Edição 1887 . 12 de janeiro de 2005

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Tales Alvarenga
Gorda gente brasileira

"José Graziano ficou tão frustrado com
a existência da pobreza gorda que se
vingou. Refez seus cálculos para cima.
Anda dizendo que o Brasil tem 77 milhões
de pessoas passando fome"

Artigo no O Estado de S. Paulo mostra que os índios piraãs, da Amazônia, só têm três palavras para os números. O número 1 é "hói". O número 2, "hoí". A terceira palavra usada pelos piraãs é "aíbaagi", que significa muitos. Se você desenhar dois riscos no chão, eles conseguirão repetir o desenho. Mas ficarão confusos se você fizer seis riscos. Em Brasília, os sábios que cuidam ou cuidaram do programa Fome Zero têm um problema parecido com o dos piraãs, só que em sentido contrário. Eles só se sentem confortáveis com cifras altas. Para quantificar o contingente de famintos do Brasil, não aceitam nada inferior a 50 milhões de pessoas.

Quem tenta provar a eles que o número verdadeiro é muito menor descobre que ficam confusos e irados. Necessitam da desgraça de grande porte para justificar seu papel autoconferido de reformadores do mundo. Durante a campanha que o levaria à Presidência, Lula repetiu os números que lhe foram passados pelos assessores. Informava ao país que havia 53 milhões de brasileiros com fome. Seus subordinados ligados ao Fome Zero lambuzavam-se deliciosamente nessa escandalosa multidão de famintos.

Em dezembro passado, saiu uma pesquisa do IBGE que desmente o Fome Zero. Pesquisadores do instituto foram verificar junto a uma amostra de brasileiros o que compravam no mercado, o que armazenavam na despensa, o que colhiam no quintal, o número de ovos fornecidos por suas três galinhas caipiras e o que obtinham no pé de jaca do vizinho. Por fim, os pesquisadores mediram e pesaram as pessoas. Levantamento como esse nunca havia sido feito. Durou um ano e representa a cobertura de um universo de 95,5 milhões de pessoas acima de 20 anos. Supostamente, jovens menores de 20 anos e crianças que vivem nessas famílias comem o equivalente.

Resultado do estudo: 38,8 milhões eram gordos e obesos e apenas 3,8 milhões estavam com deficiência de peso. Atenção: deficiência de peso não significa necessariamente desnutrição. Parte dos pesos leves é composta de pessoas constitucionalmente magras.

Na semana passada, os assessores de Lula que foram ligados ao Fome Zero rejeitaram a visão positiva proporcionada pelo levantamento do IBGE como se ela fosse um ataque pessoal a suas crenças mais sagradas. Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, disse que "gordura não é sinal de barriga cheia, pelo contrário". E José Graziano da Silva, criador do Fome Zero, ficou tão frustrado com a existência da pobreza gorda que se vingou refazendo seus cálculos para cima. Graziano está dizendo que o Brasil tem 77 milhões de pessoas passando fome.

A diferença entre os resultados das pesquisas que medem o número de desnutridos no Brasil resulta da metodologia utilizada. Em geral, acadêmicos calculam o nível da nutrição pelo tamanho da renda dos indivíduos. Esse método tem o inconveniente de não levar em conta ganhos que só é possível constatar em pesquisas de campo. Também deixa de fora o peixe pescado no rio ou a banana colhida atrás de casa.

Cifras exageradas sobre famintos não são algarismos neutros. São usadas para fins políticos, como os discursos da campanha presidencial de Lula, bem como para a produção de programas de governo que envolvem contratação de funcionários, gasto de dinheiro e desinformação da sociedade.

 
 
 
 
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