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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Viciados em miséria
Queremos
um país assolado por
carências africanas. Menos que
isso nos acabrunha e infelicita
Nós, brasileiros, nutrimos
um duradouro caso de amor com a penúria. Tome-se o caso das
visitas de chefes de Estado estrangeiros. Em outros países,
o visitante é levado aos palácios, à ópera,
ao monumento ao soldado desconhecido. No Brasil, é levado
à favela. O presidente Bill Clinton, quando nos visitou,
foi levado à favela. A moda, salvo engano, foi inaugurada
por Leonel Brizola, quando governador do Rio de Janeiro. Com pose
de anfitrião orgulhoso do que tinha a exibir, ele conduziu
o então presidente francês, François Mitterrand,
ao alto do morro. Quando a comitiva se aproximava, espocaram fogos,
para saudá-la e inesquecível foi o susto do
visitante. Nem era ainda o tempo das balas perdidas, mas por um
momento Mitterrand teve a impressão de ter sido apanhado
no fogo cruzado de quadrilhas rivais. Ou, então, de ter voltado
no tempo e ser alvo da blitzkrieg de Hitler, em seu avanço
impetuoso pelo sagrado território da França.
Houve tempo, quando a capital
era no Rio de Janeiro, em que se levavam os visitantes ao Jóquei
Clube. A intenção era impressionar o estrangeiro com
os homens de fraque e as mulheres de chapéu. "Veja como somos
elegantes", era a mensagem. "Veja como somos civilizados." O barão
do Rio Branco dava preferência, no Itamaraty, a diplomatas
de pele e estampa de europeus. De quebra, tinha a preocupação
de que os diplomatas tivessem mulheres versadas nas artes da conversação
e da sociabilidade, e que falassem francês e foi assim
que (segundo escreve Gilberto Freyre, no livro Ordem e Progresso)
incentivou freiras francesas a criar no Brasil colégios
como o Sacré-Coeur e o Sion. Tais estabelecimentos, nas intenções
do barão, cumpririam o papel de viveiros de esposas para
diplomatas. De uns tempos para cá, o pêndulo mudou
de lado e, em vez de querer parecer ricos e civilizados, a moda
passou a ser fazer figura de pobre, irremediavelmente pobre, mais
pobre do que realmente somos. "Veja que molambos somos", esta é
a mensagem atual aos estrangeiros. "Repare bem, conte aos amigos,
lambuze-se com nossa penúria."
Penúria? É pouco.
Nós, brasileiros, nutrimos um caso de amor com a miséria
e prova disso foi o recente episódio em torno da pesquisa
do IBGE segundo a qual os famintos no país são menos
numerosos do que apregoava o governo. Para o leitor que não
acompanhou o caso, os resultados da Pesquisa de Orçamentos
Familiares levada a efeito pelo IBGE em 2003 apontaram para uma
maior quantidade de gente acima do peso no país (40,6% da
população adulta, ou 38,8 milhões de pessoas)
do que de gente abaixo do peso (4% da população, ou
3,8 milhões de pessoas). Como o déficit de peso em
geral se associa à desnutrição, inferiu-se
que os famintos, no Brasil, seriam esses 3,8 milhões, número
muito distante dos 40 ou 50 milhões com que trabalhava o
governo.
Seria o caso de comemorar, segundo
indicaria o mais elementar bom senso. Não. O presidente Lula
indignou-se com a pesquisa. "A fome não é uma coisa
medida em pesquisa", disse. Segundo o presidente, as pessoas têm
vergonha de dizer que têm fome. Daí que "pode colocar
o Ibope, pode colocar o Vox Populi, pode colocar o Datafolha" e
o resultado será que "todo mundo, no Brasil, come e come
bem". Na verdade, a pesquisa do IBGE não resultou de entrevistas,
mas da pesagem das pessoas, mas vá lá a rata
presidencial, ao confundir alhos com bugalhos, não é
o que interessa aqui. Interessa que nem o próprio Lula acredita
nas dezenas de milhões de famintos com que costuma acenar.
Nem ele! No filme Entreatos, documentário de João
Moreira Salles sobre a campanha de Lula, em 2002, há um trecho
em que ele diz, numa conversa informal com assessores: "Acho muito
50 milhões de pessoas passando fome, 40 milhões, são
números absurdos". Na mesma trilha, aproveita e acrescenta:
"O Betto [Frei Betto, ex-assessor especial] outro dia disse
que 5 milhões de mulheres morrem de aborto. Eu utilizei em
uma palestra na França o número de 25 milhões
de crianças de rua. É uma Argentina, é muito".
Por que, se não acredita
nela, Lula continua a defender a cifra de 40 ou 50 milhões
de famintos? Uma primeira razão seria a defesa do Fome Zero.
Ao presidente repugnaria ver reduzidos em alcance um programa e
um slogan que cultiva com carinho. Mas uma razão mais profunda
seria que Lula, assim como muitas outras pessoas no país,
reluta em admitir um Brasil que não seja a nação
transida pela fome a que os brasileiros se afeiçoaram. Outra
pesquisa, feita numa parceria entre a Unicamp e o mesmo IBGE, noticiada
pela Folha de S.Paulo, concluiu que o número de 7,2
milhões em que se situaria, segundo o governo, o déficit
habitacional brasileiro estaria também superestimado
em mais de 3 milhões. Os números governamentais buscam
se adequar à paixão nacional pela miséria.
Como a um viciado que precisa sempre aumentar a dose, as carências
brasileiras reais e comprovadas não mais nos bastam. Precisamos
pintá-las muito maiores. Queremos a imagem de um país
flagelado por pragas de proporções africanas. Menos
que isso nos acabrunha e infelicita.
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