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Sérgio
Abranches
Fora de seu tempo
"Bush
é poderoso e limitado. Está fora
de sua época e tragicamente fora do
tom. E
seu canto de guerra desafinado
e velho ameaça todo o mundo. Como sempre"
Há
quem defenda a tese de que o século XX só começou
com a guerra de 1914 a 1918 e a Revolução Russa, de 1917.
O atentado de Sarajevo, que marca simbolicamente o início da I
Guerra Mundial, demarcaria o começo da transição
entre o velho e o novo século e a revolução bolchevique
seria o ponto de corte. O conflito mundial redesenhou as fronteiras geopolíticas
do mundo moderno. O armistício trouxe ao pódio das nações
líderes os Estados Unidos, de onde sairiam, ao longo do século,
para a posição de nação hegemônica do
Ocidente. O movimento de 17 culminaria na formação da União
Soviética, o outro pólo hegemônico da ordem bipolar
do século XX. Até esses eventos fundadores da nova ordem
mundial, pontos de inflexão da história da humanidade, o
século XX foi uma prolongação do século XIX.
Ilustração Ale Setti
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Hoje está claro que o século XXI ainda é a prolongação
do século XX. Mas, como a história não se repete,
vivemos uma circunstância inquietante, de regresso a um período
particularmente nocivo do século passado: de agressividade imperialista
por parte da nação hegemônica. O atentado às
torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, pode ter sido o equivalente
ao atentado de Sarajevo, demarcando a transição entre um
e outro século, mas a resposta do governo Bush promoveu um lamentável
regresso às doutrinas geopolíticas ultrapassadas dos anos
60.
Bush é
coerentemente velho. Fisicamente, é um presidente jovem. Doutrinariamente,
é obsoleto, tanto em política doméstica quanto na
diplomacia, quanto, ainda, na economia. No front externo, está
dando respostas convencionais a um ato nada convencional. Inventa uma
guerra tradicional, quando tudo indica que a ameaça representada
pelas redes terroristas e narcoterroristas requer novos métodos
de combate. Domesticamente, o governo estadunidense vem estimulando um
sentimento patriótico exacerbado e xenófobo. No plano mundial,
está focalizando inimigos cujo grau de ameaça é,
nitidamente, desproporcional à magnitude da ação
objetivada por Bush.
Na economia,
rompeu o padrão de responsabilidade fiscal arduamente conquistado
e defende posições comerciais atrasadas, mascaradas de livre
comércio. Bush disse a seu povo que será agressivo na defesa
do livre comércio nas negociações para a Alca. Agressivo,
é capaz de ser. Defender o livre comércio, não fará.
A proposta estadunidense, à luz dos princípios do livre
comércio, é uma fraude. Quase nenhum país americano
está interessado no livre comércio para valer. As negociações,
do jeito que a coisa vai, provavelmente não serão mais que
uma troca de álibis para defender o protecionismo de cada um.
Saddam Hussein
é indefensável, mas a atitude estadunidense também
é, na forma e no conteúdo. Nomear a filha do vice-presidente
para planejar o pós-guerra; indicar, previamente, um libanês
naturalizado uma confusão típica do velho imperialismo,
incapaz de perceber as diferenças entre os outros povos
para governar o Iraque após a derrubada de Saddam são atitudes
decrépitas, da época em que as nações hegemônicas
impunham, se necessário pela força, governos títeres
a países que supostamente ameaçavam a segurança nacional
dos dominantes. Bush se prepara para atacar sem o apoio da ONU, enfrentando
dificuldades logísticas consideráveis, sobretudo depois
da negativa da Turquia de basear os bombardeiros dos EUA. Custará
caro aos jovens americanos, que mais uma vez lutarão em terra estrangeira
imaginando que estão defendendo valores quando são apenas
instrumentos para a realização de interesses muito distantes
desses valores. Os que tombarão do lado iraquiano estarão
defendendo seu país e sua soberania, é certo. Mas eles estão
sendo ameaçados não só por causa dos interesses do
invasor, mas também da crueldade e insensatez do ditador que controla
o país.
É
evidente que os países que apóiam a insensatez terrorista
e os governos que toleram o narcoterrorismo não têm justificativa
moral nem política para seus atos. Há base moral para uma
ação internacional contra esses governos. Governos que se
mostrem amigáveis ou tolerantes a redes dessa natureza, seja a
Al Qaeda, seja as Farc colombianas, merecem ser objeto de censura e sanção
por parte das nações que desejam uma evolução
cada vez mais civilizada para a humanidade. Mas pela via institucional,
se possível pacífica, e nunca para realizar os interesses
de domínio econômico ou político de
qualquer outra nação.
Bush é
poderoso e limitado. Está fora de sua época e tragicamente
fora do tom. E seu canto de guerra desafinado e velho ameaça todo
o mundo. Como sempre.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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