
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Saiu
a 1ª reforma:
o
aumento dos deputados
No
momento em que a renda do
brasileiro
cai e os servidores não
recebem
reajuste, os congressistas
elevam
o salário e a verba de gabinete
Cristiano Mariz/ObritoNews
 |
| O
presidente da Câmara, João Paulo, no centro da mesa diretora
da Casa: decisão custou 61 milhões de reais |

Veja também |
|
|
|
Em
maio, o salário mínimo deve passar de 200 reais para 234
reais um aumento de 17%. É o que dá, avisa a equipe
econômica. O funcionalismo público vai receber um reajuste
mais modesto, de apenas 2,5% neste ano. É o máximo que o
cofre agüenta, informa o governo. Na iniciativa privada, a situação
é ainda pior. Em 2002, a renda das pessoas caiu 15% em relação
ao ano anterior, e os trabalhadores não têm força
para negociar aumentos. Essa é a realidade no Brasil real, fora
do prédio do Congresso Nacional. Lá dentro, aconteceu algo
diferente. Em duas deliberações, a primeira delas ocorrida
em dezembro do ano passado, os congressistas reajustaram o salário
em 55% e elevaram em 70% a verba para despesas extras. Na quinta-feira
antes do Carnaval, aprovaram uma resolução que permite a
cada deputado contratar mais dois funcionários para trabalhar em
seu gabinete. Com os novos reajustes, cada deputado custará aos
contribuintes 69.800 reais por mês.
Quando os parlamentares aparecem na televisão reclamando do que
ganham, geralmente omitem detalhes importantes. O salário propriamente
dito é razoável, equivale a 9.500 reais (era de 6.300 reais
antes do aumento). Mas há uma parte considerável dos vencimentos
dos parlamentares que é recebida de forma indireta. Cada deputado
tem direito a uma verba de 12.000 reais para gastar na manutenção
de um escritório em seu Estado. O dinheiro é reservado para
pagar despesas do escritório e de locomoção dos congressistas,
mas graças a alguns artifícios a verba pode entrar direto
no bolso do parlamentar. É possível alugar um carro para
uso particular e mandar a conta para Brasília. O Congresso também
reembolsa contas de restaurante, gasolina e de telefone celular. Não
existe fiscalização dos gastos, basta apresentar a nota.
Um grupo de deputados mineiros chegou a comprar carros no sistema de leasing
e passou a nota para a Câmara como se fosse de aluguel. O expediente
foi descoberto pela imprensa.
Os deputados também recebem mais 3.000 reais por mês de auxílio-moradia
caso não queiram ocupar um apartamento funcional em Brasília.
Antigamente todos queriam o imóvel, mas hoje metade deles está
vazia. Os deputados preferem ocupar um quarto de hotel. Em alguns casos,
mesmo morando numa suíte apertada, optam pela comodidade de contar
com um serviço de camareiras e restaurantes. Muitos, no entanto,
usam a verba para comprar flats. O auxílio foi criado para que
os deputados possam ressarcir uma despesa de aluguel, não para
que eles aumentem o patrimônio à custa do contribuinte. Cada
deputado consegue comprar um imóvel de 144.000 reais. Fora esses
recursos, cada gabinete tem direito a mais 45.300 reais para pagamento
de passagens aéreas, correio, telefone e assessores. Graças
a essas tacadas, a despesa da Câmara sofrerá um acréscimo
de 61 milhões de reais em 2003.
Os senadores também aproveitaram para rever os vencimentos. Aprovaram
uma lei que os autoriza a gastar mais 12.000 reais em despesas extras
nos Estados, além de seus vencimentos normais. O gabinete de um
senador é comparável a uma pequena empresa. Cada um pode
contratar até 29 pessoas, o uso de telefone é livre, o Congresso
reembolsa 500 reais para telefonemas feitos de casa e todos têm
celulares pagos pelo Estado. Além de tais facilidades, eles ainda
podem gastar impressionantes 66.000 reais apenas para postar correspondências.
