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No
país do Carnaval
"Por
trás da fachada irreverente
do Carnaval, só
há um desavergonhado
e rastejante beija-mão"
O
camarote de Gilberto Gil, em Salvador, consagrou a ascensão do
novo poder político brasileiro. O ministro Antônio Palocci,
acompanhado pela mulher, Margareth, apareceu com uma camisinha pendurada
no pescoço. Onde Palocci estava no Carnaval de 2002? No desfile
de escolas de samba de Ribeirão Preto? Ou vistoriando os estragos
causados pelas enchentes em sua cidade? E o ministro Jaques Wagner? No
ano passado, ele proferiu um discurso contundente sobre a farra de recursos
públicos no Carnaval baiano, acusando a prefeitura de Salvador
de "engordar os bolsos de fabricantes de bebidas e trios elétricos".
Neste ano, ao lado do prefeito Imbassahy, Wagner rendeu-se à atmosfera
festiva do camarote de Gil. Com muito uísque e cerveja grátis,
assistiu à passagem dos trios elétricos abraçado
à mulher, Fátima, que vestia um "top" da estilista Vera
Arruda, segundo as colunas sociais. No discurso do ano passado, Wagner
também denunciou o ex-governador Antonio Carlos Magalhães
de se valer da construtora de seu ex-genro para desviar as verbas do orçamento
da Bahia e depositá-las em contas particulares no Econobank, das
Ilhas Cayman. Excepcionalmente, Antonio Carlos Magalhães não
compareceu ao camarote de Gil neste Carnaval. Mas compareceu em 2002.
E em 2001. E em 2000. Em 2002, ao vê-lo no camarote de Gil, o trio
elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar prestou-lhe uma comovida
homenagem. Em 2001, a banda Chiclete com Banana proclamou que "A Bahia
não vai deixar ACM só". Em 2000, o bloco Filhos de Gandhi
definiu-o como "o presidente da moralidade do Brasil". Carnaval é
assim mesmo. Por trás da fachada irreverente, só há
um desavergonhado e rastejante beija-mão. Basta ver a Beija-Flor,
que ganhou o concurso das escolas de samba do Rio de Janeiro com seu enredo
chapa-branca, de propaganda oficial, abençoado por aquele assustador
fantoche de Lula.
A filha do ministro José Dirceu foi fotografada no camarote de
Gil. No ano passado, quem passou por lá foi um dos filhos do ex-presidente
Fernando Collor de Mello, Arnon. Outro filho ilustre, José Sarney
Filho, mereceu elogios de Gil por sua atuação como ministro
do Meio Ambiente do governo Fernando Henrique Cardoso. Gil votou em Fernando
Henrique em 1994, contra Lula. Em 1998, um primo de Collor, Euclides Mello,
então candidato ao governo de Alagoas, declarou contar com o apoio
de Gil. Onde Euclides Mello se encontrava no Carnaval de 2003?
Se o camarote de Gil pode ser usado para traçar o mapa do poder
político no Brasil, outra notícia do período de Carnaval,
dada sem o menor destaque nas páginas locais de O Globo,
ajuda a delinear o perfil moral do brasileiro: "Walter Barbosa Júnior
furtou a carteira do turista chileno Ricardo Ramos. Após uma perseguição,
um grupo de trinta banhistas espancou o ladrão, levando-o para
o mar, na tentativa de afogá-lo, o que só não aconteceu
pela ação de seis guardas". Naquela segunda-feira, o jornal
estava cheio de referências aos dois malfeitores do momento, Fernandinho
Beira-Mar e Silveirinha. Os trinta linchadores de Copacabana foram perdoados.
O Brasil não tem espaço para tantos vilões ao mesmo
tempo.
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