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Roberto
Pompeu de Toledo
George
W. Bush, o procurador de Deus
O
governo americano embrenhou-se
por uma senda onde política é religião,
e religião é política
O que há de mais assustador em George W. Bush é que ele
pensa que Deus está do seu lado. Pretensão maior não
pode haver, nem sentimento mais arrogante. Se Deus está do meu
lado, eu posso tudo. Mesmo que todos discordem de mim, nada abala a convicção
de que sou o único justo. O substantivo carisma e o correspondente
adjetivo carismático foram tão malversados, nos últimos
anos, que sofreram um irreversível processo de desvalorização.
Todo mundo foi dado como "carismático", de cantores de rock a técnicos
de futebol. Dono de verdadeiro carisma, na concepção original
teológica da palavra, que segundo o Dicionário
Houaiss significa "dom extraordinário e divino concedido a
um crente ou grupo de crentes", julga-se Bush. Pobres de nós. Se
ele acha que Deus está do seu lado, segue-se que se atribui o papel
de intérprete de Deus, e executivo-chefe da vontade divina. Salve-se
quem puder.
A reportagem de capa da última revista Newsweek versa sobre
"Bush e Deus". O colunista Nicholas Kristof, do New York Times,
escreveu sobre tema semelhante, na semana passada. Os dois textos iluminam
o entendimento sobre o homem sentado na mais poderosa cadeira do mundo
e, por tabela, sobre o clima no país que ele dirige. "Este presidente
baseia-se mais resolutamente na fé do que nenhum outro em tempos
modernos", afirma a Newsweek. Para a revista, a Presidência
Bush é "um empreendimento fundado, apoiado e guiado pela confiança
no poder temporal e espiritual de Deus". Por sua vez, o colunista do New
York Times escreve ser "impossível entender o presidente Bush
sem ter em conta a centralidade de sua fé".
A reportagem da Newsweek mostra como o ambiente de prece e de Bíblia
tomou conta da Casa Branca. Bush cercou-se de colaboradores tomados, como
ele, do fervor evangélico. Eles formam a vanguarda de uma direita
cristã que encasquetou ter por missão missão
é bem a palavra reformar o mundo. A reportagem sugere que
esse traço, mais do que o petróleo ou as imposições
da indústria bélica, explicaria a flama com que o governo
americano investe no ataque ao Iraque. Bush, como presidente, não
chega a dizer que sua religião é a única verdadeira.
Mas, antes de chegar à Presidência, segundo lembra a Newsweek,
dizia sim. Em 1993, quando ensaiava candidatar-se a governador do Texas,
defendeu a tese de que só quem acredita em Jesus vai para o céu.
Houve uma pequena gritaria a respeito, inclusive porque o repórter
com quem dialogava era judeu, mas ele não julgou necessário
desculpar-se. Sabia que no Texas de tantos crentes tal afirmação
não pegaria mal.
Eis um fator que redobra o problema: o reinado do bu-shismo coincide com
uma maré montante de exaltação religiosa, não
só no Texas, mas nos Estados Unidos em geral. Isso nos remete ao
artigo de Nicholas Kristof. Quarenta e seis por cento dos americanos se
dizem evangélicos ou cristãos convertidos, segundo pesquisa
Gallup citada por ele. Tal dado, de acordo com o colunista, configura
uma importante mutação na sociedade americana: "Os evangélicos
moveram-se das margens para o centro, e isso é particularmente
evidente nesta administração". Claro que nem todos os evangélicos
são belicistas ou donos da verdade. Cometeríamos grave erro,
nós brasileiros, que convivemos com uma massa evangélica
em que despontam tanto Marisa Silva como Anthony Garotinho, se os considerássemos
todos iguais. Mas constituem uma audiência mais treinada para ouvir
discursos em que se fala da luta do Bem contra o Mal, de Deus contra Satanás.
O ponto de Kristof é o divórcio crescente entre os ambientes
intelectualmente refinados de Nova York, Boston e outros centros do nordeste
dos EUA e a América profunda, temente de Deus e leitora da Bíblia.
Num jantar em Nova York, escreve o colunista, quando o assunto é
crime, faz-se ligação com miséria e injustiça.
Quem falar em Satã será olhado como um animal exótico.
Na América da Bíblia, Satã é a associação
dominante. Bush é "criacionista", quer dizer, acredita em Adão
e Eva, e repudia o evolucionismo. Quarenta e oito por cento dos americanos,
ainda segundo o Gallup, citado outra vez por Kristof, também são,
e só 28% acreditam no evolucionismo. No Brasil os dados talvez
sejam parecidos, mas há uma diferença: aqui esta não
é uma questão. Não divide a população
nem causa tumulto nas escolas, como nos EUA. O fato de lá o criacionismo
se digladiar sangrentamente com o evolucionismo, como talvez em lugar
algum no mundo, constitui um dos traços mais bizarros da civilização
americana, mais ainda do que ter um futebol que se joga com as mãos.
Para voltar à Newsweek, a revista afirma que as idéias
de Bush sobre a arte de governar se confundem com suas idéias religiosas
e têm origem nos mesmos círculos onde se discutem religião
e fé. Eis o ponto a que chegamos, 200 anos depois do triunfo das
Luzes e da afirmação da idéia da separação
entre Igreja e Estado: a maior das potências embrenha-se por uma
senda onde política é religião, e religião
é política. Osama bin Laden não acha outra coisa.
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