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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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O dilema das mulheres entre a carreira e os filhos
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Com filhos
no currículo

Um dilema atormenta as mulheres:
o que pôr em primeiro lugar, o desejo
de ser mãe ou a ambição de vencer
na vida profissional

Gabriela Carelli

 
Zeca Rodrigues

Livre-se da culpa
A paulista Cláudia Costin é dona de um impressionante currículo profissional. Entre 1998 e 1999, ela foi ministra da Administração Federal. No ano seguinte, foi coordenar o setor de projetos para a América Latina e o Caribe do Banco Mundial, em Washington. Dois anos depois, de volta ao Brasil, assumiu a direção de uma grande empresa e hoje ocupa uma secretaria no governo de São Paulo. Sua receita para conciliar filhos e trabalho é a seguinte: livrar-se da culpa de não estar todo o tempo à disposição das crianças. Uma forma de atingir esse objetivo é deixar que elas participem do dia-a-dia da mãe. "Costumo levar serviço para casa e mostrar a eles, pedir opinião. Com isso, eles entendem que meu trabalho é importante
e lidam melhor com a ausência", diz.
Cláudia Costin, 47 anos
Ocupação: secretária da Cultura do Estado de São Paulo
Carga diária de trabalho: doze horas
Filhos: Marina, de 23 anos, e Maurício, de 13 (na foto, com a mãe)



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Parabéns, garota, você chegou lá. O horário de trabalho é puxado, o nível de exigência é alto, mas o salário vale o esforço e são boas as chances de fazer carreira. Só falta enfrentar o último desafio: como encaixar um bebê chorão nesse belo esquema profissional. O modo certo de balancear trabalho e vida familiar é a questão que atormenta as mulheres desde que elas começaram a disputar bons empregos, há pouco mais de duas décadas – e ainda não se encontrou a resposta. É uma maldade da natureza com as mulheres que os melhores anos para a construção de uma carreira coincidam com os melhores anos para ter filhos. Há aquelas que simplesmente adotam o modelo masculino de deixar tudo o mais de lado e se concentrar na carreira. É uma atitude que pesa no futuro. Adiar a maternidade pode resultar numa vida sem filhos, visto que a capacidade de engravidar da mulher entra em declínio perto dos 30 anos e se torna crítica lá pelos 45. É verdade que se pode viver perfeitamente sem filhos, sobretudo se o trabalho é envolvente e gratificante. Mas é natural que pessoas sem prole cheguem à velhice com a sensação de um buraco afetivo em sua vida.

As mulheres têm durante a vida afetiva e profissional vários momentos de decisão, dos quais os homens estão a salvo. Até bem pouco tempo atrás, ao chegar ao final da adolescência, elas escolhiam entre cursar uma faculdade e casar e ter filhos. Tal dúvida saiu de moda. Primeiro, porque elas entraram em massa no mercado de trabalho. De minguados 14% há quarenta anos, as mulheres representam hoje 50% da mão-de-obra brasileira. Segundo, porque a maioria das mulheres, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), se casa entre 24 e 29 anos. Ou seja, a decisão crucial – investir na carreira ou na vida pessoal – foi deslocada para depois da faculdade. Tornou-se comum adiar o casamento ou a maternidade para se dedicar ao trabalho e aos cursos de pós-graduação e MBAs. O resultado é um novo momento de decisão na virada dos 30 anos. É um dos períodos mais importantes da vida profissional para homens e mulheres. É uma idade em que se costuma ocupar cargos intermediários de gerência, e a maioria está casada. Para muitas mulheres, é a hora de a carreira deslanchar. Volta então a dúvida sobre ter ou não filhos.

 
Claudio Rossi

Festa junina na agenda
Vice-presidente de uma multinacional, Amália Sina diz que existe um estereótipo da mulher executiva como "uma infeliz que abre mão da família e dos filhos". Ela garante que isso não é verdade. Amália decidiu ser mãe aos 32 anos. Dois meses depois do nascimento de Lucas, já estava de volta ao trabalho. Responsável por 300 funcionários em 22 países, Amália diz que é possível fazer tudo – ser mãe, mulher e trabalhar – desde que haja organização. "Nunca deixo de ir à festa junina da escola. Dou um jeito em minha agenda e remarco os horários", conta. "Compenso as ausências dando atenção redobrada quando estou com ele."
Amália Sina, 38 anos
Ocupação:
vice-presidente de marketing para a América Latina da Philips
Carga diária de trabalho: de dez a catorze horas; 60% do tempo é gasto em viagens
Filho: Lucas, 6 anos

