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Entrevista:
Elhanan Helpman
As chaves do crescimento
O professor
de Harvard fala sobre como
as instituições promovem o progresso
e combatem a desigualdade social

Eduardo Salgado
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Alcir N. da Silva

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"Para distribuir
renda, a meta deve ser sempre formar pessoas independentes
do Estado e escapar do paternalismo"
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Professor
de comércio internacional da Universidade Harvard, nos Estados
Unidos, Elhanan Helpman, de 58 anos, colocou-se o desafio de escrever
em linguagem acessível sobre crescimento econômico,
um dos temas mais caros aos economistas. Um dos principais objetivos
de Helpman foi deixar claro que diferenças na acumulação
de capital não são a única explicação
para a existência de nações ricas e pobres.
No livro The Mystery of Economic Growth (O Mistério
do Crescimento Econômico), lançado em setembro nos
EUA, Helpman explora áreas novas, como o papel das instituições.
Nascido na extinta União Soviética, Helpman migrou
para Israel na década de 50 com a família. Desde meados
da década de 90, divide seu tempo entre a cidade americana
de Cambridge, onde fica a Universidade Harvard, e Tel-Aviv, onde
moram as suas duas filhas. Helpman falou a VEJA antes de partir
para mais uma estada em Israel.
Veja
Um dos debates mais quentes do momento no Brasil é
sobre a política de juros do Banco Central. Quando é
que se pode dizer que a guerra contra a inflação está
indo longe demais?
Helpman
Bancos centrais devem usar a política de juros para lidar
com os ciclos econômicos. Se a economia aquece, eles aumentam
a taxa. Se a economia cai, eles reduzem. Ninguém em sã
consciência mantém a taxa de juros alta ou baixa sem
enxergar razões que justifiquem a decisão. Quando
trabalham bem, os bancos centrais fazem exatamente isso. Estabilizam
flutuações e protegem a economia das mudanças.
As forças do crescimento de longo prazo aparecem de outros
lugares. Não estão restritas aos juros.
Veja
Mas a política de juros pode causar danos difíceis
de reparar, não?
Helpman
É verdade que as políticas de um banco central podem
causar danos devastadores, seja arruinando oportunidades econômicas
quando são duras demais ou deixando a inflação
sair do controle quando amolecem além da conta. No começo
da década de 80, Israel estava junto com Brasil e Argentina
entre os países com as mais altas taxas de inflação.
As pessoas que ocupavam o banco central israelense naquela época
desenvolveram estranhas teorias. Diziam que era besteira se preocupar
com a inflação. O que aconteceu foi que as companhias
tiveram de se proteger do aumento dos preços e gastaram muita
energia no setor financeiro. Tudo isso em vez de aplicar os recursos
em inovação e produção. Um desastre.
Veja
As desigualdades sociais têm efeito negativo nas
taxas de crescimento de um país?
Helpman
Não
há conclusões sobre esse assunto. As evidências
não são conclusivas. Países com pequenas diferenças
entre ricos e pobres podem crescer da mesma forma que outros com
grandes disparidades. A análise estatística não
nos ajuda a ver qual o modelo que mais favorece o crescimento da
economia. Não há dúvida de que a desigualdade
social aumenta em vários países. Há também
a desigualdade entre países.
Veja
Qual é o efeito do crescimento econômico
na distribuição de renda?
Helpman
Sabemos
que há efeitos, mas não necessariamente os mesmos
sempre em todos os países. Na maioria dos casos, todos se
beneficiam com o crescimento, mas o efeito é maior na parcela
mais rica da população. Isso acaba por aumentar o
fosso entre ricos e pobres. Os mais pobres vivem melhor do que antes,
mas a distância entre eles e os mais ricos fica maior. Do
ponto de vista econômico, não há grandes problemas
nisso. Mas, do ponto de vista moral, está totalmente errado.
Veja
Qual é a melhor maneira de distribuir renda?
Helpman
Em alguns países, a resposta dos governos é transferir
renda dos ricos para os pobres. Somente repassar não adianta.
Uma questão central é fazer essas transferências
sem criar dependência. Ou seja, os mais pobres devem continuar
procurando emprego e investindo em educação. Para
distribuir renda, a meta deve ser sempre formar pessoas independentes
do Estado e escapar do paternalismo. É necessário
investir para aumentar as habilidades dessas pessoas para ganhar
dinheiro. Isso se consegue com mais educação e treinamento.
