|
Tales
Alvarenga
Gorda gente brasileira
"José Graziano ficou
tão frustrado com
a existência da pobreza gorda que se
vingou. Refez seus cálculos para cima.
Anda dizendo que
o Brasil tem 77 milhões
de pessoas passando fome"
Artigo no O Estado de S. Paulo
mostra que os índios piraãs, da Amazônia,
só têm três palavras para os números.
O número 1 é "hói". O número 2, "hoí".
A terceira palavra usada pelos piraãs é "aíbaagi",
que significa muitos. Se você desenhar dois riscos no chão,
eles conseguirão repetir o desenho. Mas ficarão confusos
se você fizer seis riscos. Em Brasília, os sábios
que cuidam ou cuidaram do programa Fome Zero têm um problema
parecido com o dos piraãs, só que em sentido contrário.
Eles só se sentem confortáveis com cifras altas. Para
quantificar o contingente de famintos do Brasil, não aceitam
nada inferior a 50 milhões de pessoas.
Quem tenta provar a eles que
o número verdadeiro é muito menor descobre que ficam
confusos e irados. Necessitam da desgraça de grande porte
para justificar seu papel autoconferido de reformadores do mundo.
Durante a campanha que o levaria à Presidência, Lula
repetiu os números que lhe foram passados pelos assessores.
Informava ao país que havia 53 milhões de brasileiros
com fome. Seus subordinados ligados ao Fome Zero lambuzavam-se deliciosamente
nessa escandalosa multidão de famintos.
Em dezembro passado, saiu uma
pesquisa do IBGE que desmente o Fome Zero. Pesquisadores do instituto
foram verificar junto a uma amostra de brasileiros o que compravam
no mercado, o que armazenavam na despensa, o que colhiam no quintal,
o número de ovos fornecidos por suas três galinhas
caipiras e o que obtinham no pé de jaca do vizinho. Por fim,
os pesquisadores mediram e pesaram as pessoas. Levantamento como
esse nunca havia sido feito. Durou um ano e representa a cobertura
de um universo de 95,5 milhões de pessoas acima de 20 anos.
Supostamente, jovens menores de 20 anos e crianças que vivem
nessas famílias comem o equivalente.
Resultado do estudo: 38,8 milhões
eram gordos e obesos e apenas 3,8 milhões estavam com deficiência
de peso. Atenção: deficiência de peso não
significa necessariamente desnutrição. Parte dos pesos
leves é composta de pessoas constitucionalmente magras.
Na semana passada, os assessores
de Lula que foram ligados ao Fome Zero rejeitaram a visão
positiva proporcionada pelo levantamento do IBGE como se ela fosse
um ataque pessoal a suas crenças mais sagradas. Carlos Alberto
Libânio Christo, o Frei Betto, disse que "gordura não
é sinal de barriga cheia, pelo contrário". E José
Graziano da Silva, criador do Fome Zero, ficou tão frustrado
com a existência da pobreza gorda que se vingou refazendo
seus cálculos para cima. Graziano está dizendo que
o Brasil tem 77 milhões de pessoas passando fome.
A diferença entre os resultados
das pesquisas que medem o número de desnutridos no Brasil
resulta da metodologia utilizada. Em geral, acadêmicos calculam
o nível da nutrição pelo tamanho da renda dos
indivíduos. Esse método tem o inconveniente de não
levar em conta ganhos que só é possível constatar
em pesquisas de campo. Também deixa de fora o peixe pescado
no rio ou a banana colhida atrás de casa.
Cifras exageradas sobre famintos
não são algarismos neutros. São usadas para
fins políticos, como os discursos da campanha presidencial
de Lula, bem como para a produção de programas de
governo que envolvem contratação de funcionários,
gasto de dinheiro e desinformação da sociedade.
|