Do ponto de vista econômico, é um bom momento para a maternidade: as finanças estão estabilizadas e o trabalho ainda não exige a dedicação exclusiva dos escalões mais altos. Mas ter um filho pode significar para a mulher uma redução nas possibilidades de ascensão no emprego. "Quando os donos de empresa empregam mulheres em cargos executivos, querem alguém que pense e trabalhe duro como um homem", diz Robert Wong, um dos mais prestigiados headhunters de São Paulo. "Não há nada pior para eles que saber que essa mulher terá outras prioridades que não seja o trabalho, como filhos." O maior temor das chefias em relação às mulheres grávidas é a perda de foco, considerada uma das três qualidades imprescindíveis para uma carreira de sucesso, de acordo com os headhunters, seguida de autoconfiança e persistência. "Por serem minoria, as mulheres que chegaram ao comando têm de provar a que vieram", avalia a socióloga Cristina Bruschini, da Fundação Carlos Chagas, que há trinta anos estuda a relação da mulher com o trabalho. "A norma é se esforçar para demonstrar que é tão ou mais competente que os colegas."

Por cobrança do empregador, e muitas vezes delas próprias, grande número de mulheres se sente na obrigação de trabalhar em dobro quando estão grávidas. Outras antecipam a volta da licença-maternidade, com medo de perder o espaço conquistado. Foi o que fez a paulista Amália Sina, vice-presidente da Philips para a América Latina. Mãe de Lucas, de 6 anos, Amália é uma das mulheres mais bem-sucedidas de sua geração. Com 38 anos, foi a primeira de seu sexo a ocupar cargo de tal calibre na multinacional de eletroeletrônicos. É responsável pela área de marketing da empresa em 22 países e tem 300 subordinados diretos. Quando decidiu engravidar, aos 32 anos, já tinha em mente que deveria sacrificar parte da licença-maternidade. Em lugar de permanecer quatro meses em casa, como permite a legislação trabalhista, ficou apenas dois. Evitar ao máximo afastar-se da empresa foi uma decisão pensada e repensada durante os nove meses de gestação. "Ninguém me pressionou, mas na gravidez temos de estar mais espertas que antes para evitar qualquer comentário. Isso sem falar que, no mundo competitivo dos negócios, as pessoas podem facilmente se esquecer de você em quatro meses", diz ela.

VEJA consultou 100 das 500 maiores empresas do Brasil e praticamente todas (97%) têm mulheres em algum tipo de cargo de chefia. A presença feminina se faz visível na diretoria de metade delas, mas as mulheres são minoritárias entre os melhores salários. Apenas 6% dos cargos de alto comando na iniciativa privada estão nas mãos de mulheres, de acordo com pesquisa feita pelo Instituto Ethos em parceria com a Fundação Getúlio Vargas. Conta-se nos dedos de uma mão o número de grandes corporações que têm uma mulher como sua principal executiva. Nesse aspecto, estamos próximos do padrão internacional. Nos Estados Unidos, que apresentam atualmente o maior número de CEOs de saia de sua história, elas são apenas onze entre as 500 maiores empresas do ranking da revista Fortune. Eram nove em 2001.

Tem-se aí um paradoxo. Do ponto de vista da educação, as mulheres estão preparadíssimas para o desafio profissional. Nos últimos 25 anos, comparativamente aos homens, as brasileiras adquiriram mais escolaridade. A vantagem feminina pode ser verificada pela parcela de mulheres entre as pessoas com nove anos ou mais de estudo: 55%, contra 45% de homens. De todos os brasileiros que terminam a universidade, 56% são do sexo feminino. De acordo com a AACSB International, entidade que reúne 405 escolas de administração de todo o mundo, elas representam três em cada dez alunos em cursos de mestrado em negócios, o MBA. Supõe-se que essa média seja válida também para o Brasil. Se é assim, o que explica a presença menor no topo da hierarquia? Há quem diga que as mulheres ainda não ocupam altos cargos porque começaram a fazer carreira apenas duas décadas atrás e não houve tempo para se igualarem em termos de competição. De fato, nas cadeiras de presidente predominam os cabelos grisalhos.

 
Nelio Rodrigues/1º Plano

Reunião no boliche
A empresária mineira Isabel Gamboa já fez loucuras para conseguir contentar filhos e clientes. Amamentou no escritório e, certa vez, levou um cliente alemão para jogar boliche com seus três filhos. "Era a única forma de conciliar a reunião com o lazer dos meninos", diz. Os conhecidos não entendiam tanto esforço. "Achavam que meu MBA era um hobby", conta. No ano passado, ela decidiu largar a mineradora e abrir uma loja de roupas para ter mais tempo com os filhos. O problema é que o negócio cresceu (já são duas lojas), Isabel voltou à mineradora e ainda comprou parte de outra, no interior de São Paulo.
Isabel Gamboa, 40 anos
Ocupação:
presidente da Mineração Lavra dos Verdes e da TGM
Carga diária de trabalho: catorze horas
Filhos: Lukas, de 6 anos, Matthias, de 11, e Catharina, de 13

