|
Cartas
A saúde do brasileiro Excepcional a reportagem
"Um raio X da saúde dos brasileiros" (5 de
março) e oportuna a divulgação dos dados
mais recentes colhidos pelo sistema Vigitel. Mais do que uma
simples pesquisa, o Vigitel é um sistema de monitoramento
que permite a atualização contínua de informações
essenciais para a promoção da saúde e a
prevenção das principais doenças crônicas
que afetam a população brasileira. Embora baseadas
em uma amostra da população adulta servida por
telefone, as estimativas do Vigitel são ajustadas estatisticamente
para representar a estrutura sociodemográfica de toda
a população adulta que reside nas 27 cidades monitoradas.
O sistema é fruto de uma parceria de muitos anos do Ministério
da Saúde com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas
em Nutrição e Saúde da Universidade de
São Paulo. O Serviço de
Orientação ao Exercício (SOE), foi inaugurado
exatamente no dia 20 de janeiro de 1990 e já chegou a
atender 9 000 pessoas por mês, ação permanente
de impacto considerável numa população
total de 300 000 habitantes. Ao longo desses dezoito anos,
o SOE, que integra o SUS municipal, recebeu várias menções,
condecorações e foi considerado modelo pela Sociedade
Brasileira de Medicina Esportiva (SBME) e pela Federação
Internacional de Medicina Esportiva (Fims). VEJA chamou a atenção
do país para os ditos fatores de risco, para doenças
crônicas, causas de morte, invalidez, redução
de qualidade de vida e custos altos. As crianças e os
adolescentes devem ser o foco principal das medidas preventivas
dos bons hábitos de vida, pois é nessas faixas
etárias que vêm crescendo drasticamente as taxas
de obesidade, o tabagismo, o sedentarismo, o uso excessivo de
álcool e as dislipidemias (alterações nos
níveis de colesterol e triglicérides). Gostaríamos
de cumprimentar o Ministério da Saúde pela pesquisa
e VEJA pela precisa reportagem que desvenda os hábitos
de saúde em nosso país. Acompanhamos mais de 10
000 portadores de doenças crônicas, como diabetes,
hipertensão, problemas respiratórios e cardíacos,
e sabemos da importância da educação e do
conhecimento na melhora das condições de saúde
e da qualidade de vida dessas pessoas. Quando nossos pacientes
aceitam a patologia e nosso acompanhamento, em grande parte
baseado em educação, a melhora é sensível.
Nesse sentido, a publicação da reportagem foi
importantíssima para mostrar àqueles que ainda
não desenvolveram condições crônicas
onde está a origem da maioria dos problemas: o descuido
com a própria saúde. Muito oportuna a reportagem,
principalmente na vertente sobre tabagismo ("Vício
em queda") e com relação ao uso abusivo do
álcool ("Bebida em alta"). Valeu muito o alerta
para a necessidade urgente de implantação de políticas
públicas do controle do álcool que possam evitar
o caos, políticas essas que incluam preço mais
elevado, sobretaxas destinadas à sobrecarga dos serviços
de saúde, projetos de prevenção para crianças
e jovens e maior fiscalização. Toda essa importantíssima
questão de grande interesse social exige que o governo
Lula não seja omisso e enfrente todo tipo de lobby. É
difícil, mas já funcionou com o tabaco. Implica,
entretanto, integridade, coragem, competência e, acima
de tudo, demonstração do compromisso para fazer
prevalecer o real interesse público. Como médico
oftalmologista, diagnostico em muitos pacientes o diabetes melito
e a hipertensão arterial com um simples exame de fundo
de olho. Muitos desses pacientes ficam surpresos com o diagnóstico,
já que a maioria procura o oftalmologista pela primeira
vez entre os 40 e os 50 anos de idade, quando deveria fazê-lo
anualmente a partir dos 2 anos, portanto na primeira infância.
A consulta anual ao oftalmologista é capaz de diagnosticar
também o glaucoma, insidiosa patologia crônica
que pode levar à cegueira total. Lembramos que os maus
hábitos também se relacionam com o aumento da
incidência da doença renal crônica, atualmente
vista como um problema de saúde pública mundial,
uma vez que não representa apenas uma ameaça à
função dos rins em si, mas é um determinante
importante do desenvolvimento de doenças cardiovasculares
e de morte. Em consonância com a matéria de capa
de VEJA, sobre diabetes e hipertensão arterial, reforçamos
que essas condições são as duas principais
causas de doença renal crônica em quase todo o
mundo. Pode-se ficar com
a impressão de que se trata apenas de uma deficiência
de educação somos mal informados e temos
péssimos hábitos. Não é tão
simples. Povos mais "educados", "cultos"
e "informados" também têm maus hábitos:
os americanos estão mais gordos do que nós, os
europeus do Oeste fumam mais, os europeus do Leste bebem mais
etc. O que transparece é que estamos falando da
cultura de um povo cultura essa que pode mudar rapidamente,
como acontece em relação à obesidade, por
exemplo, e nos torna otimistas quanto a soluções
simples e eficazes contra esses problemas: políticas
de educação na saúde realizadas por amplas
camadas da sociedade organizada. Nós diminuímos
o vício do fumo e aumentamos excessivamente o alcoolismo:
não é preciso acrescentar nada para saber exatamente
o que fazer. De modo simples, rápido e eficaz, em menos
de dez anos os resultados surgirão, como ocorreu com
o vício de fumar.
