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Edição 1 793 - 12 de março de 2003
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DVDs

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., Estados Unidos, 1950. Paramount) – Gloria Swanson tinha sido uma estrela idolatrada na era do cinema mudo, mas estava completamente esquecida desde o início dos anos 30. A culpa fora, em certa medida, do diretor austríaco Erich von Stroheim, que também tinha em extravagância o que tinha em talento. Von Stroheim enfrentara um sem-número de escândalos com a censura e fora demitido por praticamente toda Hollywood. Desde 1928, quando dirigira Gloria em Queen Kelly – um desastre para ambos –, estava banido dos sets. William Holden era bem mais novo que os dois, mas sua carreira estava se tornando cada vez mais insignificante. Foram essas três tristes figuras que o diretor Billy Wilder escolheu para protagonizar essa obra-prima (nunca lançada em vídeo no Brasil). Mais apropriado, impossível. Crepúsculo é narrado pelo roteirista Joe Gillis (Holden), que começa o filme boiando morto numa piscina e explica os eventos que levaram ao seu assassinato. Sem dinheiro e sem trabalho, ele se envolve com Norma Desmond, uma estrela decadente do cinema mudo (Gloria, claro), e seu estranho mordomo (Von Stroheim), que alimenta com fidelidade patética as ilusões de grandeza da patroa. Magnificamente escrito e filmado, o filme é de uma crueldade sem par no seu comentário sobre a ambição, a vaidade e a falta de escrúpulos que regem Hollywood. "Eu ainda sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos", diz Norma, numa das falas mais célebres do cinema. Os filmes, talvez. Wilder, não.

Alvorada Cinematográfica
Brandauer, como o coronel Redl:
o manipulador manipulado


Coronel Redl
(Oberst Redl, Hungria/Alemanha/Áustria, 1985. New Line) – Na ótima entrevista incluída nos extras, o diretor húngaro István Szabó diz que, na juventude, tentou descobrir o que torna o cinema único. A resposta que encontrou foi a sua capacidade de revelar a transformação que as emoções provocam no rosto humano. Redl é um exemplo e tanto dessa capacidade – no que o elenco, liderado por Klaus Maria Brandauer, ajuda muito. Alfred Redl é um filho de camponeses que consegue uma vaga na Academia Militar do Império Austro-Húngaro. Para pagar sua dívida de gratidão, ele defende sanguineamente a monarquia e o imperador Francisco José, a despeito de todos os seus erros desastrosos. Como em outros filmes de Szabó, o dilema aqui gira em torno de um homem que se acredita um manipulador – até descobrir, tarde demais, que sempre foi manipulado, e que sua força nada significa diante de suas fraquezas.

10 Years of Later: 30 Great Live Performances, vários intérpretes (Warner) – Exibido no Brasil pelo canal pago People+Arts, o programa Later... With Jools Holland, da rede inglesa BBC, honra o bordão do "quem sabe faz ao vivo". O apresentador e pianista Holland traz ao palco nomes consagrados do pop internacional, artistas emergentes e atrações de world music em performances acima da média. 10 Years of Later seleciona trinta entre as melhores apresentações do programa, acrescidas de entrevistas e cenas de bastidores. Há desde a energia do grupo sueco The Hives (Hate to Say I Told You So) até o rock cerebral de Radiohead e R.E.M. (Paranoid Android, Country Feedback). Os pontos altos são as divas Mary J. Blige e PJ Harvey, que combinam talento e sensualidade nas faixas No More Drama e Down by the Water.

 

DISCOS

How Sweet It Is, Joan Osborne (Sum) – Quem se lembra da cantora apenas pelo hit chatinho One of Us, de 1996, terá uma surpresa agradável ao conferir esse disco. How Sweet It Is mostra que Joan se sai melhor como intérprete do que como compositora. Ela, que começou cantando em bares antes de ser descoberta por um olheiro do selo Mercury, recria diversas gemas da soul music e do rock das décadas de 60 e 70, dando às composições um toque de originalidade. Love's in Need of Love Today, de Stevie Wonder, por exemplo, ganhou uma pegada eletrônica. Smiling Faces Sometimes (que o grupo Temptations gravou em 1970) foi encorpada pelos vocais cavernosos de Isaac Hayes. O ponto alto do CD é a recriação de Axis: Bold as Love, de Jimi Hendrix. Até o lendário guitarrista ficaria arrepiado com os arranjos de cordas e sopros e os vocais delicados que Joan imprimiu à canção.

 
André Lobo
Nana Caymmi: grande voz da MPB

Nana Caymmi e Renascer, Nana Caymmi (CID) – Se alguém tinha dúvidas da importância de Nana Caymmi na história da MPB, pode comprovar seu talento nesses dois CDs, lançados originalmente em 1975 e 1976. Com sua voz grave, Nana se destaca pelo estilo emotivo de canto – uma habilidade de interpretação compartilhada apenas com nomes como Elis Regina e Maria Bethânia. Nana Caymmi debutou em discos no início dos anos 60. Logo depois, mudou-se para a Venezuela com o marido, e retomou a carreira apenas na década seguinte. Os discos foram produzidos por Dori Caymmi, irmão da cantora, e têm repertório primoroso que vai de Milton Nascimento (Ponta de Areia) a Tom Jobim (Pois É). Destaque, em Renascer, para Desenredo, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro.

 

LIVROS

Os Órfãos de Ruanda, de Elmore Leonard (tradução de Aulyde Soares Rodrigues; Rocco; 241 páginas; 28 reais) – Um dos mais originais autores de ficção policial em atividade, o americano Leonard inicia seu romance num cenário inusitado: Ruanda, a nação africana dilacerada por conflitos étnicos. É lá que o americano Terry Dunn mantém uma pequena paróquia. Seu comportamento tem pouco em comum com o de um padre normal, e o leitor logo percebe que está diante de um dos carismáticos pilantras que são a especialidade de Leonard. Antes de mudar-se para a África, Dunn foi contrabandista e fraudador de impostos nos Estados Unidos. E é para lá que terá de voltar – para enfrentar velhos fantasmas e algumas aventuras novas. Leonard disse certa vez que sua única regra ao escrever era "cortar todas as partes chatas". A regra foi seguida à risca nesse livro.

Sangue na Lua, de James Ellroy (tradução de Alves Calado; Record; 270 páginas; 38 reais) – Mesmo antes da consagração definitiva com Dália Negra e Los Angeles, Cidade Proibida, o americano Ellroy criou um personagem antológico do gênero policial: o detetive Lloyd Hopkins. Ele foi protagonista de uma série de três romances, dos quais esse, lançado originalmente em 1984, é o primeiro. Suas principais características são o QI altíssimo e a obsessão em resolver seus casos – que o levam a descuidar-se de sua vida íntima e aproximar-se com freqüência da ilegalidade. Sua tarefa nesse livro tenso é prender um psicopata responsável por vinte assassinatos – e só Hopkins consegue enxergar a ligação que existe entre os crimes, cometidos ao longo de muitos anos. Leia trechos do livro.

   
 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Nobel, Laselva, Sodiler, Siciliano, Argumento, Travessa; Porto Alegre: Saraiva, Nobel, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Nobel, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Nobel, Saraiva, Siciliano; Natal: Nobel, Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano, Nobel; Fortaleza: Siciliano, Laselva, Nobel; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Nobel, Leitura; Maceió: Sodiler, Nobel.
   
 
   
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