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Edição 1 793 - 12 de março de 2003
Brasil Reforma agrária

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A lua-de-mel acabou

O MST suspendeu trégua com
o governo, promove onda de
invasões e ameaça endurecer

Marcos Vita

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse com o apoio de grupos que sempre reclamaram do governo. Durante as primeiras semanas da administração petista, funcionários públicos e sindicalistas guardaram sua lista de reivindicações em demonstração de boa vontade. O Movimento dos Sem-Terra, que sempre foi um dos críticos mais ativos do governo FHC, retraiu-se durante a campanha eleitoral e evitou manifestações que pudessem atrapalhar a vitória do PT. Mas errou quem apostava que sob a administração Lula os integrantes do MST adotariam comportamento diferente do que tiveram no governo anterior. Na semana passada, em uma ação ordenada, os sem-terra invadiram terras e prédios públicos em seis Estados e chegaram a instalar barracas de plástico preto e bandeiras vermelhas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Um representante do movimento avisou que acabou a lua-de-mel com o governo Lula. Os integrantes do MST voltaram a aparecer depois de quase um ano de retração. Encostarão o governo Lula na parede e exigirão que ele defina claramente se é a favor ou se vai reprimir as invasões de propriedades privadas e a depredação de prédios públicos, marca registrada do MST antes de Lula se tornar um candidato viável à Presidência da República. João Paulo Rodrigues, líder nacional do MST, disse que o movimento pretende cobrar "medidas enérgicas" do novo governo. Caso contrário, ameaçou, "faremos um novo levante no campo". Segundo ele, o movimento vai adotar "tolerância zero" com o latifúndio.

A fúria do MST causa espanto porque o presidente Fernando Henrique Cardoso entregou a seu sucessor uma realidade fundiária muito melhor do que ele encontrou. Em seu governo foi desapropriada uma área equivalente à metade do território da Alemanha, e mais de 635 000 famílias foram assentadas. Nenhum outro presidente fez tanto na história do país nesse terreno. Os estudos mostram que o latifúndio improdutivo, cavalo de batalha dos sem-terra, praticamente não existe mais. Em tese, Lula teria condições de administrar mais facilmente os conflitos no campo. Mas, curiosamente, enquanto os latifúndios foram divididos, o movimento prosperou. O MST começou fazendo marchas de protesto, partiu para a invasão de latifúndios improdutivos, fez saques, tomou prédios públicos e promoveu invasão de terras produtivas. Sua evolução reforça a idéia de que eles não querem só a terra. Terra já conseguiram bastante. Como algumas de suas lideranças já admitiram, eles desejam o poder.

Problemas no campo ainda existem, como revela o mais amplo estudo já feito sobre a qualidade da reforma agrária no Brasil, conduzido pela Universidade de São Paulo. A partir de 14.000 entrevistas realizadas em assentamentos, confirmou-se que a reforma quebrou o latifúndio e fez um eficiente trabalho quando se avalia a distribuição de terras sob a ótica da titularidade. Isso quer dizer o seguinte: um grupo reduzido de pessoas controlava as propriedades, que agora foram transferidas para as mãos de grupo mais amplo. Infelizmente, mostra o estudo, a reforma agrária não conseguiu vencer a miséria existente no campo. Sem crédito para o plantio, sem tecnologia e longe dos centros consumidores, quando muito as famílias assentadas conseguem produzir o bastante para sua subsistência. Ou seja, trocou-se o latifúndio improdutivo pelo minifúndio improdutivo.

Por anos, o partido do presidente Lula e o MST conviveram em clima de associação. Os líderes sem-terra pediam votos ao PT e o partido os acolhia da forma que podia. Quando governava o Rio Grande do Sul, o ministro das Cidades, Olívio Dutra, chegou a apoiar uma invasão de terras. O então vice de Olívio, Miguel Rossetto, é o atual ministro do Desenvolvimento Agrário. Na semana passada, Rossetto enfrentava um dilema. Um renitente apoiador de invasões da propriedade privada, ele agora tem de esconder essa sua velha paixão ideológica. Afinal, é ministro de Estado. É com essa vacilação entre paixão e realismo que o MST está contando em sua nova investida contra a ordem.

 
 



Foto André Penner
   
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