
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Abaixo
o esquerdismo
Alvo
preferido dos
radicais do PT,
o
ministro da Fazenda explica aos
companheiros por que
"a vida é dura"
Thaís
Oyama
Veja O senhor vem sendo acusado por colegas de partido de ser
o grande representante de um continuísmo da política do
governo Fernando Henrique. Como se sente na condição de
besta-fera do PT?
Antônio
Palocci
Besta-fera? Já está assim, é? Veja, nós fizemos
um programa para governar, não para ganhar a eleição.
A partir daí, nós nos colocamos questões novas e
fizemos uma inflexão política, considerando que para ir
do Brasil de hoje para o modelo que buscamos historicamente é necessária
uma transição. Não há hipótese de fazer
essa transição de uma maneira que não seja segura
e gradual, não há hipótese de fazê-la sem usar
elementos da antiga política e, em especial, não há
hipótese de que essa transição se dê sem alguns
elementos que são permanentes em qualquer projeto de governo. Por
exemplo, o bom senso indica que qualquer projeto pressupõe orçamento
equilibrado. O bom senso indica que, se você tem dívidas,
tem de arrecadar mais para pagar essas dívidas; e o bom senso indica
que, se você tem um país que está vulnerável,
tem de investir na credibilidade desse país. São coisas
que qualquer modelo de desenvolvimento tem de preservar.
Veja
Se essas posições foram suficientemente discutidas
dentro do PT, por que alguns setores estão se insurgindo contra
elas agora?
Palocci
Talvez
porque eles acreditem que, tendo apoio popular, temos um espaço
para mudanças bruscas e devemos aproveitá-lo. Mas eu estou
muito convicto, e sei que o presidente também está, de que
as mudanças têm de ser feitas com segurança no Brasil.
Existe, no mundo de hoje, uma aversão completa a riscos. O que
temos é um quadro de total restrição. Então,
nós temos de operar a construção de um novo projeto
nesse quadro de restrição, o que é difícil.
As pessoas do PT que têm uma visão de mudança a curto
prazo talvez estejam desprezando os riscos que essa postura embute.
Veja
Por convicção ideológica?
Palocci
Também, claro. Eu já fui da esquerda do PT e entendo perfeitamente
os argumentos deles. Mas, muitas vezes, acho que falta uma certa compreensão,
inclusive técnica. Por exemplo, num debate a que fui, um deputado
reclamou que não mexíamos no câmbio. Chegou a dizer
que o governo anterior intervinha mais no câmbio do que nós
estamos intervindo agora, como se isso fosse uma prova de que estávamos
à direita dele. Eu disse: "Olha, se eu puder não intervir
nada no câmbio, eu vou ficar muito feliz". Porque, obviamente, isso
quer dizer que o câmbio está se comportando adequadamente.
Você intervém no câmbio quando está numa situação
de crise. Mas, para alguns, isso é sinal de ação
governamental.
Veja
O senhor sentiu-se traído por ter sido grampeado no encontro
com a bancada do PT?
Palocci Isso eu lamentei, sim. Acho que foi um rebaixamento
do processo político. Seria mais digno que essa pessoa que fez
a gravação tivesse proposto um debate aberto. Já
participei de muitos assim. Agora, com o debate em si, não tive
nenhuma chateação. Já fiz outros muito mais duros
que esse. Quando fiz os processos de abertura de capital em Ribeirão
Preto, os debates foram muito mais duros.
Veja
O senhor foi chamado de neoliberal, como agora?
Palocci
Neoliberal
foi o adjetivo mais suave que me dedicaram.
Veja
Uma das críticas petistas refere-se ao fato de o governo
ter mantido na direção do Banco Central a funcionária
Tereza Grossi (acusada de irregularidades na época da desvalorização
do real) . Por que o governo tomou essa decisão?
Palocci
O governo decidiu fazer uma transição com a atual diretoria
do Banco Central.
Veja
E Tereza Grossi veio no pacote?
Palocci
Não é que veio no pacote. Foi uma decisão tomada.
Agora, o presidente Henrique Meirelles, ao longo dos meses, vai nos propor
eventuais mudanças que ele julgue necessárias.
Veja
O senhor não se sente desconfortável por manter
uma diretora que foi reiteradamente acusada pelo PT ?
Palocci
Não,
não me sinto. Discutimos que haveria uma transição
com a atual diretoria. Foi uma decisão tomada. Agora, há
algumas pessoas que querem agravar o debate em cima disso e o fazem. Isso,
para mim, não é importante.
Veja
Se o senhor tivesse um minuto para convencer a senadora Heloísa
Helena de que o governo está na direção certa, o
que diria?
Palocci
Eu
pediria para ela ver os números.
Veja
Que números?
Palocci
Na véspera da eleição, o risco Brasil estava a 2
400; o dólar chegou a quase 4 reais. O país não rolava
título nenhum e o mundo inteiro dizia que iríamos para o
default. Essa foi a realidade que nós pegamos. Começamos
a transição e o resultado está aqui: o risco Brasil
caiu à metade, nós vendemos nossos papéis com extrema
naturalidade, rolamos toda a nossa dívida no período e estamos
intervindo bem menos no câmbio, embora isso pareça desagradar
a algumas pessoas. Se alguém tiver alguma mágica para fazer
melhor, que me diga. Eu não tenho. Pacotes e invencionices que
só têm efeito de curto prazo eu me recuso a apoiar. Quem
quer uma economia com estabilidade de longo prazo tem de ter paciência.
Tem de saber que a vida é dura.
Veja
O discurso dos radicais petistas é que o governo está
governando para o mercado.
Palocci
Essa questão é fundamental: nós não estamos
aqui administrando para o especulador nem para o mercado. Nós lidamos
com o mercado, mas não administramos para ele. Estamos pensando
no povo, que é quem sempre paga a conta dos acertos e desacertos
do governo. Em todos os pacotes que deram errado, quem pagou a conta não
foi o especulador. Foi o seu João, que perdeu o emprego. Então,
é preciso que essas pessoas entendam que o que nós estamos
fazendo é um movimento no sentido de melhorar as contas do Brasil
para que isso se reflita na vida das pessoas. Não é para
fazer bonito para o mercado, para atrair especulador. Até porque
especulador gosta é de confusão, não de estabilidade.
E nós estamos investindo contra a confusão.
Veja
O senhor já foi membro da Libelu (organização
trotskista incorporada ao PT) e agora faz parte da ala moderada do
partido. O que aprendeu nessa experiência?
Palocci
Aprendi que você pode ser de esquerda, mas não pode ser esquerdista.
Isso quer dizer que você não pode deixar suas concepções
ideológicas dominarem sua prática. Eu já defendi,
no passado, a estatização do sistema financeiro e dos transportes
coletivos, por exemplo. Mas, quando você começa a governar,
vê que essas coisas não funcionam na prática.
Veja
O presidente Lula hesitou muito antes de concordar com o aumento
da meta de superávit?
Palocci
O presidente Lula não é um presidente de decisões
apressadas. Felizmente, porque os líderes de decisões apressadas
mudam muito de decisão. Ele é movido a argumentos. Prefere
sempre amadurecer uma decisão e, quando a toma, ela é muito
sólida. Com isso, eu vou duas vezes por dia ao palácio e,
às vezes, chateio o presidente falando sobre o mesmo assunto várias
vezes.
|
|
 |