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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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Bush diz que o jogo acabou

Convenceram-se? Não? O presidente
dos EUA dá ultimato a Saddam e deixa
tudo pronto para a guerra, com ou
sem a aprovação da ONU

José Eduardo Barella

 
Reuters

DIPLOMACIA, ADEUS
Bush: opção pela guerra após reação morna às provas apresentadas na ONU



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Nesta edição
Ao vencedor, o petróleo
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Especial EUA contra Iraque

O ataque americano ao Iraque é questão de semanas – talvez bem poucas. A quem quiser arriscar um palpite mais preciso, sugere-se acompanhar um único movimento de tropas: o da 101ª Divisão Aerotransportada. Não existe campanha militar da história recente dos Estados Unidos em que essa legendária divisão, a única de assalto aéreo do Exército americano, não tenha estado na linha de frente. Em junho de 1944, 14.000 soldados da 101ª saltaram de pára-quedas na França ocupada pela Alemanha nazista, um dia antes do histórico desembarque na Normandia. Daí saíram os personagens da série Band of Brothers, todos tirados de fatos reais. Na primeira guerra americana contra Saddam Hussein, em 1991, a 101ª desfechou os ataques aéreos mais avançados em território inimigo já registrados pelos manuais bélicos. Detalhe: não sofreu uma única baixa. Esse currículo é relembrado aqui por que na quinta-feira passada, em meio ao fragor das discussões sobre a justeza ou a oportunidade da guerra contra Saddam, o presidente George W. Bush assinou discretamente a ordem de envio dessa divisão para o teatro de operações no Golfo Pérsico. São 20.000 homens e 270 helicópteros, que viajarão por mar e ar. Entre chegarem, montarem e testarem os equipamentos, tudo desembocará na concretização do aviso feito por Bush no mesmo dia em que despachou a divisão aerotransportada: "O jogo acabou". A partir daí, é possível que em poucos dias soldados da 101ª estejam em Bagdá, com Saddam Hussein morto ou desaparecido, seu regime desmanchado e multidões de iraquianos saudando os libertadores.

Ou então o mundo estará vivendo uma bagunça considerável. A rapidez e a "limpeza", obviamente relativa, da guerra serão cruciais para superar o estranhamento, ou mais até, a animosidade que a decisão do governo Bush de esmagar Saddam está criando entre os Estados Unidos e os países contrários à solução militar. O curso de ação do governo americano tem sido transparente: preparar tudo para a guerra e deixar a diplomacia tentar convencer os relutantes. Se conseguir, melhor. Se não, haverá guerra da mesma maneira. A última tentativa de convencer pela diplomacia foi a exposição de uma hora e meia do secretário de Estado, Colin Powell, na sede da ONU. Powell mostrou "provas irrefutáveis" das principais acusações contra o Iraque de Saddam. O país ainda tem armas químicas e biológicas e as esconde dos inspetores da ONU. Também mantém um programa nuclear clandestino e já possui dois dos três componentes necessários para produzir a bomba atômica. Ninguém duvida que Saddam tenha ou tente ter isso tudo. Do ponto de vista dos governos que relutam em apoiar a solução bélica, a questão é se essas transgressões representam uma ameaça tão grave para a segurança internacional a ponto de justificar o recurso extremo da guerra.

 
AP

SEM SAÍDA
Milícia iraquiana treina em Bagdá: país prepara-se para a guerra iminente

Para os não-convertidos, as evidências foram fracas, quando não risíveis, como o tubinho de vidro vazio que o secretário de Estado empunhou para exemplificar como os estoques iraquianos de anthrax, elemento mais comum dos arsenais de guerra biológica, dariam para preencher milhares de frascos semelhantes. Ao revelar que o Iraque dispõe de laboratórios móveis de armas biológicas montados em carrocerias de caminhões, por exemplo, Powell mostrou apenas ilustrações feitas em computador. Os argumentos sobre ligações entre Saddam e os fanáticos terroristas da Al Qaeda também se ressentem da falta de solidez.

Os Estados Unidos, porém, têm outros poderes de convencimento. Os países da região onde existem bases americanas estão sendo conquistados com a sempre prodigiosa ajuda americana. Tradução: dinheiro mesmo. Todo mundo que pode está dando uma mordidinha. A Turquia já mudou de opinião sobre o uso das bases militares em seu território. A Rússia é contra a guerra, mas emite sinais que vão ficando mais ambíguos à medida que se acena com a hipótese de importantes contratos de exploração de petróleo no Iraque pós-Saddam. Em países mais responsáveis, o medo é de que, se o Conselho de Segurança não autorizar o uso da força contra o Iraque e os americanos forem à guerra mesmo assim, a ONU estará desmoralizada, e a hiperpotência americana se sentirá com mais liberdade de ação do que nunca para passar por cima de inimigos – e amigos também. Donald Rumsfeld, o abrasivo secretário de Defesa, deu uma amostra dessa mão pesada ao humilhar a Alemanha, um dos pilares do mundo ocidental, comparando-a, pela oposição à guerra, a dois dos maiores inimigos dos EUA, Cuba e Líbia. Quem quer mais disso?

 
Reuters

ESFORÇO INÚTIL
Powell mostra as provas contra Saddam na ONU: fotos de satélite, gravações e desenhos não convencem todo mundo


 
 
   
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