Em defesa dos bodes
A globalização comercial e
tecnológica
permitiu o salto dos Tigres Asiáticos
e o alívio da pobreza na China
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Ilustração: Alê
Setti

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É reconhecida a proficiência brasileira em
três coisas: no futebol, no Carnaval e na busca de
bodes expiatórios. Globalização e neoliberalismo
são os bodes na moda. Aquele, inocente. Este, inexistente.
Falar na ameaça do neoliberalismo em país
de moeda inconversível, com 40% do PIB sugados por
impostos e dívida do governo, só pode ser
masturbação de socialistas nostálgicos.
E a globalização não deve ser julgada
pelo que não é. Ela não é uma
invenção maldosa do capitalismo moderno. Houve
episódios de fragmentação e ondas de
globalização no decorrer da História.
As globalizações mais importantes foram a
do Império Romano e a da belle époque do liberalismo,
entre 1860 e a I Guerra Mundial, quando, além do
livre movimento de mercadorias e capitais, havia livre circulação
de pessoas.
A atual globalização não é
uma conspiração americana para manter sua
hegemonia. Os Estados Unidos são hegemônicos
simplesmente porque ganharam a II Guerra Mundial, pelo colapso
do socialismo e por liderar a nova revolução
tecnológica. A globalização convive
com movimentos de integração regional, como
a União Européia, precisamente como contrapeso
à dominação americana.
A globalização não é responsável
pelo desnível industrial nem pela pobreza da periferia.
Ao contrário, foi a globalização comercial
e tecnológica que permitiu o salto tecnológico
dos Tigres Asiáticos e o alívio da pobreza
na China, que quinze anos atrás exportava menos que
o Brasil e hoje exporta quatro vezes mais. Como o comércio
internacional cresce quase o dobro do PIB mundial, os países
abertos ao comércio e ao investimento vêm crescendo
muito mais que os de economia fechada.
Fala-se no Brasil nos perigos da "desindustrialização"
e da "desnacionalização" em virtude da abertura
comercial que fizemos desde 1990. Mas as reais dificuldades
de nossa indústria advieram de políticas internas
que nada têm a ver com liberalismo ou globalização:
sobrevalorização cambial, juros escandalosos
(resultantes dos déficits fiscais), tributação
asfixiante. Países como Cingapura, Taiwan e mesmo
o Chile prosseguiram seu crescimento em plena globalização.
Outra queixa exagerada é quanto à volatilidade
dos capitais financeiros. Essa volatilidade só é
grave à medida que os países recipientes exibem
vulnerabilidades oriundas de déficits fiscais, de
sobrevalorização cambial ou de porres creditícios
do setor privado por desregramento do sistema bancário.
O Brasil sofreu fuga de capitais em virtude dos dois primeiros
fatores, Coréia e Malásia em função
do último, Indonésia em função
de todos eles. A volatilidade não perturbou Taiwan,
Cingapura nem a Austrália.
A atitude sensata para o Brasil é administrar competentemente
nossa inserção na economia globalizada do
futuro. E, dentro da OMC, continuar lutando tenazmente contra
"assimetrias" e "hipocrisias". A "assimetria" é a
insistência dos países industrializados em
ampliar a liberação de serviços e as
regras de proteção de seus investimentos sem
a contrapartida da liberalização de importações
agrícolas. A "hipocrisia" é tornar mandatórias
no comércio internacional cláusulas sociais
(que ignoram diferenças da produtividade da mão-de-obra)
ou refinadas exigências ambientalistas. Estas, sob
pretextos ecológicos ou humanitários, podem
servir de barreiras protecionistas contra as exportações
oriundas de países mais pobres.
Qual a alternativa à globalização?
Nenhuma. Isolarmo-nos da revolução tecnológica
para proteger empregos é suicídio, porque
a perda de competitividade geraria estagnação,
destruindo empregos. Houve em novembro passado, nas Filipinas,
uma reunião de grupos antiliberais de 31 países,
sob o pomposo título de Conferência Internacional
sobre Alternativas à Globalização.
O resultado foi patético. Além de xingamentos
à chamada tríade maligna FMI, Bird e OMC
, acusada de cumplicidade na "ofensiva neoliberal do capitalismo
monopolista contemporâneo", a conferência desovou
duas recomendações concretas: um calote financeiro
pelo não pagamento da dívida externa e um
calote intelectual pelo não reconhecimento de patentes
tecnológicas. Seriam assim punidos os dois principais
protagonistas do desenvolvimento globalizado: os investidores
e os inovadores.
Diz o economista hindu J.K. Mehta, da Universidade de
Allahabad, que o subdesenvolvimento é principalmente
falta de caráter, e não escassez de recursos
ou de capital. Ele tem razão.
Roberto Campos é
economista e diplomata, foi deputado federal,
senador e ministro do Planejamento