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Edição 1 793 - 12 de março de 2003
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Solidão entre amigos

ACM evita o Carnaval e, refugiado
com nova
amiga, aguarda quieto
o desfecho do grampo

 
Ana Araujo
ACM: cinco o acusam de fazer grampo, mas ninguém apareceu com uma prova documental


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Esquivo e arisco, o senador Antonio Carlos Magalhães passou o Carnaval recolhido à mansão de um amigo, o empresário João Carlos Di Genio, em Porto Seguro, no litoral da Bahia. Sob a acusação de ser mentor da central de grampos clandestinos montada no governo da Bahia, o senador evitou aparecer em público. Segundo um amigo próximo, ACM passou os dias de folia na discreta convivência de uma nova amiga, recém-entrada nos primaveris 20 anos e também estudante de direito, mesma faculdade cursada por sua ex-namorada Adriana Barreto, uma das vítimas da escuta ilegal. Preocupado com a repercussão do escândalo no terreno político, em que convive com a ameaça de cassação do mandato, e também no terreno pessoal, diante da revelação de seu caso extraconjugal com Adriana, ACM evitou até passeios à beira-mar, ao julgar inadequado deixar-se flagrar numa hora crítica em pleno lazer litorâneo, mas não se desgrudou do telefone. Dias depois de intensas conversas, recebeu a primeira notícia favorável desde que se puxou o primeiro fio da grampolândia baiana.

O presidente do Senado, José Sarney, velho amigo e aliado de ACM, engavetou um pedido da bancada do PT para abrir investigação sobre o grampo na Comissão de Ética do Senado. Sarney alegou que não havia "provas ou fatos novos" no pedido, e lançou mão de um argumento oblíquo: ACM não poderia ser julgado por quebra de decoro já que, na época do grampo, entre março e setembro de 2002, não exercia mandato parlamentar e, sendo assim, o julgamento pelo Senado só seria cabível se o senador já tivesse sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal. Trata-se, no fundo, de mais uma polêmica regimental saber se um parlamentar só precisa exibir retidão ética no exercício do mandato, e apenas nesse período. A questão voltará a debate nesta semana. Na quarta-feira, a Comissão de Ética da atual legislatura será instalada e, por iniciativa dos petistas, voltará a abordar o assunto. Os petistas, com a senadora Heloísa Helena à frente, querem retomar a discussão sobre a conveniência de instalar uma investigação preliminar sobre o caso.

Até agora, não há prova concreta do envolvimento de ACM na grampolândia, mas sua solidão política é visível, a ponto de aliados espalharem que já estuda a renúncia para evitar a cassação. Há cinco pessoas que, grampeadas, acusam o senador — dois deputados e um ex-deputado, além de Adriana e seu atual marido, o advogado Plácido Faria —, mas nenhuma apresentou indício documental contra ACM. Além dessas acusações, a central de grampos do governo baiano era movida por pessoas próximas do senador. Funcionava na Secretaria de Segurança, então chefiada por Kátia Alves, que ganhou a confiança de ACM ao esclarecer rapidamente um assalto ao seu apartamento, ocorrido cinco anos atrás. A investigação, à época, foi conduzida pelo delegado Valdir Barbosa, que também teve participação relevante nas escutas ilegais: assinou os pedidos fraudados, encaminhados à Justiça, solicitando o monitoramento dos telefones de adversários, ex-aliados e ex-amigos do senador. Por fim, a juíza que autorizou os grampos, aparentemente sem saber que estava sendo ludibriada, disse que foi procurada pelo deputado Paulo Magalhães e convidada a esquecer o caso. O deputado vem a ser sobrinho do senador.

Com quase um mês de investigação, a Polícia Federal tomou o depoimento de catorze pessoas. Sabe que o técnico Alan Farias, que operava os grampos clandestinos, ganhava 1.800 reais na Secretaria de Segurança, mas tem um patrimônio mais vistoso do que seu padrão salarial permitiria. Também sabe que o então chefe de Alan Farias na Secretaria de Segurança, o delegado Valdir Barbosa, é dono de uma empresa de investigação no interior da Bahia, contrariando as regras do funcionalismo público, que impedem um servidor de gerenciar empresa privada. Valdir Barbosa e Alan Farias, embora neguem saber da ilegalidade do grampo, foram indiciados pela polícia. Nada disso esclarece o caso nem implica o agora solitário senador. Mostra, no entanto, que por trás do festival de grampos na Bahia há muito a esclarecer.

 
 
   
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