Edição 1887 . 12 de janeiro de 2005

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Entrevista: Elhanan Helpman
As chaves do crescimento

O professor de Harvard fala sobre como
as instituições promovem o progresso
e combatem a desigualdade social


Eduardo Salgado

 

Alcir N. da Silva

"Para distribuir renda, a meta deve ser sempre formar pessoas independentes do Estado e escapar do paternalismo"

Professor de comércio internacional da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Elhanan Helpman, de 58 anos, colocou-se o desafio de escrever em linguagem acessível sobre crescimento econômico, um dos temas mais caros aos economistas. Um dos principais objetivos de Helpman foi deixar claro que diferenças na acumulação de capital não são a única explicação para a existência de nações ricas e pobres. No livro The Mystery of Economic Growth (O Mistério do Crescimento Econômico), lançado em setembro nos EUA, Helpman explora áreas novas, como o papel das instituições. Nascido na extinta União Soviética, Helpman migrou para Israel na década de 50 com a família. Desde meados da década de 90, divide seu tempo entre a cidade americana de Cambridge, onde fica a Universidade Harvard, e Tel-Aviv, onde moram as suas duas filhas. Helpman falou a VEJA antes de partir para mais uma estada em Israel.

Veja – Um dos debates mais quentes do momento no Brasil é sobre a política de juros do Banco Central. Quando é que se pode dizer que a guerra contra a inflação está indo longe demais?
Helpman – Bancos centrais devem usar a política de juros para lidar com os ciclos econômicos. Se a economia aquece, eles aumentam a taxa. Se a economia cai, eles reduzem. Ninguém em sã consciência mantém a taxa de juros alta ou baixa sem enxergar razões que justifiquem a decisão. Quando trabalham bem, os bancos centrais fazem exatamente isso. Estabilizam flutuações e protegem a economia das mudanças. As forças do crescimento de longo prazo aparecem de outros lugares. Não estão restritas aos juros.

Veja – Mas a política de juros pode causar danos difíceis de reparar, não?
Helpman – É verdade que as políticas de um banco central podem causar danos devastadores, seja arruinando oportunidades econômicas quando são duras demais ou deixando a inflação sair do controle quando amolecem além da conta. No começo da década de 80, Israel estava junto com Brasil e Argentina entre os países com as mais altas taxas de inflação. As pessoas que ocupavam o banco central israelense naquela época desenvolveram estranhas teorias. Diziam que era besteira se preocupar com a inflação. O que aconteceu foi que as companhias tiveram de se proteger do aumento dos preços e gastaram muita energia no setor financeiro. Tudo isso em vez de aplicar os recursos em inovação e produção. Um desastre.

Veja – As desigualdades sociais têm efeito negativo nas taxas de crescimento de um país?
Helpman – Não há conclusões sobre esse assunto. As evidências não são conclusivas. Países com pequenas diferenças entre ricos e pobres podem crescer da mesma forma que outros com grandes disparidades. A análise estatística não nos ajuda a ver qual o modelo que mais favorece o crescimento da economia. Não há dúvida de que a desigualdade social aumenta em vários países. Há também a desigualdade entre países.

Veja – Qual é o efeito do crescimento econômico na distribuição de renda?
Helpman – Sabemos que há efeitos, mas não necessariamente os mesmos sempre em todos os países. Na maioria dos casos, todos se beneficiam com o crescimento, mas o efeito é maior na parcela mais rica da população. Isso acaba por aumentar o fosso entre ricos e pobres. Os mais pobres vivem melhor do que antes, mas a distância entre eles e os mais ricos fica maior. Do ponto de vista econômico, não há grandes problemas nisso. Mas, do ponto de vista moral, está totalmente errado.

Veja – Qual é a melhor maneira de distribuir renda?
Helpman – Em alguns países, a resposta dos governos é transferir renda dos ricos para os pobres. Somente repassar não adianta. Uma questão central é fazer essas transferências sem criar dependência. Ou seja, os mais pobres devem continuar procurando emprego e investindo em educação. Para distribuir renda, a meta deve ser sempre formar pessoas independentes do Estado e escapar do paternalismo. É necessário investir para aumentar as habilidades dessas pessoas para ganhar dinheiro. Isso se consegue com mais educação e treinamento. Nos últimos anos, reformas no sistema de bem-estar social na Holanda e na Inglaterra tentaram seguir essa linha.