Nos últimos anos, reformas no sistema de bem-estar social
na Holanda e na Inglaterra tentaram seguir essa linha.
Veja
De que maneira as instituições podem ser
reformadas para que privilegiem o crescimento?
Helpman
Para examinar a questão das instituições em
qualquer país, é preciso ter uma visão ampla.
As instituições não se restringem à
economia. Não podemos esquecer que elas têm desdobramentos
políticos e sociais. Em qualquer área, o crucial é
o seguinte: as instituições são criadas para
atingir determinados objetivos, mas infelizmente nem sempre essas
metas são o crescimento econômico e o bem-estar de
toda a população. As instituições costumam
ficar reféns de seus funcionários, que trabalham com
os olhos voltados para os próprios interesses.
Veja
O senhor poderia dar um exemplo prático?
Helpman
Para
serem úteis, as instituições precisam mudar,
adaptar-se ao momento atual. O tempo passa, as metas mudam, mas
muitas instituições ficam do mesmo jeito. Um exemplo
disso são as leis trabalhistas na Europa. Elas foram criadas
para proteger os trabalhadores, mas hoje podem até prejudicá-los
em alguns casos. Nos países ricos, muitas empresas estão
terceirizando tarefas usando mão-de-obra mais barata de países
em desenvolvimento. Nos EUA, onde as leis trabalhistas são
menos rígidas do que na União Européia, a tendência
é que o número de empregos perdidos seja menor. Se
os europeus não mudarem suas leis, que foram feitas em outras
circunstâncias, deverão sofrer mais com a competição
internacional.
Veja
Qual instituição é a mais importante
para o crescimento econômico?
Helpman
É difícil julgar. Nos países ricos, há
variações. Os americanos, por exemplo, fizeram mudanças
no sistema financeiro e conseguiram impulsionar as empresas de tecnologia
da informação. Na maioria dos países, é
necessário bater na porta de um banco para conseguir dinheiro.
Nos EUA, é diferente. Pessoas e fundos investem em ações
e também em empresas que ainda não chegaram à
bolsa de valores. No caso das empresas de tecnologia da informação,
esse detalhe fez toda a diferença. As empresas que surgiram
no Vale do Silício, na Califórnia, na década
de 90 não tinham nenhuma garantia para dar a um banco. Mas
eram novas e tinham idéias. Acabaram entusiasmando os investidores
e conseguindo capital de risco. Já na Europa, não
existe uma cultura que incentive empresas embrionárias.
Veja
Qual é o papel do Judiciário na promoção
do crescimento econômico?
Helpman
De modo geral, há muitas evidências de que as instituições
têm um papel de relevância no crescimento econômico
de longo prazo. Sabemos que direito de propriedade é importante.
Sabemos que mecanismos que contrabalancem o poder do Executivo também
são cruciais. O sistema legal está entre os mais vitais.
Não sabemos ao certo por que alguns tipos de sistema legal
incentivam mais os negócios do que outros. Ainda não
conhecemos os processos de transmissão do sistema legal para
a economia, mas que essa correlação existe, ela existe.
Alguns estudos mostram que países que seguiram a tradição
inglesa tendem a ser economicamente mais desenvolvidos do que os
que adotaram a tradição romana.
Veja
Por quê?
Helpman
A razão mais provável é que o sistema inglês
protege melhor o direito de propriedade. Um dos parâmetros
para medir isso é a proteção dada aos direitos
dos acionistas minoritários nas empresas. Esse nível
de proteção tem reflexos no grau de dificuldade de
captar dinheiro. Se os minoritários não têm
os direitos assegurados, não investem. Com isso, o dinheiro
fica mais escasso e caro para as empresas.
Veja
Se o direito de propriedade é tão crucial,
como o senhor explica que a China comunista tenha crescido a uma
média anual de 9% há 25 anos?
Helpman
Para começo de conversa, os chineses garantiram o direito
de propriedade para os empresários estrangeiros. É
verdade que os direitos na China ainda são muito limitados
em comparação a outros países em desenvolvimento.