Mayana Zatz A bióloga Mayana
Zatz (Amarelas, 5 de março), uma das maiores especialistas
em células-tronco do país, repete a saga
dos grandes cientistas, como Copérnico, Galileu, Sócrates e
uma infinidade de gênios que tiveram de lutar
contra a ignorância imposta pelos dogmas da Igreja aos
seus estudos e idéias. A ciência não deve
mais se curvar a esses obscuros pensamentos medievais. Quanto
a questões constitucionais, de que a vida é inviolável,
vê-se claramente que a Igreja (sempre a Igreja) ainda
influencia na criação das leis. Mayana Zatz utiliza
um discurso que não convence. Desde que os 23 cromossomos
do pai se juntam aos 23 cromossomos da mãe, está
coletada toda a informação genética necessária
e suficiente para exprimir todas as características inatas
de um novo indivíduo. Aceitar o fato de que, após
a fecundação, um novo indivíduo começou
a existir já não é questão de gosto
ou de opinião. E isso é até mesmo científico
a própria embriologia entende dessa forma. Evidentemente,
o zigoto é o primeiro momento de vida, mas não
é a vida toda. Com ele se inicia o processo de desenvolvimento
contínuo, com as etapas que se sucederão, num
processo durante o qual emergirão suas potencialidades.
Mas o zigoto já é pessoa, homem ou mulher, num
avanço contínuo para uma progressiva complexidade,
e o ser humano não se reduz às suas características
exclusivamente biológicas. A argumentação
clara e serena de Mayana Zatz não deixa margem a dúvidas.
As pesquisas com células-tronco a partir de embriões
inviáveis não infringem nenhuma lei. Ao contrário
de sua proibição, que atentaria contra vidas que
já existem. Quanto às restrições
religiosas, é bom lembrar que algumas religiões
não aceitam nem mesmo as transfusões de sangue,
que nem por isso são proibidas por lei. Estruturar a argumentação
de qualquer pesquisa sobre um sofisma ("enquanto os embriões
não têm células nervosas nem estão
num útero, não são seres vivos", afirmação
da doutora Zatz que atropela noções elementares
de biologia) não contribui em nada para o desenvolvimento
da ciência nem para a credibilidade do cientista, por
melhores que sejam as intenções. A necessidade
de pesquisas para buscar a cura de doenças de pessoas
(crianças, adultos ou idosos) não justifica o
sacrifício da vida de outras pessoas, ainda que estejam
nas primeiras fases de sua existência. Por fim, a mesma
ciência que se responsabiliza por manipular a vida humana
in vitro não pode se eximir do dever de buscar destinos
à altura da dignidade humana para os embriões
congelados, e esses destinos nunca podem ser a destruição. Com todas as dificuldades
típicas do Brasil quanto à realização
de pesquisas de maneira geral, devemos lembrar que nosso país
é o pioneiro e tem a maior experiência mundial
nas pesquisas clínicas com células-tronco adultas
para o tratamento de diabetes melito tipo 1. De 21 pacientes
que já se submeteram ao tratamento no Hospital das Clínicas
de Ribeirão Preto USP, dezoito permaneceram sem
utilizar insulina por algum tempo. Há pacientes que estão
há quase quatro anos sem insulina e com uma qualidade
de vida excelente. A doutora Mayana,
apesar de ser uma grande pesquisadora, precisa rever conceitos
simples e fundamentais, tais como: o que é óvulo,
espermatozóide, fecundação, ovo e embrião.
Utilizar embrião para pesquisa é idêntico
a usar, para experiências científicas, seu filho
de 12 anos, ou seu pai de 40, ou sua avó de 80 e, como
ela mesma diz, depois descartá-los. Vida nunca se descarta.
Embrião é um ser vivo, sim. Concordo que a lei
brasileira de biossegurança necessita ser debatida, principalmente
sob o ponto de vista da ética. Ética essa que
deve englobar também os sentimentos dos pacientes acometidos
por alguns dos males que as pesquisas com células-tronco
poderiam beneficiar.
André Petry André Petry
se supera a cada semana. A forma como ele desnuda o que move
nosso nobre procurador-geral Cláudio Fonteles, o que
real-mente está por trás de sua retórica
com relação às pesquisas, é um presente
ao leitor para que este possa formar sua opinião de maneira
imparcial e equilibrada. Obrigado ("É pesquisa (ou
lixo)", 5 de março). Concordo, admiro e
aplaudo o ponto de vista de André Petry a respeito da
Lei da Biossegurança. Realmente, o nosso procurador está
a serviço de um determinado grupo, enquanto o assunto
é de interesse humano. Para o diabo o catolicismo
medíocre do procurador Cláudio Fonteles. Tenho
um sobrinho de 23 anos, lindo, inteligente e portador de distrofia
muscular progressiva. Sua única esperança de concluir
a universidade ainda andando é ter um tratamento com
células-tronco embrionárias, capazes de produzir
células musculares. É incrível que haja
quem prefira jogar tais células no lixo. Que o STF seja
mais sensato. Se Lula é a
anta do Diogo, Petry é a minha lula. De fato, a democracia
de Lula não admite que o Judiciário "meta
o nariz" nas coisas dele, e a de Petry não admite
que o católico exerça a cidadania. Pobre democracia,
a da anta do Diogo e a da minha lula. Quanto ao lixo, espero
um sepultamento digno ao fim da vida, não só para
mim, mas também para a anta, a lula e os embriões.