Veja – De que maneira as instituições podem ser reformadas para que privilegiem o crescimento?
Helpman – Para examinar a questão das instituições em qualquer país, é preciso ter uma visão ampla. As instituições não se restringem à economia. Não podemos esquecer que elas têm desdobramentos políticos e sociais. Em qualquer área, o crucial é o seguinte: as instituições são criadas para atingir determinados objetivos, mas infelizmente nem sempre essas metas são o crescimento econômico e o bem-estar de toda a população. As instituições costumam ficar reféns de seus funcionários, que trabalham com os olhos voltados para os próprios interesses.

Veja – O senhor poderia dar um exemplo prático?
Helpman – Para serem úteis, as instituições precisam mudar, adaptar-se ao momento atual. O tempo passa, as metas mudam, mas muitas instituições ficam do mesmo jeito. Um exemplo disso são as leis trabalhistas na Europa. Elas foram criadas para proteger os trabalhadores, mas hoje podem até prejudicá-los em alguns casos. Nos países ricos, muitas empresas estão terceirizando tarefas usando mão-de-obra mais barata de países em desenvolvimento. Nos EUA, onde as leis trabalhistas são menos rígidas do que na União Européia, a tendência é que o número de empregos perdidos seja menor. Se os europeus não mudarem suas leis, que foram feitas em outras circunstâncias, deverão sofrer mais com a competição internacional.

Veja – Qual instituição é a mais importante para o crescimento econômico?
Helpman – É difícil julgar. Nos países ricos, há variações. Os americanos, por exemplo, fizeram mudanças no sistema financeiro e conseguiram impulsionar as empresas de tecnologia da informação. Na maioria dos países, é necessário bater na porta de um banco para conseguir dinheiro. Nos EUA, é diferente. Pessoas e fundos investem em ações e também em empresas que ainda não chegaram à bolsa de valores. No caso das empresas de tecnologia da informação, esse detalhe fez toda a diferença. As empresas que surgiram no Vale do Silício, na Califórnia, na década de 90 não tinham nenhuma garantia para dar a um banco. Mas eram novas e tinham idéias. Acabaram entusiasmando os investidores e conseguindo capital de risco. Já na Europa, não existe uma cultura que incentive empresas embrionárias.

Veja – Qual é o papel do Judiciário na promoção do crescimento econômico?
Helpman – De modo geral, há muitas evidências de que as instituições têm um papel de relevância no crescimento econômico de longo prazo. Sabemos que direito de propriedade é importante. Sabemos que mecanismos que contrabalancem o poder do Executivo também são cruciais. O sistema legal está entre os mais vitais. Não sabemos ao certo por que alguns tipos de sistema legal incentivam mais os negócios do que outros. Ainda não conhecemos os processos de transmissão do sistema legal para a economia, mas que essa correlação existe, ela existe. Alguns estudos mostram que países que seguiram a tradição inglesa tendem a ser economicamente mais desenvolvidos do que os que adotaram a tradição romana.

Veja – Por quê?
Helpman – A razão mais provável é que o sistema inglês protege melhor o direito de propriedade. Um dos parâmetros para medir isso é a proteção dada aos direitos dos acionistas minoritários nas empresas. Esse nível de proteção tem reflexos no grau de dificuldade de captar dinheiro. Se os minoritários não têm os direitos assegurados, não investem. Com isso, o dinheiro fica mais escasso e caro para as empresas.

Veja – Se o direito de propriedade é tão crucial, como o senhor explica que a China comunista tenha crescido a uma média anual de 9% há 25 anos?
Helpman – Para começo de conversa, os chineses garantiram o direito de propriedade para os empresários estrangeiros. É verdade que os direitos na China ainda são muito limitados em comparação a outros países em desenvolvimento. Mas o pouco que mudaram foi suficiente para atrair uma fatia enorme de investimentos. Especialmente nas áreas costeiras escolhidas para receber os estrangeiros. No interior, a situação é outra. A influência política dos chefes locais é enorme. As trocas comerciais entre essas regiões é baixíssima. É possível que o interior atrasado inviabilize as taxas de crescimento da China como um todo em pouco tempo. Para continuar crescendo, a China terá de reformar não apenas as suas instituições econômicas, mas as políticas também.