Mas o pouco que mudaram foi suficiente para atrair uma fatia enorme
de investimentos. Especialmente nas áreas costeiras escolhidas
para receber os estrangeiros. No interior, a situação
é outra. A influência política dos chefes locais
é enorme. As trocas comerciais entre essas regiões
é baixíssima. É possível que o interior
atrasado inviabilize as taxas de crescimento da China como um todo
em pouco tempo. Para continuar crescendo, a China terá de
reformar não apenas as suas instituições econômicas,
mas as políticas também.
Veja
Há países pobres que seguiram a tradição
inglesa, como a Índia, e países da tradição
romana que são ricos, como a França...
Helpman
Um
país que tenha herdado um sistema semelhante ao inglês
não está predestinado ao sucesso econômico.
O crescimento é afetado por vários fatores. O sistema
legal é apenas um deles. O que, sim, é possível
dizer é que a contribuição do sistema legal
para o desenvolvimento econômico é maior nos países
com a tradição inglesa. Alguns países têm
um péssimo sistema legal e ainda assim crescem. Poderiam
crescer mais se tivessem um sistema legal melhor. Sabemos que o
crescimento econômico não depende apenas da acumulação
de capital. Entre outros fatores, as instituições
têm influência. O que ainda não sabemos é
exatamente o peso dessa influência. Esse é um campo
que ainda precisa ser estudado.
Veja
Em que medida a geografia é determinante para o
aparecimento de instituições que facilitam o crescimento
econômico?
Helpman
Ao
contrário do que dizem alguns economistas, a geografia não
tem efeito definidor sobre o grau de crescimento de uma economia.
Por outro lado, há trabalhos que fazem a ligação
entre lugares inóspitos e a formação de instituições.
Em regiões que os europeus não conseguiram povoar
por alguma razão, a estratégia foi apenas de extração
das riquezas. Nesses lugares, as instituições não
prosperaram. Em outros, os europeus se instalaram e fundaram instituições
semelhantes às que tinham nos lugares de origem. Essas instituições
eram boas para o comércio e a formação de indústrias.
Não podemos esquecer que as áreas que já eram
densamente populosas, como a Índia, eram menos propícias
a uma colonização em massa.
Veja
Qual é a relação entre volume de
comércio e crescimento econômico?
Helpman
Em
princípio, todos os países podem crescer. Tanto os
que importam e exportam muito quanto outros com economia mais fechada.
Economias abertas tendem a incentivar a inovação e
a busca por produtividade. Por outro lado, as empresas de países
abertos são obrigadas a enfrentar uma concorrência
maior, e isso pode causar muitos danos. Portanto, a pergunta é:
os benefícios dos ganhos de competitividade são maiores
que os prejuízos causados pela concorrência estrangeira?
A maior parte dos estudos indica que as vantagens são maiores,
mas isso está longe de ser uma verdade absoluta. É
uma questão de observar o que acontece na realidade, não
uma questão de pura lógica.
Veja
Quais são os perigos de uma nova crise do petróleo?
Helpman
Muitos analistas creditaram a diminuição do ritmo
de crescimento da economia mundial nos anos 70 aos choques do petróleo.
Na verdade, o papel do choque não foi tão grande.
Pelo menos, não explica a redução dramática
do crescimento. O que aconteceu foi o seguinte: a crise do petróleo
coincidiu com uma fase de grande mudança tecnológica
que exigiu uma enorme reorganização. Esse processo
de instalação de uma nova tecnologia digital diminuiu
as taxas de crescimento num primeiro momento. Foi uma coincidência
a crise do petróleo ter ocorrido concomitantemente. Ela teve
efeito, claro, mas não foi a principal responsável
pela crise dos anos 70. É muito improvável que uma
coincidência semelhante aconteça de novo.
Veja
Em que medida a situação dos EUA é
preocupante?
Helpman
Com algum grau de certeza, é possível prever que o
atual nível de endividamento não é sustentável.
Todos sabem que em algum momento algum tipo de ajuste terá
de ser feito. A questão passa a ser quando acontecerá
o ajuste e de que forma. O governo pode cortar os gastos ou aumentar
os impostos. Como ninguém sabe quando e como será
feito, as incertezas aumentam no sistema econômico. Esse tipo
de dúvida acaba sendo uma barreira para investimentos de
longo prazo. Se o governo não mudar o rumo, sabemos que o
resultado será inflação alta. A inflação
diminuirá o valor dos títulos das dívidas,
e muita gente perderá dinheiro.
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