Evanildo Bechara Por sua bondade, dedicação,
inteligência, cultura e amor ao trabalho de professor,
categoria que honra e à qual continua a servir por tão
profícuas décadas, o professor Evanildo Bechara
extrapola a condição de especialista em gramática
e assume a estatura de um admirável sábio, um
verdadeiro gênio brasileiro dos estudos lingüísticos
("O decano do português", 5 de março).
Como responsável pela promoção do Ciclo
de Estudos Contemporâneos em Língua Portuguesa,
durante o qual ele ministrou magníficos cursos, todos
disponíveis em DVD (www.letrinhas.com.br), compreendi
que suas lições não se resumem a questões
gramaticais. Conviver com o mestre possibilita entender a linguagem
como o principal atributo humano para uma vida melhor. Excelente a matéria
sobre os 80 anos do professor Evanildo Bechara. O mestre é
hoje, no Brasil, a maior referência viva em gramática
da língua portuguesa, e toda homenagem é
mais do que merecida.
Roberto Pompeu de Toledo O ensaio "Brasília,
essa desgraceira" (5 de março), assinado por Roberto
Pompeu de Toledo, revela o desafio que temos pela frente: fazer
Brasília perder os vícios que a tornam alvo de
preconceitos. Decisiva no processo de interiorização
do desenvolvimento, a nova capital fez o país olhar para
seu próprio interior e conquistá-lo. Hoje a utopia
compete com a realidade. Brasília é, ainda, a
cidade planejada, bela e monumental. E é também
um retrato 3 por 4 das imensas desigualdades no Brasil. Mas,
aqui, ainda há tempo para impedir que se repitam os equívocos
que degradaram as grandes metrópoles brasileiras. Cabe
à nossa geração evitar que o sonho dos
construtores de Brasília se transforme em pesadelo. Parabéns a
Roberto Pompeu de Toledo por tocar num tabu: criticar a
criação de Brasília. Infelizmente, vivi
anos naquela cidade sem alma e percebi claramente como campeia
a corrupção e a facilidade de atuação
dos lobistas, empresários e políticos desonestos
que lá, encapsulados e isolados, encontraram campo
fértil para se enriquecer ilicitamente.
Lya Luft Magnífico o
Ponto de vista "Por que nos mutilamos?" (5 de março),
da brilhante Lya Luft, sobre a constante busca pela juventude
e beleza eternas. É um absurdo ver a que as pessoas
são capazes de se submeter para buscar padrões
de beleza impostos pela ditadura do mundo fashion. Ser bonita
é estar alegre, saudável, com cabeça boa
para aceitar a maturidade, de bem com a vida e com os outros,
pois só assim podemos ser realmente felizes!
Diogo Mainardi Diogo Mainardi, eu
sei a causa da cefaléia que o atormenta ("A minha
enxaqueca", 5 de março). Sou médico e tenho
sintomas parecidos. Provavelmente, é por causa de um certo
molusco.
Colômbia Como residente na
Colômbia há treze anos, só posso testemunhar
que o povo colombiano odeia as Farc e, conseqüentemente,
seus líderes, que tanta dor vêm causando há
mais de quarenta anos a este país. Seria muito bom o
apoio internacional, principalmente dos países sul-americanos,
na luta contra a guerrilha colombiana. Sem desmerecer a violação
da fronteira do Equador pelo Exército da Colômbia,
por que ninguém pergunta (ou responde) como é
que as Farc tinham um acampamento de retaguarda naquele país
("Notícias do terror", 5 de março)?
Ministro Carlos Lupi Sou filiado ao PDT
desde 1989. Infelizmente, o presidente do partido está
transformando o espólio político de Leonel Brizola
num balcão de negócios, inclusive escusos. Entre
a maioria dos pedetistas, o constrangimento é geral,
pois é difícil respaldar um governo repleto de
escândalos corporativos e ainda tolerar um ministro individualista,
carreirista e comprovadamente sem votos ("Não foi
falta de aviso", 5 de março)!
Ministério dos Esportes Agora começo
a compreender por que esses comunistas gostam tanto de um regime
ditatorial, sem sociedade livre, sem imprensa livre e com um
aparato estatal que imponha o silêncio aos seus cidadãos
(como sempre fez o ditador cubano Fidel Castro). É para
que eles possam praticar corrupção em todos os
níveis de poder sem que sejam incomodados ("A caixa-preta
dos comunistas", 5 de março).
|
|
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|