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Com
filhos
no currículo
Um
dilema atormenta as mulheres:
o que pôr em primeiro lugar, o desejo
de ser mãe ou a ambição de vencer
na vida profissional
Gabriela Carelli
Zeca Rodrigues
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Livre-se
da culpa
A paulista Cláudia Costin é dona de um impressionante
currículo profissional. Entre 1998 e 1999, ela foi ministra
da Administração Federal. No ano seguinte, foi coordenar
o setor de projetos para a América Latina e o Caribe do Banco
Mundial, em Washington. Dois anos depois, de volta ao Brasil, assumiu
a direção de uma grande empresa e hoje ocupa uma secretaria
no governo de São Paulo. Sua receita para conciliar filhos
e trabalho é a seguinte: livrar-se da culpa de não
estar todo o tempo à disposição das crianças.
Uma forma de atingir esse objetivo é deixar que elas participem
do dia-a-dia da mãe. "Costumo levar serviço para casa
e mostrar a eles, pedir opinião. Com isso, eles entendem
que meu trabalho é importante e
lidam melhor com a ausência", diz.
Cláudia
Costin, 47 anos
Ocupação:
secretária da Cultura do
Estado de São Paulo
Carga
diária de trabalho: doze horas
Filhos:
Marina, de 23 anos, e Maurício, de
13 (na foto, com a mãe)
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Veja também |
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Parabéns,
garota, você chegou lá. O horário de trabalho é
puxado, o nível de exigência é alto, mas o salário
vale o esforço e são boas as chances de fazer carreira.
Só falta enfrentar o último desafio: como encaixar um bebê
chorão nesse belo esquema profissional. O modo certo de balancear
trabalho e vida familiar é a questão que atormenta as mulheres
desde que elas começaram a disputar bons empregos, há pouco
mais de duas décadas e ainda não se encontrou a resposta.
É uma maldade da natureza com as mulheres que os melhores anos
para a construção de uma carreira coincidam com os melhores
anos para ter filhos. Há aquelas que simplesmente adotam o modelo
masculino de deixar tudo o mais de lado e se concentrar na carreira. É
uma atitude que pesa no futuro. Adiar a maternidade pode resultar numa
vida sem filhos, visto que a capacidade de engravidar da mulher entra
em declínio perto dos 30 anos e se torna crítica lá
pelos 45. É verdade que se pode viver perfeitamente sem filhos,
sobretudo se o trabalho é envolvente e gratificante. Mas é
natural que pessoas sem prole cheguem à velhice com a sensação
de um buraco afetivo em sua vida.
As mulheres têm durante a vida afetiva e profissional vários
momentos de decisão, dos quais os homens estão a salvo.
Até bem pouco tempo atrás, ao chegar ao final da adolescência,
elas escolhiam entre cursar uma faculdade e casar e ter filhos. Tal dúvida
saiu de moda. Primeiro, porque elas entraram em massa no mercado de trabalho.
De minguados 14% há quarenta anos, as mulheres representam hoje
50% da mão-de-obra brasileira. Segundo, porque a maioria das mulheres,
de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), se casa entre 24 e 29 anos. Ou seja, a decisão crucial
investir na carreira ou na vida pessoal foi deslocada para
depois da faculdade. Tornou-se comum adiar o casamento ou a maternidade
para se dedicar ao trabalho e aos cursos de pós-graduação
e MBAs. O resultado é um novo momento de decisão na virada
dos 30 anos. É um dos períodos mais importantes da vida
profissional para homens e mulheres. É uma idade em que se costuma
ocupar cargos intermediários de gerência, e a maioria está
casada. Para muitas mulheres, é a hora de a carreira deslanchar.
Volta então a dúvida sobre ter ou não filhos.
Claudio Rossi
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Festa
junina na agenda
Vice-presidente
de uma multinacional, Amália Sina diz que existe um estereótipo
da mulher executiva como "uma infeliz que abre mão da família
e dos filhos". Ela garante que isso não é verdade.
Amália decidiu ser mãe aos 32 anos. Dois meses depois
do nascimento de Lucas, já estava de volta ao trabalho. Responsável
por 300 funcionários em 22 países, Amália diz
que é possível fazer tudo ser mãe, mulher
e trabalhar desde que haja organização. "Nunca
deixo de ir à festa junina da escola. Dou um jeito em minha
agenda e remarco os horários", conta. "Compenso as ausências
dando atenção redobrada quando estou com ele."
Amália Sina, 38 anos
Ocupação:
vice-presidente de marketing
para a América Latina da Philips
Carga diária de trabalho:
de dez a catorze
horas; 60% do tempo é gasto em viagens
Filho:
Lucas, 6 anos
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Do
ponto de vista econômico, é um bom momento para a maternidade:
as finanças estão estabilizadas e o trabalho ainda não
exige a dedicação exclusiva dos escalões mais altos.
