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Ponto
de vista: Lya Luft Pessoal
e intransferível
"Na véspera
de Natal perdi minha velha mãe:
uma dama de 90 anos, há mais de uma década envolta
no véu de uma enfermidade que a despojava de memória,
beleza e graça. Nunca fui tão filha como na orfandade" Quando
me convidaram a escrever esta coluna, adverti que sou muitas vezes não
autobiográfica, mas auto-referente. O subjetivo é a minha marca,
ainda quando invento personagens que nada têm a ver comigo ou com pessoas
reais. Se o que é pessoal às vezes aparece nestes textos, hoje isso
ocorre especialmente. Pois na véspera de Natal perdi minha velha mãe:
uma dama de 90 anos, há mais de uma década envolta no véu
de uma enfermidade que a despojava de memória, beleza e graça. Contemplar
impotente enquanto ela se afastava de mim e da realidade foi a um tempo fascinante,
espantoso, e infinitamente triste. Embora eu tivesse
me defendido, nos anos em que ela já não me reconhecia, dizendo
que minha mãe tinha morrido e ali havia uma velha dama de quem me coubera
cuidar, era tudo mentira. Ergui essa barreira para levar a vida em frente com
a ave sombria daquela dor pousada em meu ombro, tão presente quanto ela
mesma se ausentava.
Atômica
Studio
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Visitar
a velha dama era mais suplício do que encontro, pois a cada dia estava
mais mudada: por fim, nada lhe significavam mais meu rosto, meu nome ou minha
voz. Quando me via, se chegava a focar os olhos, enxergava outros rostos, mais
reais do que eu na sua ilha. Era minha mãe e não era, vivia e não
vivia na clausura da memória adormecida. Mas eu, a cada visita, esperava
o impossível: que ainda uma vez o seu olhar me enxergasse, e que por um
momento ela voltasse a amar em mim a sua filha. Pois diante dessa figura estranha,
poderosa, arquetípica, primordial, da mulher que nos pariu, todos estacamos
à espera de reconhecimento, abrigo e colo.
Agora morreu, na véspera de Natal morreu, e lembro dela. Lembro de minha
mãe sobretudo o rumor de uns passos enérgicos, a voz me chamando
no jardim, na sala as suas rosas com nomes secretos, e um perfume igual ao dela.
Legou-me o amor à vida, e algo do perfil. Não sua beleza: essa ficou
nos retratos, muitos dos quais rasgou quando a noite da enfermidade a consumia.
Surpreendia-nos sempre, e nesta época de avaliações, plenos
preparativos do Natal, a notícia: morreu a velha senhora. Talvez tenha
dado, a si e a nós que sofríamos com ela, um presente todo singular:
a sua libertação. Depois de uma despedida
sossegada como convinha a sua discrição e a seus 90 anos, senti-me
atropelada por um trator. Pois nessas horas todas as vãs filosofias se
calam, diante da invocação da infância, da adolescência,
da madurez, de nossos conflitos e cumplicidades, e a contagem nefasta das vezes
em que não a visitei, em que não tive paciência, em que não
fui a filha que podia ter sido, embora tenha feito o melhor que podia. Diante
de certas doenças, a gente pode quase nada.
Mas o auto-retrato é inevitável, como a autopiedade e um tom meio
patético: nunca mais serei pensada como filha. E afinal quem sou, a esta
altura? Do pai herdei a retidão e certa melancolia: o olhar sobre o que
vem atrás do espelho. Da mãe, o otimismo e a alegria. Seu riso inesperado
que ainda ecoa nos corredores de uma casa transformada. Da remota linhagem deve
ter vindo o novelo de fios que tramam alma e imagem, ninguém sabe de quando
nem de onde. Nem sei se importa. Mais os trabalhos e a dor, a fantasia, a obstinada
procura, alguma sorte, muita esperança na bagagem, me construíram.
Caminhões de falhas e de desacertos, sempre a renovação,
difícil. Dissabores fazem parte: maior foi a celebração da
vida. Eu não me perdoaria nem ressentimento nem amargura.
Entre o começo e a morte, miragens: não há muito de mim na
personagem que imagina quem me lê e inventa, e pendura nessa imaginação,
como num cabide, seus próprios fantasmas. Mas uma coisa eu sei: nunca fui
tão filha como na orfandade. A esta altura
da vida, sempre em crescimento, com as lutas pessoais e humanas, as contemplações,
glórias e derrotas, fênix da própria existência como
todos somos, me punge a súbita consciência de que nunca mais, nem
diante de uma velhinha que já não me reconhece, poderei dizer: Mãe.
Lya Luft é escritora
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