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Freud
está vivo
Editor de nova tradução
da
obra de Freud diz que
a psicanálise funciona,
mas precisa se libertar
do controle dos iniciados
Eduardo Salgado
O inglês Adam Phillips, de 48 anos, tem se dedicado a uma tarefa
histórica: a organização da segunda tradução
do alemão para o inglês da obra de Sigmund Freud. O primeiro
volume da nova versão saiu no ano passado e, até o fim de
2004, serão publicados mais de dois terços do trabalho do
pai da psicanálise. Um dos psicanalistas mais influentes da Inglaterra,
Phillips pretende corrigir os erros e os excessos cometidos pela primeira
tradução, a que popularizou as idéias de Freud não
apenas nos países de língua inglesa, mas também na
Europa e na América Latina. Ele promete ser fiel ao estilo do original
de Freud que, garante, é mais acessível que o da
tradução tradicional. Com isso, quer libertar a psicanálise
do establishment médico. Autor de dez livros e reconhecido como
um dos grandes ensaístas de sua geração, Phillips
trabalhou no sistema de saúde inglês durante dezessete anos.
Separado e pai de uma menina de 8 anos, hoje atende apenas em um consultório
localizado no charmoso bairro de Notting Hill, em Londres, de onde deu
a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Freud criou o termo "psicanálise" no século
XIX. Tudo o que ele escreveu ainda faz sentido?
Phillips
Não. Várias coisas que ele disse não têm valor
hoje. Freud acreditava, por exemplo, que a sexualidade das mulheres é
mais misteriosa que a dos homens. No entanto, essas generalizações
imprecisas não invalidam toda a obra. Apenas reforçam a
necessidade de tirá-lo do altar em que foi colocado.
Veja Quem foi Freud? Um cientista, um escritor ou um charlatão?
Phillips
Foi um escritor que aspirava ser um cientista. Freud descobriu algo importante
e decidiu legitimar essa descoberta usando o critério científico,
que então era dominante. Essa tarefa se mostrou impossível.
Não há como testar ou checar a existência do inconsciente.
Não tem ninguém que possa testemunhar o sonho alheio. É
uma criação solitária. A ciência depende da
reprodução de experiências, e isso não é
possível na psicanálise.
Veja
Por que houve a necessidade de uma nova tradução
do trabalho de Freud?
Phillips
A
primeira tradução do alemão para o inglês foi
feita por James Strachey, com a ajuda de Anna, a filha de Freud. Começou
a ser publicada nos anos 50 e foi a principal responsável pela
popularização da psicanálise em todo o mundo. O grande
problema é que essa edição, chamada de standard,
acabou recebendo o tratamento de texto sagrado. Isso é uma besteira.
Acho que Strachey é maravilhoso, mas ele cometeu alguns deslizes.
O texto original é mais acessível que a versão em
inglês. Há pouco jargão no original. Strachey tentou
fazer um texto com termos mais científicos porque buscava a legitimidade
do meio médico. Sempre existiu o receio de que a psicanálise
soasse meio mística e artística. Os termos "ego", "superego"
e "id", que fazem parte dos conceitos básicos da psicanálise,
são de Strachey. No texto em alemão, Freud usou palavras
corriqueiras, como "eu", "supereu" e "isso".
Veja Essas diferenças são tão importantes
assim?
Phillips
São, sim. Chegou a hora de libertar Freud do establishment médico
e das universidades. A psicanálise tornou-se um culto misterioso
entendido e dominado apenas pelos iniciados. Não há necessidade
para isso. Agora, pessoas de vários setores podem ler, entender
e debater as idéias de Freud. Como a psicanálise é
uma cura pela linguagem, as palavras são muito importantes.
Veja
Strachey não estava certo em tentar fazer da psicanálise
algo mais científico para que ela fosse aceita?
Phillips
Por um lado, sim. Dá para fazer uma comparação com
um imigrante, que precisa assimilar a cultura legitimadora. Mas, por outro
lado, a herança de Freud foi dominada pelo establishment médico,
o que limitou as contribuições de vários outros grupos
dentro da sociedade. Na Inglaterra, muitos escritores e pintores da turma
de Virginia Woolf se interessaram pelo assunto. O problema é que
o trabalho de Freud tornou-se prisioneiro da própria respeitabilidade
que adquiriu. A psicanálise não é propriedade de
ninguém.
