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Edição 1 793 - 12 de março de 2003
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Sérgio Abranches

Fora de seu tempo

"Bush é poderoso e limitado. Está fora
de sua época e tragicamente fora do
tom.
E seu canto de guerra desafinado
e velho ameaça todo o mundo. Como sempre"

Há quem defenda a tese de que o século XX só começou com a guerra de 1914 a 1918 e a Revolução Russa, de 1917. O atentado de Sarajevo, que marca simbolicamente o início da I Guerra Mundial, demarcaria o começo da transição entre o velho e o novo século e a revolução bolchevique seria o ponto de corte. O conflito mundial redesenhou as fronteiras geopolíticas do mundo moderno. O armistício trouxe ao pódio das nações líderes os Estados Unidos, de onde sairiam, ao longo do século, para a posição de nação hegemônica do Ocidente. O movimento de 17 culminaria na formação da União Soviética, o outro pólo hegemônico da ordem bipolar do século XX. Até esses eventos fundadores da nova ordem mundial, pontos de inflexão da história da humanidade, o século XX foi uma prolongação do século XIX.

Ilustração Ale Setti


Hoje está claro que o século XXI ainda é a prolongação do século XX. Mas, como a história não se repete, vivemos uma circunstância inquietante, de regresso a um período particularmente nocivo do século passado: de agressividade imperialista por parte da nação hegemônica. O atentado às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, pode ter sido o equivalente ao atentado de Sarajevo, demarcando a transição entre um e outro século, mas a resposta do governo Bush promoveu um lamentável regresso às doutrinas geopolíticas ultrapassadas dos anos 60.

Bush é coerentemente velho. Fisicamente, é um presidente jovem. Doutrinariamente, é obsoleto, tanto em política doméstica quanto na diplomacia, quanto, ainda, na economia. No front externo, está dando respostas convencionais a um ato nada convencional. Inventa uma guerra tradicional, quando tudo indica que a ameaça representada pelas redes terroristas e narcoterroristas requer novos métodos de combate. Domesticamente, o governo estadunidense vem estimulando um sentimento patriótico exacerbado e xenófobo. No plano mundial, está focalizando inimigos cujo grau de ameaça é, nitidamente, desproporcional à magnitude da ação objetivada por Bush.

Na economia, rompeu o padrão de responsabilidade fiscal arduamente conquistado e defende posições comerciais atrasadas, mascaradas de livre comércio. Bush disse a seu povo que será agressivo na defesa do livre comércio nas negociações para a Alca. Agressivo, é capaz de ser. Defender o livre comércio, não fará. A proposta estadunidense, à luz dos princípios do livre comércio, é uma fraude. Quase nenhum país americano está interessado no livre comércio para valer. As negociações, do jeito que a coisa vai, provavelmente não serão mais que uma troca de álibis para defender o protecionismo de cada um.

Saddam Hussein é indefensável, mas a atitude estadunidense também é, na forma e no conteúdo. Nomear a filha do vice-presidente para planejar o pós-guerra; indicar, previamente, um libanês naturalizado – uma confusão típica do velho imperialismo, incapaz de perceber as diferenças entre os outros povos – para governar o Iraque após a derrubada de Saddam são atitudes decrépitas, da época em que as nações hegemônicas impunham, se necessário pela força, governos títeres a países que supostamente ameaçavam a segurança nacional dos dominantes. Bush se prepara para atacar sem o apoio da ONU, enfrentando dificuldades logísticas consideráveis, sobretudo depois da negativa da Turquia de basear os bombardeiros dos EUA. Custará caro aos jovens americanos, que mais uma vez lutarão em terra estrangeira imaginando que estão defendendo valores quando são apenas instrumentos para a realização de interesses muito distantes desses valores. Os que tombarão do lado iraquiano estarão defendendo seu país e sua soberania, é certo. Mas eles estão sendo ameaçados não só por causa dos interesses do invasor, mas também da crueldade e insensatez do ditador que controla o país.

É evidente que os países que apóiam a insensatez terrorista e os governos que toleram o narcoterrorismo não têm justificativa moral nem política para seus atos. Há base moral para uma ação internacional contra esses governos. Governos que se mostrem amigáveis ou tolerantes a redes dessa natureza, seja a Al Qaeda, seja as Farc colombianas, merecem ser objeto de censura e sanção por parte das nações que desejam uma evolução cada vez mais civilizada para a humanidade. Mas pela via institucional, se possível pacífica, e nunca para realizar os interesses de domínio – econômico ou político – de qualquer outra nação.

Bush é poderoso e limitado. Está fora de sua época e tragicamente fora do tom. E seu canto de guerra desafinado e velho ameaça todo o mundo. Como sempre.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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