Mas ter um filho pode significar para a mulher uma redução
nas possibilidades de ascensão no emprego. "Quando os donos de
empresa empregam mulheres em cargos executivos, querem alguém que
pense e trabalhe duro como um homem", diz Robert Wong, um dos mais prestigiados
headhunters de São Paulo. "Não há nada pior para
eles que saber que essa mulher terá outras prioridades que não
seja o trabalho, como filhos." O maior temor das chefias em relação
às mulheres grávidas é a perda de foco, considerada
uma das três qualidades imprescindíveis para uma carreira
de sucesso, de acordo com os headhunters, seguida de autoconfiança
e persistência. "Por serem minoria, as mulheres que chegaram ao
comando têm de provar a que vieram", avalia a socióloga Cristina
Bruschini, da Fundação Carlos Chagas, que há trinta
anos estuda a relação da mulher com o trabalho. "A norma
é se esforçar para demonstrar que é tão ou
mais competente que os colegas."
Por cobrança do empregador, e muitas vezes delas próprias,
grande número de mulheres se sente na obrigação de
trabalhar em dobro quando estão grávidas. Outras antecipam
a volta da licença-maternidade, com medo de perder o espaço
conquistado. Foi o que fez a paulista Amália Sina, vice-presidente
da Philips para a América Latina. Mãe de Lucas, de 6 anos,
Amália é uma das mulheres mais bem-sucedidas de sua geração.
Com 38 anos, foi a primeira de seu sexo a ocupar cargo de tal calibre
na multinacional de eletroeletrônicos. É responsável
pela área de marketing da empresa em 22 países e tem 300
subordinados diretos. Quando decidiu engravidar, aos 32 anos, já
tinha em mente que deveria sacrificar parte da licença-maternidade.
Em lugar de permanecer quatro meses em casa, como permite a legislação
trabalhista, ficou apenas dois. Evitar ao máximo afastar-se da
empresa foi uma decisão pensada e repensada durante os nove meses
de gestação. "Ninguém me pressionou, mas na gravidez
temos de estar mais espertas que antes para evitar qualquer comentário.
Isso sem falar que, no mundo competitivo dos negócios, as pessoas
podem facilmente se esquecer de você em quatro meses", diz ela.
VEJA consultou 100 das 500 maiores empresas do Brasil e praticamente todas
(97%) têm mulheres em algum tipo de cargo de chefia. A presença
feminina se faz visível na diretoria de metade delas, mas as mulheres
são minoritárias entre os melhores salários. Apenas
6% dos cargos de alto comando na iniciativa privada estão nas mãos
de mulheres, de acordo com pesquisa feita pelo Instituto Ethos em parceria
com a Fundação Getúlio Vargas. Conta-se nos dedos
de uma mão o número de grandes corporações
que têm uma mulher como sua principal executiva. Nesse aspecto,
estamos próximos do padrão internacional. Nos Estados Unidos,
que apresentam atualmente o maior número de CEOs de saia de sua
história, elas são apenas onze entre as 500 maiores empresas
do ranking da revista Fortune. Eram nove em 2001.
Tem-se aí um paradoxo. Do ponto de vista da educação,
as mulheres estão preparadíssimas para o desafio profissional.
Nos últimos 25 anos, comparativamente aos homens, as brasileiras
adquiriram mais escolaridade. A vantagem feminina pode ser verificada
pela parcela de mulheres entre as pessoas com nove anos ou mais de estudo:
55%, contra 45% de homens. De todos os brasileiros que terminam a universidade,
56% são do sexo feminino. De acordo com a AACSB International,
entidade que reúne 405 escolas de administração de
todo o mundo, elas representam três em cada dez alunos em cursos
de mestrado em negócios, o MBA. Supõe-se que essa média
seja válida também para o Brasil. Se é assim, o que
explica a presença menor no topo da hierarquia? Há quem
diga que as mulheres ainda não ocupam altos cargos porque começaram
a fazer carreira apenas duas décadas atrás e não
houve tempo para se igualarem em termos de competição. De
fato, nas cadeiras de presidente predominam os cabelos grisalhos.
Nelio Rodrigues/1º Plano
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Reunião
no boliche
A
empresária mineira Isabel Gamboa já fez loucuras para
conseguir contentar filhos e clientes. Amamentou no escritório
e, certa vez, levou um cliente alemão para jogar boliche
com seus três filhos. "Era a única forma de conciliar
a reunião com o lazer dos meninos", diz. Os conhecidos não
entendiam tanto esforço. "Achavam que meu MBA era um hobby",
conta. No ano passado, ela decidiu largar a mineradora e abrir uma
loja de roupas para ter mais tempo com os filhos.
O problema é que o negócio cresceu (já são
duas lojas), Isabel voltou à mineradora e ainda comprou parte
de outra, no interior de São Paulo.
