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Edição 1 793 - 12 de março de 2003
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Stephen Kanitz

A origem do especulador

"O Brasil perde muito mais dinheiro
com especulações
premeditadas,
que aumentam as dívidas interna
e externa,
do que por corrupção"


Ilustração Ale Setti


A palavra "especulador" tem sua origem na raiz indo-germânica "Spec", que significa olhar. São dessa raiz as palavras especialista, espelho, expectativa, respeito, espetáculo e, finalmente, especulador: aquele que olha à frente, vê o futuro, aquele que enxerga aquilo que outros não vêem. Toda nação precisa de bons especuladores.

Especuladores que enxergam o futuro ganham dinheiro, os que erram perdem e são rapidamente eliminados. O problema não é o especulador que especula com o próprio dinheiro. O grande problema do Brasil são os que especulam com o dinheiro dos outros, com o dinheiro do povo.

George Soros, considerado o maior especulador da década, percebeu que o governo inglês estava manipulando a libra, mantendo-a na paridade com o marco alemão. Ao prever o óbvio, que a Inglaterra não era a Alemanha, Soros prestou um serviço ao povo da Inglaterra, pondo fim àquela especulação governamental, e ganhou fortunas por sua coragem.

Em 2000, o governo brasileiro lançou um global bond de 1 bilhão de dólares pagável em quarenta anos. Ofereceu uma taxa de 13,5% ao ano, sem ter a menor idéia de qual será a inflação americana em 2010. Muito menos em 2040. O juro (real) a ser pago é, portanto, desconhecido, o que fere os princípios de aprovação orçamentária pelo Congresso e fere também a Constituição.

Provavelmente, os governantes especularam que a inflação americana e o juro real seriam os mesmos por quarenta anos. Especularam mal, a inflação americana caiu, e quem vai pagar por essa diferença por mais 38 anos? Você, caro leitor.

Não satisfeitos, lançaram títulos da dívida interna em dólar, apesar de nossa moeda ser o real. Provavelmente especularam que o dólar voltaria a 2,80 reais. Especularam mal. O dólar está indo para 3,80. E quem vai pagar essa conta? Você e seus filhos, por muitos e muitos anos.

Nossos intelectuais saem acusando "especuladores", alegando que fomos "vítimas de um ataque especulativo do mercado" e esquecendo-se de alertar nossos jornalistas de que quem especulou em primeiro lugar foi justamente o governo.

Mario Henrique Simonsen assinou na década de 70 dívidas externas com juros que flutuavam APÓS a assinatura do contrato. Provavelmente especulou que os juros se manteriam mais ou menos iguais pela duração do contrato. Especulou mal. A taxa subiu para 17%, o que detonou a crise da dívida externa, que nos custa caro até hoje. Quando lhe perguntei por que assinara contratos com juros em aberto, respondeu que ninguém poderia ter previsto aquela alta dos juros. De fato, e por isso os governos nunca poderiam ter permissão para assinar contratos chamados pelo nosso direito de "aleatórios". Os governantes precisam ser proibidos de especular com o dinheiro dos outros.

Finalmente, o atual governo "aumentou" a taxa de juros sem ter clara a idéia de qual será a inflação de setembro, outubro e dezembro de 2003. Os que criticaram o governo pelo aumento foram injustos e incorretos, porque ninguém sabe se o juro (real) subiu ou caiu; só saberemos quando a inflação do ano for conhecida. Aliás, ninguém sabe qual o juro atual do Banco Central. Por isso a especulação continua.

O futuro sempre trará surpresas (e prejuízos) ao gestor público, mas deliberadamente especular o futuro é brincar com fogo. Contratos públicos não podem ter cláusulas deliberadamente especulativas. Os governos deveriam reduzir riscos, não aumentá-los.

A sociedade deveria se preocupar com esse novo fenômeno, o da especulação pública, e de preferência antes que se crie um Banco Central independente. O problema para o Ministério Público é que essas operações são juridicamente perfeitas, dentro da lei, e normalmente o gestor não se beneficia, nem de forma escusa. São operações bem-intencionadas, mas que causam dezenas de bilhões de dólares de prejuízo e sofrimento humano. O Brasil perde muito mais dinheiro com essas especulações premeditadas, que aumentam as dívidas interna e externa, do que por corrupção não detectada. Como impedir especuladores públicos, daqui para a frente, de inviabilizar ainda mais nosso futuro?


Stephen Kanitz é administrador
(www.kanitz.com.br)


 
 
   
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