A explicação não é completa. Apesar de todas as organizações hoje buscarem o que chamam de balanço entre características masculinas e femininas, a regra do jogo ainda é a dos homens. "As empresas procuram mulheres para comandar, mas só aquelas cujos principais atributos sejam masculinos, como objetividade, competitividade, rigidez hierárquica", diz Gladys Zrncevich, sócia da filial brasileira da empresa de recrutamento Korn/Ferry. O grande nó parece estar mesmo no modo como a mulher se relaciona com a própria família – a hora em que se opta pelo mergulho no trabalho ou no lar. Um estudo recente da Organização Mundial de Trabalho em mais de quatro dezenas de países apontou a divisão de tempo entre profissão e família como o principal fator da diferença de cargos entre homens e mulheres. Em pesquisa realizada nas 500 maiores companhias dos Estados Unidos, a sexóloga americana Shere Hite descobriu que 95% dos homens em cargos executivos são casados. Aqueles que não têm filhos pretendem ter. Veja a diferença no universo feminino: no levantamento feito por VEJA em 100 empresas brasileiras, metade das mulheres em cargo de chefia não tem filhos.

Ao optar por ser mãe, uma profissional em cargo de chefia sabe que o custo será muito elevado. Em geral, conciliar trabalho com crianças pequenas exige das mulheres boa estrutura de apoio, com babás, creches ou uma avó solícita. A baiana Ieda Correia Gomes, de 46 anos, vice-presidente mundial da British Petroleum, uma das maiores empresas de energia do mundo, acredita ter conseguido administrar com sucesso a maternidade e a carreira. O filho, Leon, que hoje tem 15 anos e vive com ela e o padrasto inglês em Londres, nasceu de uma gravidez planejada quando Ieda trabalhava na Comgás, a companhia de distribuição de gás na região metropolitana de São Paulo. Para sobreviver à dura competição (ela diz que a empresa, onde ficou por dezenove anos e alcançou o cargo de presidente, era "um verdadeiro clube do Bolinha"), costumava cumprir jornadas de doze a dezesseis horas de trabalho. Ainda assim, deu um jeito de amamentar o bebê nos primeiros nove meses. Atualmente sua vida não é muito mais tranqüila. Quando não está num avião, viajando para algum canto do mundo (a British Petroleum opera em cerca de 100 países), passa pelo menos metade do dia em seu escritório na sede londrina da empresa. Depois, costuma ir a jantares – de negócios. "Para poder continuar a trabalhar, primeiro consegui um bom berçário e depois contratei uma babá e uma empregada em período integral", conta Ieda. "Se não tivesse tudo isso, teria de diminuir o ritmo na carreira."

 
Claudio Rossi

Berço no escritório
A consultora Marta de Souza não quis abrir mão de sua rotina quando engravidou. Trabalhou as habituais doze horas diárias até o último dia de gestação. Saiu do hospital e, pouco tempo depois, já ia ao escritório de dois em dois dias. O restante do trabalho fazia em casa, com a ajuda da internet. Para não perder o contato com o bebê e poder amamentar a criança sem correrias, Marta decidiu criar um espaço para a filha na empresa. O berço fica em sua sala, num cantinho com iluminação especial. Quando a criança está acordada, ela a acomoda no carrinho, ao lado de sua mesa.
Marta de Souza, 29 anos
Ocupação:
sócia da consultoria HVS International
Carga diária de trabalho: doze horas
Filho: Maria, de 9 meses

A pressão sobre as mulheres que pensam em ter filhos não é distribuída com igualdade por toda a cadeia hierárquica. Quem detém maior responsabilidade sofre mais. Quanto mais abaixo se está na pirâmide de cargos e salários, menores os problemas causados pelo nascimento de um rebento. Os especialistas dizem que em posições mais subalternas as mulheres não se sentem tão culpadas por largar o emprego para cuidar dos filhos pequenos. Nessa etapa profissional torna-se mais fácil uma recolocação depois de um período de afastamento. A publicitária paulista Nathalie Benevente, de 31 anos, baseou-se nessa premissa ao pedir demissão logo após a licença-maternidade. "Profissionalmente, e também em termos salariais, não valia a pena deixar de ficar com meu filho", explica ela. "Se eu estivesse num cargo mais alto, com chance de ascensão e de melhores salários, não teria saído." Seu bebê tem 1 ano e 4 meses, e, na semana passada, ela voltou a trabalhar. "Não vou ficar parada em casa, até porque isso não combina comigo", diz.

 



   
 
   
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