Isabel Gamboa, 40 anos
Ocupação:
presidente da Mineração Lavra
dos Verdes e da TGM
Carga
diária de trabalho: catorze
horas
Filhos:
Lukas,
de 6 anos, Matthias, de 11,
e Catharina, de 13
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A
explicação não é completa. Apesar de todas
as organizações hoje buscarem o que chamam de balanço
entre características masculinas e femininas, a regra do jogo ainda
é a dos homens. "As empresas procuram mulheres para comandar, mas
só aquelas cujos principais atributos sejam masculinos, como objetividade,
competitividade, rigidez hierárquica", diz Gladys Zrncevich, sócia
da filial brasileira da empresa de recrutamento Korn/Ferry. O grande nó
parece estar mesmo no modo como a mulher se relaciona com a própria
família a hora em que se opta pelo mergulho no trabalho
ou no lar. Um estudo recente da Organização Mundial de Trabalho
em mais de quatro dezenas de países apontou a divisão de
tempo entre profissão e família como o principal fator da
diferença de cargos entre homens e mulheres. Em pesquisa realizada
nas 500 maiores companhias dos Estados Unidos, a sexóloga americana
Shere Hite descobriu que 95% dos homens em cargos executivos são
casados. Aqueles que não têm filhos pretendem ter. Veja a
diferença no universo feminino: no levantamento feito por VEJA
em 100 empresas brasileiras, metade das mulheres em cargo de chefia não
tem filhos.
Ao optar por ser mãe, uma profissional em cargo de chefia sabe
que o custo será muito elevado. Em geral, conciliar trabalho com
crianças pequenas exige das mulheres boa estrutura de apoio, com
babás, creches ou uma avó solícita. A baiana Ieda
Correia Gomes, de 46 anos, vice-presidente mundial da British Petroleum,
uma das maiores empresas de energia do mundo, acredita ter conseguido
administrar com sucesso a maternidade e a carreira. O filho, Leon, que
hoje tem 15 anos e vive com ela e o padrasto inglês em Londres,
nasceu de uma gravidez planejada quando Ieda trabalhava na Comgás,
a companhia de distribuição de gás na região
metropolitana de São Paulo. Para sobreviver à dura competição
(ela diz que a empresa, onde ficou por dezenove anos e alcançou
o cargo de presidente, era "um verdadeiro clube do Bolinha"), costumava
cumprir jornadas de doze a dezesseis horas de trabalho. Ainda assim, deu
um jeito de amamentar o bebê nos primeiros nove meses. Atualmente
sua vida não é muito mais tranqüila. Quando não
está num avião, viajando para algum canto do mundo (a British
Petroleum opera em cerca de 100 países), passa pelo menos metade
do dia em seu escritório na sede londrina da empresa. Depois, costuma
ir a jantares de negócios. "Para poder continuar a trabalhar,
primeiro consegui um bom berçário e depois contratei uma
babá e uma empregada em período integral", conta Ieda. "Se
não tivesse tudo isso, teria de diminuir o ritmo na carreira."
Claudio Rossi
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Berço no escritório
A
consultora Marta de Souza não quis abrir mão de sua
rotina quando engravidou. Trabalhou as habituais doze horas diárias
até o último dia de gestação. Saiu do
hospital e, pouco tempo depois, já ia ao escritório
de dois em dois dias. O restante do trabalho fazia em casa, com a
ajuda da internet. Para não perder o contato com o bebê
e poder amamentar a criança sem correrias, Marta decidiu criar
um espaço para a filha na empresa. O berço fica em sua
sala, num cantinho com iluminação especial. Quando a
criança está acordada, ela a acomoda no carrinho, ao
lado de sua mesa.
Marta de Souza, 29 anos
Ocupação:
sócia da consultoria HVS International
Carga
diária de trabalho:
doze horas
Filho:
Maria, de 9 meses |
A
pressão sobre as mulheres que pensam em ter filhos não é
distribuída com igualdade por toda a cadeia hierárquica.
Quem detém maior responsabilidade sofre mais. Quanto mais abaixo
se está na pirâmide de cargos e salários, menores
os problemas causados pelo nascimento de um rebento. Os especialistas
dizem que em posições mais subalternas as mulheres não
se sentem tão culpadas por largar o emprego para cuidar dos filhos
pequenos. Nessa etapa profissional torna-se mais fácil uma recolocação
depois de um período de afastamento. A publicitária paulista
Nathalie Benevente, de 31 anos, baseou-se nessa premissa ao pedir demissão
logo após a licença-maternidade. "Profissionalmente, e também
em termos salariais, não valia a pena deixar de ficar com meu filho",
explica ela. "Se eu estivesse num cargo mais alto, com chance de ascensão
e de melhores salários, não teria saído." Seu bebê
tem 1 ano e 4 meses, e, na semana passada, ela voltou a trabalhar. "Não
vou ficar parada em casa, até porque isso não combina comigo",
diz.
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