Edição 1 631 -12/1/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Uma biografia de Adam Smith
Esses estranhos escritores brasileiros
A Brasiliense relança a coleção Primeiros Passos
Livro mostra o esplendor das igrejas do Brasil
Reaberto o Centro Georges Pompidou, em Paris
A decadência da axé music
O contrato milionário do Jota Quest

Colunas
Roberto Campos
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Figueiredo e o cabaré
de Aldir Blanc

Uma análise do falecido último presidente
do regime militar, à luz de uma bela canção

Não consta que o general João Baptista Figueiredo, que os céus o tenham, freqüentasse tais ambientes, mas o fundo musical de sua vida poderia ser Cabaré, de Aldir Blanc e João Bosco. A bela canção, de 1973 – ano ainda da lúgubre era Médici, quando Figueiredo era chefe da Casa Militar –, interpretada por Elis Regina, descreve um ambiente composto, lá fora, na porta, de "lentas luzes de néon", e dentro, nas mesas, de "flores murchas de crepom". O clima de desolada vigília acentua-se quando, "de tomara-que-caia, surge a crooner do Norte". Seguem-se "nem aplausos nem vaias". Apenas "um silêncio de morte".

O leitor não atinou ainda com o que isso teria a ver com o falecido último presidente do período militar, mas vai atinar depois que se falar, aqui, da fita exibida pelo Fantástico, da Rede Globo, no último dia 2, em que Figueiredo dá uma entrevista informal a amigos, durante um churrasco. Trata-se de gravação de setembro de 1987, dois anos e meio depois de o general deixar a Presidência. Muito à vontade, ele é o convidado de honra de um amigo de Paraíba do Sul (RJ), Rogério Onofre de Oliveira, que vem a ser hoje o prefeito da cidade. A alturas tantas alguém liga uma câmara de vídeo e o ex-presidente, à instigação dos presentes, põe-se a contar casos e comentar pessoas. Entre outras pérolas, diz que uma vez, na Igreja do Bonfim, tanto foi abraçado e beijado pelas baianas que depois, por mais que se banhasse, não se livrava do "cheirinho de crioulo". O anfitrião, Rogério Onofre, que cedeu a fita à Rede Globo, diz que a gravação foi feita com o consentimento de Figueiredo.

O entrevistado fala ainda de Tancredo ("Não era de nada") e Brizola (Pode vir a ser "o maior ditador que o Brasil já conheceu"), entre outros, mas não é isso o que aqui interessa. Interessa o Riocentro, o caso da bomba que, levada num carro por dois militares a um show de música, no dia 30 de abril de 1981, explodiu no caminho, matando um deles e ferindo o outro. Figueiredo conta que quatro dias depois encontrou o general Ernesto Geisel, seu antecessor na Presidência, na missa de 50 anos de casamento de Médici. "Você tem de apurar", teria lhe dito Geisel. "Tem não", Figueiredo diz que respondeu. "É a Justiça que tem de apurar." Geisel teria insistido: "Tem de punir". "Não tenho nada o que fazer", foi a resposta. "Não vou inventar um responsável, como o senhor inventou o D'Ávila Mello."

Tal relato serviria ao divã de um psicanalista. Ou à troca de angústias característica da hora em que o cabaré está fechando, e com isso nos aproximamos do clima proposto ao início destas linhas. Figueiredo começa dizendo que a apuração caberia à Justiça, e aí mostra como a fábula, em sua mente, substituiu-se à realidade. Nunca a apuração de coisa alguma cabe à Justiça, no sistema brasileiro, mas à polícia e ao Ministério Público. No caso, coube a um inquérito policial-militar, IPM, realizado no âmbito do Exército, portanto do Executivo, que tem no presidente seu chefe, já não fosse comandante supremo das Forças Armadas. O resultado foi uma fraude.

Estranha a seguir, no relato de Figueiredo, que ele se dirigisse a Geisel da maneira como apregoa: "Não vou inventar um responsável, como o senhor inventou..." A relação entre ambos era de subordinado para chefe, pupilo para mestre. Figueiredo começa a trair-se por aí. O tom improvável de que reveste a narração desvenda-lhe o caráter de bravata. Quanto ao fundo, refugia-se numa lógica que, de forma incoerente, para um militar, desconhece as implicações da hierarquia e a responsabilidade do chefe. Geisel, que possuía agudo sentido de autoridade, demitiu o comandante em São Paulo, general Ednardo D'Ávila Mello, quando da morte sob tortura, em dependência do Exército, do operário Manuel Fiel Filho. Chefe é chefe, e se não sabe o que ocorre entre os comandados, pior para ele. Já para Figueiredo, ou para a conveniência de suas fabulações, Ednardo nada teria a ver com o caso porque praticado por subordinados.

A argumentação de Figueiredo revela um drama íntimo, e com isso ingressamos de vez no cabaré de Aldir Blanc. Seu percurso no governo pode ser balizado por duas frases, uma dita antes de assumir – "Prendo e arrebento", quando lhe perguntaram o que faria com quem se opusesse à abertura – e outra ao deixar o cargo – "Me esqueçam". Era o homem que ia fazer e acontecer. O machão. Posava de sunga, para exibir os músculos. Veio o episódio do Riocentro... – e não se mostrou à altura do molde que se desenhara. Não puniu. Acovardou-se. O Riocentro, tal desgraça que desencaminha a vida de um homem, cortou-o em dois, antes e depois. Não foi mais o mesmo. "Me esqueçam", pediu. Ele mesmo não se esquecia e, como mostra o vídeo do Fantástico, recorria à fábula para justificar-se. A letra de Aldir Blanc tem seu melhor momento quando, "no drama sufocado em cada rosto", percebe-se "a lama de não ser o que se quis". Cabaré mata a charada de Figueiredo: ele não conseguiu ser o que quis. Que repouse em paz.