Edição 1887 . 12 de janeiro de 2005

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Ponto de vista: Lya Luft
Pessoal e intransferível

"Na véspera de Natal perdi minha velha
mãe: uma dama de 90 anos, há mais de uma
década envolta no véu de uma
enfermidade
que a
despojava de memória, beleza e graça.
Nunca fui tão filha como na orfandade"

Quando me convidaram a escrever esta coluna, adverti que sou muitas vezes não autobiográfica, mas auto-referente. O subjetivo é a minha marca, ainda quando invento personagens que nada têm a ver comigo ou com pessoas reais. Se o que é pessoal às vezes aparece nestes textos, hoje isso ocorre especialmente. Pois na véspera de Natal perdi minha velha mãe: uma dama de 90 anos, há mais de uma década envolta no véu de uma enfermidade que a despojava de memória, beleza e graça. Contemplar impotente enquanto ela se afastava de mim e da realidade foi a um tempo fascinante, espantoso, e infinitamente triste.

Embora eu tivesse me defendido, nos anos em que ela já não me reconhecia, dizendo que minha mãe tinha morrido e ali havia uma velha dama de quem me coubera cuidar, era tudo mentira. Ergui essa barreira para levar a vida em frente com a ave sombria daquela dor pousada em meu ombro, tão presente quanto ela mesma se ausentava.

Atômica Studio


Visitar a velha dama era mais suplício do que encontro, pois a cada dia estava mais mudada: por fim, nada lhe significavam mais meu rosto, meu nome ou minha voz. Quando me via, se chegava a focar os olhos, enxergava outros rostos, mais reais do que eu na sua ilha. Era minha mãe e não era, vivia e não vivia na clausura da memória adormecida. Mas eu, a cada visita, esperava o impossível: que ainda uma vez o seu olhar me enxergasse, e que por um momento ela voltasse a amar em mim a sua filha. Pois diante dessa figura estranha, poderosa, arquetípica, primordial, da mulher que nos pariu, todos estacamos à espera de reconhecimento, abrigo e colo.

Agora morreu, na véspera de Natal morreu, e lembro dela. Lembro de minha mãe sobretudo o rumor de uns passos enérgicos, a voz me chamando no jardim, na sala as suas rosas com nomes secretos, e um perfume igual ao dela. Legou-me o amor à vida, e algo do perfil. Não sua beleza: essa ficou nos retratos, muitos dos quais rasgou quando a noite da enfermidade a consumia. Surpreendia-nos sempre, e nesta época de avaliações, plenos preparativos do Natal, a notícia: morreu a velha senhora. Talvez tenha dado, a si e a nós que sofríamos com ela, um presente todo singular: a sua libertação.

Depois de uma despedida sossegada como convinha a sua discrição e a seus 90 anos, senti-me atropelada por um trator. Pois nessas horas todas as vãs filosofias se calam, diante da invocação da infância, da adolescência, da madurez, de nossos conflitos e cumplicidades, e a contagem nefasta das vezes em que não a visitei, em que não tive paciência, em que não fui a filha que podia ter sido, embora tenha feito o melhor que podia. Diante de certas doenças, a gente pode quase nada.

Mas o auto-retrato é inevitável, como a autopiedade e um tom meio patético: nunca mais serei pensada como filha. E afinal quem sou, a esta altura? Do pai herdei a retidão e certa melancolia: o olhar sobre o que vem atrás do espelho. Da mãe, o otimismo e a alegria. Seu riso inesperado que ainda ecoa nos corredores de uma casa transformada. Da remota linhagem deve ter vindo o novelo de fios que tramam alma e imagem, ninguém sabe de quando nem de onde. Nem sei se importa. Mais os trabalhos e a dor, a fantasia, a obstinada procura, alguma sorte, muita esperança na bagagem, me construíram. Caminhões de falhas e de desacertos, sempre a renovação, difícil. Dissabores fazem parte: maior foi a celebração da vida. Eu não me perdoaria nem ressentimento nem amargura.

Entre o começo e a morte, miragens: não há muito de mim na personagem que imagina quem me lê e inventa, e pendura nessa imaginação, como num cabide, seus próprios fantasmas. Mas uma coisa eu sei: nunca fui tão filha como na orfandade.

A esta altura da vida, sempre em crescimento, com as lutas pessoais e humanas, as contemplações, glórias e derrotas, fênix da própria existência como todos somos, me punge a súbita consciência de que nunca mais, nem diante de uma velhinha que já não me reconhece, poderei dizer: Mãe.

Lya Luft é escritora

 
 
 
 
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