Veja Por que o número de cirurgias plásticas
e implantes de silicone não pára de aumentar?
Phillips
Hoje as pessoas têm mais medo de morrer do que no passado. Há
uma preocupação desmedida com o envelhecimento, com acidentes
e doenças. É como se o mundo pudesse existir sem essas coisas.
Há uma enorme sensação de invisibilidade. Todo mundo
acha que ficou de fora de algo, mas não sabe do que exatamente.
É como se sempre houvesse uma festa imperdível em algum
lugar e ninguém conseguisse encontrar o local. A obsessão
por beleza reflete a necessidade de ser amado e aceito.
Veja
Essa necessidade é maior hoje do que era no passado?
Phillips
Na cultura atual, parece que há apenas dez pessoas que realmente
estão vivendo. São as celebridades. O resto encontra-se
num nível bem mais baixo. Isso tudo é um absurdo sem tamanho.
A idéia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida
a ser invejada. Esse estado de coisas deixa muita gente enfurecida e infeliz.
Veja
Por que mulheres e homens parecem totalmente obcecados por dietas
de emagrecimento e exercícios?
Phillips
É uma nova versão do que Freud chamou de histeria. Mas,
desde que ele escreveu sobre o assunto, as coisas pioraram. Todos devem
estar se sentindo muito enfermos e vulneráveis para se preocupar
de forma tão doentia com a saúde. O sexo é outro
assunto preocupante. Hoje todo mundo fala de sexo, mas ninguém
diz nada interessante. É uma conversa estereotipada atrás
da outra. Vemos exageros até com crianças, que aprendem
danças sensuais e são expostas ao assunto muito cedo. Estamos
cada vez mais infelizes e desesperados com o estilo de vida que levamos.
Veja Isso tem relação com o número de
casos de depressão?
Phillips
Muitas pessoas conseguem suportar o mundo contemporâneo apenas num
estado de depressão. Se não estivessem assim, ficariam enfurecidas
e tentariam mudar o mundo. Hoje trabalhamos e produzimos numa velocidade
que impede a reflexão sobre o significado de nossa vida. Estamos
hipnotizados. Vivemos em sociedades em que é mais importante ser
rico do que ter amigos íntimos, mais importante ser famoso do que
amar. Isso é enlouquecedor. Estamos todos muito sós e famintos
de contatos eróticos que sejam genuinamente criativos.
Veja O que é depressão?
Phillips
Para muita gente, é melhor estar quase morto que totalmente vibrante
diante de uma situação difícil. A depressão
funciona como um escudo para evitar situações conflituosas.
Esse tipo de comportamento certamente aumentou. Dito isso, sofremos de
outro tipo de problema. É a indústria do diagnóstico.
Nos consultórios, qualquer tristeza é chamada de depressão.
Veja
Recentemente, pesquisadores americanos afirmaram ter encontrado
uma parte do cérebro que comprova a existência do inconsciente.
A ciência irá um dia validar as idéias de Freud?
Phillips
Não há como. A busca por uma explicação científica
é uma distração. O que Freud descreve é um
tipo diferente de experiência. A psicanálise é uma
prática de falar e escutar. Trata dos problemas enfrentados pelas
pessoas no dia-a-dia. Uma das questões centrais é: o que
faz a vida valer a pena? Como acabou fazendo parte da tradição
médica, a psicanálise parece ter o poder de curar doenças.
Mas não é bem assim. O objetivo é ajudar as pessoas
a descobrir o que desejam. Em alguns casos, como nas fobias, pode realmente
acabar com os sintomas. Em outros, o paciente toma consciência do
problema e descobre uma maneira de conviver com ele. Esse trabalho tem
relação direta com a individualidade e com a história
de cada paciente. É a ciência da singularidade. Funciona
com algumas pessoas e não exerce efeito positivo em outras.
Veja Muitas crianças têm agenda lotada de compromissos.
Há tempo para ser criança no mundo atual?
