No ano passado, uma reportagem de VEJA revelou que
ministros do Supremo temiam ser alvo de escutas ilegais. Como
esse episódio influiu na rotina da corte, e na sua em
particular? Ellen Gracie
Creio que alguns colegas tiveram maior cautela nas suas conversas
telefônicas. E isso foi tudo. O mais importante é
que o país está enfrentando essa questão
no âmbito de uma CPI, cujo objetivo é dar segurança
a todos os cidadãos, coibindo o uso das escutas indevidas,
que a certa altura pareceu estar fora de controle. Como integrante
do Supremo, reitero o óbvio sobre esse assunto: nenhuma
prova obtida de forma ilícita tem valor em juízo.
Veja Criado há cerca de três anos, o Conselho Nacional
de Justiça logo se tornou uma espécie de arena
para brigas administrativas. Foi para isso que ele foi criado? Ellen Gracie
Num primeiro momento, juízes e funcionários que
tinham alguma reclamação contra órgãos
do Judiciário inundaram o CNJ com demandas e o transformaram,
de fato, numa espécie de segunda instância administrativa.
Quando percebemos essa tendência, passamos a combatê-la.
Querelas individuais não estão mais sendo julgadas,
só aquelas que têm alcance geral. A idéia
de um conselho no Brasil foi uma tentativa de copiar o que já
existia em muitos países da América Latina, bem
como na Espanha e em Portugal. Ocorre que nesses lugares o Judiciário
não é considerado um poder de estado. Ele é
altamente vinculado ao Executivo ou ao Legislativo. Nesse contexto,
um conselho tem o papel de aliviar a pressão dos outros
poderes sobre a magistratura. No Brasil, o Judiciário
é um poder autônomo. Por isso, creio que a melhor
vocação do conselho é ser uma instância
de reflexão e planejamento para o Judiciário.
E é isso que ele está se tornando.
Veja O Judiciário apareceu sob luz negativa nos últimos
tempos por causa de casos de nepotismo e pela resistência
de diversos magistrados e tribunais a enquadrar salários
ao teto do funcionalismo. Esses problemas estão superados? Ellen Gracie
Nesses dois assuntos, o Judiciário fez a sua parte. Houve
investigação e houve depuração.
Os casos de nepotismo correspondiam a apenas 1% de nossa força
de trabalho. Eles foram identificados e expurgados. Ficou claro,
além disso, que esse tipo de apadrinhamento não
será mais aceito daqui por diante. Quanto aos altos salários,
concluímos, ainda no ano passado, uma análise
das fichas financeiras de todos aqueles cuja remuneração
ultrapassava o teto. Isso feito, o CNJ encaminhou determinações
a todos os tribunais para que se fizessem os cortes necessários.
Tanto na questão do nepotismo quanto na dos salários,
o Judiciário estabeleceu um precedente importante, que
merece ser seguido pelo resto do funcionalismo.