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Carta ao leitor
O coelho na cartola da Receita
Para aplacar reclamações antigas
dos assalariados, o governo editou em 30 de dezembro passado uma
medida provisória (MP) em que corrige em 10% a tabela do
imposto de renda (IR) dos empregados. A correção é
insuficiente para cobrir a defasagem de 49% da tabela, acumulada
desde 1996. Ela, entretanto, é salutar por reduzir o peso
dos impostos sobre os assalariados por meio da atualização
do piso e das faixas de tributação do IR. A medida
embute uma perda de arrecadação que, dependendo da
avaliação, varia de 1 bilhão a 2,5 bilhões
de reais.
Quando o Estado renuncia à arrecadação
de determinada quantia, é natural que a carga tributária
diminua, certo? Não no Brasil. Com uma série de outras
medidas embutidas na mesma MP que baixou a cobrança de IR
dos assalariados, o governo conseguiu aumentar a arrecadação
total em 1,2 bilhão de reais. Uma reportagem de VEJA que
começa na página 82 mostra como essa operação
perversa foi feita. Fingir que se cortam impostos quando na verdade
se está aumentando a carga tributária é manobra
tão antiga quanto marota. Em 2003, a pretexto de acabar com
a cumulatividade das contribuições sociais, o governo
inventou uma medida que, no fim, elevou de 3% para 7,6% a alíquota
da Cofins.
Tudo isso é fruto da ambigüidade
de sucessivos governos que, infelizmente, preferem soluções
falsamente mágicas em vez de combater a sonegação,
essa, sim, medida que permitiria cobrar menos impostos e, ao mesmo
tempo, aumentar o total arrecadado. Colocar a luta contra a sonegação
como prioridade poria fim às ambivalências tão
nefastas na política tributária.
Quando os governos são ambivalentes
sobre suas prioridades, fica difícil discernir se se está
diante de falta de honestidade, de ingenuidade ou simplesmente de
incompetência. Têm sido essas as perplexidades a acompanhar
os brasileiros sempre que seus governantes mexem nos impostos. Como
o governo tem se valido mais do ilusionismo do que de obrigar os
sonegadores a pagar o que devem, fica a sugestão de que o
símbolo do vigor arrecadatório brasileiro, o leão,
seja substituído pelo lépido coelhinho branco que
sai da cartola do mágico.
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