Phillips
Com certeza, não. As crianças entram na corrida pelo sucesso
muito cedo e ficam sem tempo para sonhar. Há grande ansiedade da
parte dos pais em relação ao futuro. Essa pressão
está literalmente enlouquecendo muitas crianças. A decisão
sobre a profissão está acontecendo cada vez mais cedo. No
século XIV, se as pessoas fossem perguntadas sobre o que queriam
da vida, diriam que buscavam a salvação divina. Hoje a resposta
é: "ser rico e famoso". Existe uma espécie de culto que
faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem
da vida.
Veja
Do ponto de vista dos pais, não é legítimo
o desejo de sucesso e riqueza para os filhos?
Phillips
Claro. Não acho que as crianças deveriam ser educadas para
se tornar revolucionárias. Mas é possível melhorar
o que temos. Os pais devem ter como objetivo garantir o futuro de seus
filhos e, ao mesmo tempo, deixá-los mais à vontade, com
mais tempo e espaço para ser menos focados, menos objetivos. Adiar
as decisões sobre o futuro, dar tempo ao tempo.
Veja O senhor consegue atingir esse equilíbrio com
sua filha de 8 anos?
Phillips
Acho que sim. Não fico tentando entender tudo que minha filha faz
e diz. Estou mais preocupado em que se divirta. Não acredito num
planejamento milimétrico para o futuro de uma criança, como
se tudo pudesse ser programado.
Veja Há alguns anos se fala da necessidade de dar
limites aos filhos. Por que os pais acham essa tarefa tão difícil?
Phillips
É assim porque os pais não acreditam nos limites. É
preciso acreditar neles para que funcionem. A cultura em que vivemos não
facilita esse trabalho. Os pais criam limites que a cultura não
sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam controlar a dieta dos filhos
dizendo que é mais saudável comer verduras do que salgadinhos
enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O
mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos
adolescentes. Muitos pais procuram argumentar que é necessário
ter um comportamento responsável enquanto a mídia diz que
não há limites.
Veja Como os pais podem resolver esse problema?
Phillips
Resolver o problema é algo muito ambicioso. O que podemos fazer
é instruir as crianças a interpretar a cultura em que vivemos.
O que está a nosso alcance é ensiná-los a ser críticos.
Mostrar que as propagandas não são ordens e devem ser analisadas.
Será que realmente precisamos de tal coisa? Será que é
a melhor opção? Será que tal comportamento é
o melhor? Outro problema é a incapacidade dos adultos de ser adultos.
Os pais também devem aprender a ser odiados pelos filhos em algumas
ocasiões. Muitas pessoas têm filhos porque acham que o nascimento
deles é uma garantia de que serão amados de forma incondicional
e eterna. Por isso, têm receio do ódio e da desaprovação
deles. Tratam crianças como se fossem adultos. Uma coisa precisa
ficar clara de uma vez por todas: embora reclamem, as crianças
dependem do controle dos adultos. Quando não têm esse controle,
sentem-se completamente poderosas, mas ao mesmo tempo perdidas. Hoje há
muitos pais com medo dos próprios filhos.
Veja Por que a psicanálise é tão popular
na América Latina e tão pouco disseminada na Ásia?
Phillips
Imagino que na Ásia o problema seja a religiosidade dos povos.
As idéias de Freud vão radicalmente contra a pregação
do hinduísmo, do islamismo e do budismo. Isso faz com que a assimilação
seja muito complicada. Sobre o sucesso na América Latina, não
tenho certeza. Talvez tenha a ver com fatores como a colonização
européia e a instabilidade política.
Veja Os remédios e as terapias alternativas estão
acabando com a psicanálise?
Phillips
A psicanálise está apenas começando. A experiência
de ser ouvido é muito poderosa. Definitivamente, tem efeito benéfico.
É verdade que num mundo ideal ninguém precisaria de analista.
O diálogo com os amigos daria conta do recado. O problema é
que não temos a coragem de contar certas coisas aos amigos. Outras
podemos até contar, mas os amigos não sabem como ajudar.
Veja Os amigos, pelo menos, não cobram uma exorbitância
para ouvir, não é verdade?
Phillips
Essa
crítica é totalmente válida. Ninguém deveria
escolher a profissão de psicanalista para enriquecer. Os preços
das sessões deveriam ser baixos e o serviço, acessível.
Deve-se desconfiar de analistas caros. A psicanálise não
pode ser medida pelo padrão consumista, do tipo "se um produto
é caro, então é bom". Todos precisam de um espaço
para falar e refletir sobre sua vida.
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