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Edição 1 793 - 12 de março de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

George W. Bush, o procurador de Deus

O governo americano embrenhou-se
por uma senda onde política é religião,
e religião é política

O que há de mais assustador em George W. Bush é que ele pensa que Deus está do seu lado. Pretensão maior não pode haver, nem sentimento mais arrogante. Se Deus está do meu lado, eu posso tudo. Mesmo que todos discordem de mim, nada abala a convicção de que sou o único justo. O substantivo carisma e o correspondente adjetivo carismático foram tão malversados, nos últimos anos, que sofreram um irreversível processo de desvalorização. Todo mundo foi dado como "carismático", de cantores de rock a técnicos de futebol. Dono de verdadeiro carisma, na concepção original – teológica – da palavra, que segundo o Dicionário Houaiss significa "dom extraordinário e divino concedido a um crente ou grupo de crentes", julga-se Bush. Pobres de nós. Se ele acha que Deus está do seu lado, segue-se que se atribui o papel de intérprete de Deus, e executivo-chefe da vontade divina. Salve-se quem puder.

A reportagem de capa da última revista Newsweek versa sobre "Bush e Deus". O colunista Nicholas Kristof, do New York Times, escreveu sobre tema semelhante, na semana passada. Os dois textos iluminam o entendimento sobre o homem sentado na mais poderosa cadeira do mundo e, por tabela, sobre o clima no país que ele dirige. "Este presidente baseia-se mais resolutamente na fé do que nenhum outro em tempos modernos", afirma a Newsweek. Para a revista, a Presidência Bush é "um empreendimento fundado, apoiado e guiado pela confiança no poder temporal e espiritual de Deus". Por sua vez, o colunista do New York Times escreve ser "impossível entender o presidente Bush sem ter em conta a centralidade de sua fé".

A reportagem da Newsweek mostra como o ambiente de prece e de Bíblia tomou conta da Casa Branca. Bush cercou-se de colaboradores tomados, como ele, do fervor evangélico. Eles formam a vanguarda de uma direita cristã que encasquetou ter por missão – missão é bem a palavra – reformar o mundo. A reportagem sugere que esse traço, mais do que o petróleo ou as imposições da indústria bélica, explicaria a flama com que o governo americano investe no ataque ao Iraque. Bush, como presidente, não chega a dizer que sua religião é a única verdadeira. Mas, antes de chegar à Presidência, segundo lembra a Newsweek, dizia sim. Em 1993, quando ensaiava candidatar-se a governador do Texas, defendeu a tese de que só quem acredita em Jesus vai para o céu. Houve uma pequena gritaria a respeito, inclusive porque o repórter com quem dialogava era judeu, mas ele não julgou necessário desculpar-se. Sabia que no Texas de tantos crentes tal afirmação não pegaria mal.

Eis um fator que redobra o problema: o reinado do bu-shismo coincide com uma maré montante de exaltação religiosa, não só no Texas, mas nos Estados Unidos em geral. Isso nos remete ao artigo de Nicholas Kristof. Quarenta e seis por cento dos americanos se dizem evangélicos ou cristãos convertidos, segundo pesquisa Gallup citada por ele. Tal dado, de acordo com o colunista, configura uma importante mutação na sociedade americana: "Os evangélicos moveram-se das margens para o centro, e isso é particularmente evidente nesta administração". Claro que nem todos os evangélicos são belicistas ou donos da verdade. Cometeríamos grave erro, nós brasileiros, que convivemos com uma massa evangélica em que despontam tanto Marisa Silva como Anthony Garotinho, se os considerássemos todos iguais. Mas constituem uma audiência mais treinada para ouvir discursos em que se fala da luta do Bem contra o Mal, de Deus contra Satanás.

O ponto de Kristof é o divórcio crescente entre os ambientes intelectualmente refinados de Nova York, Boston e outros centros do nordeste dos EUA e a América profunda, temente de Deus e leitora da Bíblia. Num jantar em Nova York, escreve o colunista, quando o assunto é crime, faz-se ligação com miséria e injustiça. Quem falar em Satã será olhado como um animal exótico. Na América da Bíblia, Satã é a associação dominante. Bush é "criacionista", quer dizer, acredita em Adão e Eva, e repudia o evolucionismo. Quarenta e oito por cento dos americanos, ainda segundo o Gallup, citado outra vez por Kristof, também são, e só 28% acreditam no evolucionismo. No Brasil os dados talvez sejam parecidos, mas há uma diferença: aqui esta não é uma questão. Não divide a população nem causa tumulto nas escolas, como nos EUA. O fato de lá o criacionismo se digladiar sangrentamente com o evolucionismo, como talvez em lugar algum no mundo, constitui um dos traços mais bizarros da civilização americana, mais ainda do que ter um futebol que se joga com as mãos.

Para voltar à Newsweek, a revista afirma que as idéias de Bush sobre a arte de governar se confundem com suas idéias religiosas e têm origem nos mesmos círculos onde se discutem religião e fé. Eis o ponto a que chegamos, 200 anos depois do triunfo das Luzes e da afirmação da idéia da separação entre Igreja e Estado: a maior das potências embrenha-se por uma senda onde política é religião, e religião é política. Osama bin Laden não acha outra coisa.

 
 
   
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