Veja – Há países pobres que seguiram a tradição inglesa, como a Índia, e países da tradição romana que são ricos, como a França...
Helpman – Um país que tenha herdado um sistema semelhante ao inglês não está predestinado ao sucesso econômico. O crescimento é afetado por vários fatores. O sistema legal é apenas um deles. O que, sim, é possível dizer é que a contribuição do sistema legal para o desenvolvimento econômico é maior nos países com a tradição inglesa. Alguns países têm um péssimo sistema legal e ainda assim crescem. Poderiam crescer mais se tivessem um sistema legal melhor. Sabemos que o crescimento econômico não depende apenas da acumulação de capital. Entre outros fatores, as instituições têm influência. O que ainda não sabemos é exatamente o peso dessa influência. Esse é um campo que ainda precisa ser estudado.

Veja – Em que medida a geografia é determinante para o aparecimento de instituições que facilitam o crescimento econômico?
Helpman – Ao contrário do que dizem alguns economistas, a geografia não tem efeito definidor sobre o grau de crescimento de uma economia. Por outro lado, há trabalhos que fazem a ligação entre lugares inóspitos e a formação de instituições. Em regiões que os europeus não conseguiram povoar por alguma razão, a estratégia foi apenas de extração das riquezas. Nesses lugares, as instituições não prosperaram. Em outros, os europeus se instalaram e fundaram instituições semelhantes às que tinham nos lugares de origem. Essas instituições eram boas para o comércio e a formação de indústrias. Não podemos esquecer que as áreas que já eram densamente populosas, como a Índia, eram menos propícias a uma colonização em massa.

Veja – Qual é a relação entre volume de comércio e crescimento econômico?
Helpman – Em princípio, todos os países podem crescer. Tanto os que importam e exportam muito quanto outros com economia mais fechada. Economias abertas tendem a incentivar a inovação e a busca por produtividade. Por outro lado, as empresas de países abertos são obrigadas a enfrentar uma concorrência maior, e isso pode causar muitos danos. Portanto, a pergunta é: os benefícios dos ganhos de competitividade são maiores que os prejuízos causados pela concorrência estrangeira? A maior parte dos estudos indica que as vantagens são maiores, mas isso está longe de ser uma verdade absoluta. É uma questão de observar o que acontece na realidade, não uma questão de pura lógica.

Veja – Quais são os perigos de uma nova crise do petróleo?
Helpman – Muitos analistas creditaram a diminuição do ritmo de crescimento da economia mundial nos anos 70 aos choques do petróleo. Na verdade, o papel do choque não foi tão grande. Pelo menos, não explica a redução dramática do crescimento. O que aconteceu foi o seguinte: a crise do petróleo coincidiu com uma fase de grande mudança tecnológica que exigiu uma enorme reorganização. Esse processo de instalação de uma nova tecnologia digital diminuiu as taxas de crescimento num primeiro momento. Foi uma coincidência a crise do petróleo ter ocorrido concomitantemente. Ela teve efeito, claro, mas não foi a principal responsável pela crise dos anos 70. É muito improvável que uma coincidência semelhante aconteça de novo.

Veja – Em que medida a situação dos EUA é preocupante?
Helpman – Com algum grau de certeza, é possível prever que o atual nível de endividamento não é sustentável. Todos sabem que em algum momento algum tipo de ajuste terá de ser feito. A questão passa a ser quando acontecerá o ajuste e de que forma. O governo pode cortar os gastos ou aumentar os impostos. Como ninguém sabe quando e como será feito, as incertezas aumentam no sistema econômico. Esse tipo de dúvida acaba sendo uma barreira para investimentos de longo prazo. Se o governo não mudar o rumo, sabemos que o resultado será inflação alta. A inflação diminuirá o valor dos títulos das dívidas, e muita gente perderá dinheiro.

 
 
 
 
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