Edição 1887 . 12 de janeiro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Viciados em miséria

Queremos um país assolado por
carências africanas. Menos que
isso nos acabrunha e infelicita

Nós, brasileiros, nutrimos um duradouro caso de amor com a penúria. Tome-se o caso das visitas de chefes de Estado estrangeiros. Em outros países, o visitante é levado aos palácios, à ópera, ao monumento ao soldado desconhecido. No Brasil, é levado à favela. O presidente Bill Clinton, quando nos visitou, foi levado à favela. A moda, salvo engano, foi inaugurada por Leonel Brizola, quando governador do Rio de Janeiro. Com pose de anfitrião orgulhoso do que tinha a exibir, ele conduziu o então presidente francês, François Mitterrand, ao alto do morro. Quando a comitiva se aproximava, espocaram fogos, para saudá-la – e inesquecível foi o susto do visitante. Nem era ainda o tempo das balas perdidas, mas por um momento Mitterrand teve a impressão de ter sido apanhado no fogo cruzado de quadrilhas rivais. Ou, então, de ter voltado no tempo e ser alvo da blitzkrieg de Hitler, em seu avanço impetuoso pelo sagrado território da França.

Houve tempo, quando a capital era no Rio de Janeiro, em que se levavam os visitantes ao Jóquei Clube. A intenção era impressionar o estrangeiro com os homens de fraque e as mulheres de chapéu. "Veja como somos elegantes", era a mensagem. "Veja como somos civilizados." O barão do Rio Branco dava preferência, no Itamaraty, a diplomatas de pele e estampa de europeus. De quebra, tinha a preocupação de que os diplomatas tivessem mulheres versadas nas artes da conversação e da sociabilidade, e que falassem francês – e foi assim que (segundo escreve Gilberto Freyre, no livro Ordem e Progresso) incentivou freiras francesas a criar no Brasil colégios como o Sacré-Coeur e o Sion. Tais estabelecimentos, nas intenções do barão, cumpririam o papel de viveiros de esposas para diplomatas. De uns tempos para cá, o pêndulo mudou de lado e, em vez de querer parecer ricos e civilizados, a moda passou a ser fazer figura de pobre, irremediavelmente pobre, mais pobre do que realmente somos. "Veja que molambos somos", esta é a mensagem atual aos estrangeiros. "Repare bem, conte aos amigos, lambuze-se com nossa penúria."

Penúria? É pouco. Nós, brasileiros, nutrimos um caso de amor com a miséria – e prova disso foi o recente episódio em torno da pesquisa do IBGE segundo a qual os famintos no país são menos numerosos do que apregoava o governo. Para o leitor que não acompanhou o caso, os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares levada a efeito pelo IBGE em 2003 apontaram para uma maior quantidade de gente acima do peso no país (40,6% da população adulta, ou 38,8 milhões de pessoas) do que de gente abaixo do peso (4% da população, ou 3,8 milhões de pessoas). Como o déficit de peso em geral se associa à desnutrição, inferiu-se que os famintos, no Brasil, seriam esses 3,8 milhões, número muito distante dos 40 ou 50 milhões com que trabalhava o governo.

Seria o caso de comemorar, segundo indicaria o mais elementar bom senso. Não. O presidente Lula indignou-se com a pesquisa. "A fome não é uma coisa medida em pesquisa", disse. Segundo o presidente, as pessoas têm vergonha de dizer que têm fome. Daí que "pode colocar o Ibope, pode colocar o Vox Populi, pode colocar o Datafolha" e o resultado será que "todo mundo, no Brasil, come e come bem". Na verdade, a pesquisa do IBGE não resultou de entrevistas, mas da pesagem das pessoas, mas vá lá – a rata presidencial, ao confundir alhos com bugalhos, não é o que interessa aqui. Interessa que nem o próprio Lula acredita nas dezenas de milhões de famintos com que costuma acenar. Nem ele! No filme Entreatos, documentário de João Moreira Salles sobre a campanha de Lula, em 2002, há um trecho em que ele diz, numa conversa informal com assessores: "Acho muito 50 milhões de pessoas passando fome, 40 milhões, são números absurdos". Na mesma trilha, aproveita e acrescenta: "O Betto [Frei Betto, ex-assessor especial] outro dia disse que 5 milhões de mulheres morrem de aborto. Eu utilizei em uma palestra na França o número de 25 milhões de crianças de rua. É uma Argentina, é muito".

Por que, se não acredita nela, Lula continua a defender a cifra de 40 ou 50 milhões de famintos? Uma primeira razão seria a defesa do Fome Zero. Ao presidente repugnaria ver reduzidos em alcance um programa e um slogan que cultiva com carinho. Mas uma razão mais profunda seria que Lula, assim como muitas outras pessoas no país, reluta em admitir um Brasil que não seja a nação transida pela fome a que os brasileiros se afeiçoaram. Outra pesquisa, feita numa parceria entre a Unicamp e o mesmo IBGE, noticiada pela Folha de S.Paulo, concluiu que o número de 7,2 milhões em que se situaria, segundo o governo, o déficit habitacional brasileiro estaria também superestimado – em mais de 3 milhões. Os números governamentais buscam se adequar à paixão nacional pela miséria. Como a um viciado que precisa sempre aumentar a dose, as carências brasileiras reais e comprovadas não mais nos bastam. Precisamos pintá-las muito maiores. Queremos a imagem de um país flagelado por pragas de proporções africanas. Menos que isso nos acabrunha e infelicita.

 
 
 
 
topovoltar