Cada senador pode custar impressionantes 150.000 reais por mês.
No Congresso Nacional, apenas algumas vozes isoladas apareceram para reclamar.
Uma delas foi a deputada petista Luciana Genro. "Não se pode pedir
que os outros funcionários públicos tenham paciência
com o arrocho salarial dando esse péssimo exemplo", diz Luciana
Genro. Outro foi Fernando Gabeira, também do PT. "Os deputados
estão dizendo quanto merecem receber, e não quanto o Estado
pode pagar", afirma. O presidente da Câmara, João Paulo Cunha,
saiu pela tangente. Segundo ele, parte dos aumentos foi aprovada em janeiro,
pelos deputados que estavam terminando o mandato. "Os salários
do Congresso sempre serão injustos quando comparados ao salário
mínimo, mas não é certo privar os funcionários
de um reajuste decidido na administração passada", disse
Cunha, adotando a clássica explicação que as cúpulas
dirigentes da Câmara davam quando eram dirigidas pelo PFL e pelo
PMDB. Agora, ouve-se o mesmo da boca de um prócer do PT.
A sociedade e o Congresso mantêm um tipo de relacionamento esquizofrênico.
O eleitor escolhe um nome para representá-lo, poucas vezes se preocupa
em cobrar resultados e por quatro anos amaldiçoa a classe política.
Os políticos aparecem para pedir votos, fazem promessas e depois
somem. Em todo o mundo a sociedade vive de mal dos políticos
e uma das principais fontes de irritação segundo várias
pesquisas feitas sobre o assunto é justamente a questão
salarial. Todos se perguntam se os políticos merecem ganhar o que
ganham. A iniciativa privada tem métodos objetivos de avaliação.
Quanto maiores os resultados, maiores os bônus. Como medir o valor
de um deputado? Uma decisão que leve a uma saída para o
enrosco da Previdência teria um valor incalculável. Mas não
há maneira de criar metas de produtividade para os senhores parlamentares
nem formas de avaliar seu desempenho. "O que interessa não é
o salário nem quantas leis o deputado vota, mas o resultado que
essas leis trazem para o país", afirma o cientista político
Rubens Figueiredo.
Os parlamentares europeus ganham relativamente pouco comparados aos brasileiros,
ainda mais quando se cotejam os PIBs. Na França e na Alemanha,
por exemplo, salários e benefícios somados ficam na casa
dos 15.000 dólares mensais. O cidadão americano reclama
de problemas parecidos com os que se vêem aqui. Lá os parlamentares
também decidem seu próprio salário, com a agravante
de que criaram modelos de reposição automática da
inflação. Cada deputado pode contratar 22 funcionários
a um custo de quase 450.000 dólares anuais e gastar até
300.000 dólares com manutenção de escritório
e transporte em seu Estado. Eles podem até viajar de graça
em aviões e helicópteros da Força Aérea. No
começo dos anos 90, os Estados Unidos enfrentavam uma grave crise.
Mesmo assim, os deputados americanos se concederam aumentos muito superiores
à inflação. Num intervalo de dois anos, deram-se
30% de aumento nos vencimentos. O Congresso brasileiro está no
meio do caminho dos parlamentos europeus e do poderoso Congresso americano.
É
indiscutível que os congressistas devam ser bem pagos. A função
parlamentar remunerada é uma das grandes conquistas da democracia.
No tempo em que os vencimentos eram miúdos, as vagas do Congresso
eram ocupadas pelos barões e industriais. Ninguém se preocupava
com salários. Porém, a falta de remuneração
digna impedia os mais pobres de assumir funções políticas.
Sabe-se que a remuneração da maior parte das pessoas só
vai melhorar quando a economia brasileira voltar a crescer. E esta só
entrará nos eixos quando a classe política votar as reformas,
como a da Previdência e a tributária. Esperava-se que os
parlamentares se dedicassem a essas reformas com afinco. Mas o que se
viu até agora é que, em vez de trabalhar pelo Brasil, os
políticos trabalham em causa própria.
|
|
 |