Edição 1887 . 12 de janeiro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinco dias depois da gigantesca catástrofe na Ásia,
ladrões, falsificadores de documentos de mortos,
assaltantes, e até estupradores, aparecem em cena.
É por isso que eu digo: sempre se pode contar
com o ser humano.

Os misteriosos passantes

É preciso prestar mais atenção aos que passam por nós caminhando. Nunca mais serão vistos. Anotar o que dizem, o que se comunicam, talvez o que calam. Neste primeiro dia de 2005, manhã, a rua ainda está calma. Paro para ouvir, ou ando paralelamente, para ouvir melhor.

A senhora gorda ao lado da outra, espigada e queimada de sol:

O Nelson disse: "Exceto as neuróticas".

Você também gosta de apanhar?

O mulato velho pro brancarano moço:

...mesmo assim, você continua canalha?

Mais baixo, mais baixo... Na intimidade eu...

O rapaz com a pasta com a mão no ombro da mulher sem pasta:

...e microfones ultra-sensíveis com...

O sarará pro crioulinho bem alto:

...disse que eu só penso no meu imbigo.

Umbigo, ô porra!

Negão, paletosão, pintoso, pro companheiro igual:

...soco-inglês, eu? Coisa de americano. Comigo é na...

Homem dos seus cinqüenta, camisa esporte colorida, bermudas pretas, pra velhota:

Acho que ela se sente na obrigação de se matar porque...

Você acha que vai?

Pra mim já era. Mas no celular...

O de óculos, ar de professor em férias, pro meninote, ar de bestalhão mesmo:

...é que dos dilemas do sibarita ninguém fala.

Senhora, metida a ainda, de calças ajustadas, pra moça de míni:

...sempre as últimas novidades em palavrão...

Três garotas indo depressa:

...teu corpo está enganado, é bom ver se...

Pra bom entendedor, porém...

Chega, nêga. Fidelidade é a minha, fica me
conferindo por trás o tempo to...

A muito feia:

A beleza é essencial.

A ainda mais feia, chutando a lata:

...Olhar no espelho é desesperador.

Três de meia-idade, uma de idade e meia:

Perdi trinta e seis anos sem dar... mas um dia...

O que ganhou com isso?

As de biquíni, atravessando a rua. Uma delas:

...mas doía tudo, doía o mundo, doía até a praia, fechei os olhos com as mãos...

Outras duas, também atravessando a rua. A da frente:

Achei bonito o nome, Elefeteriades Nasceu no Crato...

Muito séria, loura, falando baixinho, difícil de ouvir:

Eram os compassos que marcavam as horas. Relógio veio depois com...

O cara em roupa comum mas parecendo padre Rossi, as mãos postas no peito, curvado pro mulato também com ar de beato:

...e restanças, e bonanças, e esperanças conjuntas, todo mundo...

Policial, farda cáqui, encostando a doméstica junto do orelhão:

...e sonhei que sonhava, que sonhava, que sonhava. Aí, depois, sonhei que acordava, que acor...

O garotão da prancha pro outro da outra prancha.

...entrar no tubo do Havaí. Da periferia ao centro é tudo raio.

Molecão segurando a mão do outro, esperando o sinal:

– ...franguinha. Uma jóia...

...aquela galinha velha?

Dois garotões. Um:

O professor ficou puto, cara. Eu não sabia que ipsilone não se escrevia com ipsilone.

O meio calvo, uns 34 anos, com o cabeludo, uns 35. Este:

Aquela bicha ignorante no Rio Branco?

Ele quer ser cisne do Itamarati. Você não manja?

O atlético pro barrigudo:

Ficou farta só com o alpendre, não precisou nem...

Três tipos sem nada de parecido.

Um tipo: – Catastrófico. Não fica perto dele não. Sai do acidente assim que...

O outro: – Diz que morreu de goivo colorido.

De quê?

Um com pasta de médico, outro sem pasta nenhuma. Aquele:

...ficou sob controle. Acesso só no segundo expediente da segunda-feira.

O negão e a bela mulata, na porta do boteco:

O negão: – Vocês vai hoje no ensaio da Mangueira?

A mulata: – Eu, hein? Aquilo está um tsunami!

 

 
 
 
 
topovoltar