Figueiredo e o cabaré
de Aldir Blanc
Uma análise do falecido último presidente
do regime militar, à luz de uma bela canção
Não consta que o general João Baptista Figueiredo, que
os céus o tenham, freqüentasse tais ambientes, mas o fundo
musical de sua vida poderia ser Cabaré, de Aldir
Blanc e João Bosco. A bela canção, de 1973 ano ainda
da lúgubre era Médici, quando Figueiredo era chefe da Casa
Militar , interpretada por Elis Regina, descreve um ambiente
composto, lá fora, na porta, de "lentas luzes de néon",
e dentro, nas mesas, de "flores murchas de crepom".
O clima de desolada vigília acentua-se quando, "de
tomara-que-caia, surge a crooner do Norte". Seguem-se
"nem aplausos nem vaias". Apenas "um silêncio
de morte".
O leitor não atinou ainda com o que isso teria a ver com
o falecido último presidente do período militar, mas vai
atinar depois que se falar, aqui, da fita exibida pelo Fantástico,
da Rede Globo, no último dia 2, em que Figueiredo dá uma
entrevista informal a amigos, durante um churrasco. Trata-se
de gravação de setembro de 1987, dois anos e meio depois
de o general deixar a Presidência. Muito à vontade, ele
é o convidado de honra de um amigo de Paraíba do Sul (RJ),
Rogério Onofre de Oliveira, que vem a ser hoje o prefeito
da cidade. A alturas tantas alguém liga uma câmara de vídeo
e o ex-presidente, à instigação dos presentes, põe-se a
contar casos e comentar pessoas. Entre outras pérolas, diz
que uma vez, na Igreja do Bonfim, tanto foi abraçado e beijado
pelas baianas que depois, por mais que se banhasse, não
se livrava do "cheirinho de crioulo". O anfitrião,
Rogério Onofre, que cedeu a fita à Rede Globo, diz que a
gravação foi feita com o consentimento de Figueiredo.
O entrevistado fala ainda de Tancredo ("Não era de
nada") e Brizola (Pode vir a ser "o maior ditador
que o Brasil já conheceu"), entre outros, mas não é
isso o que aqui interessa. Interessa o Riocentro, o caso
da bomba que, levada num carro por dois militares a um show
de música, no dia 30 de abril de 1981, explodiu no caminho,
matando um deles e ferindo o outro. Figueiredo conta que
quatro dias depois encontrou o general Ernesto Geisel, seu
antecessor na Presidência, na missa de 50 anos de casamento
de Médici. "Você tem de apurar", teria lhe dito
Geisel. "Tem não", Figueiredo diz que respondeu.
"É a Justiça que tem de apurar." Geisel teria
insistido: "Tem de punir". "Não tenho nada
o que fazer", foi a resposta. "Não vou inventar
um responsável, como o senhor inventou o D'Ávila Mello."
Tal relato serviria ao divã de um psicanalista. Ou à troca
de angústias característica da hora em que o cabaré está
fechando, e com isso nos aproximamos do clima proposto ao
início destas linhas. Figueiredo começa dizendo que a apuração
caberia à Justiça, e aí mostra como a fábula, em sua mente,
substituiu-se à realidade. Nunca a apuração de coisa alguma
cabe à Justiça, no sistema brasileiro, mas à polícia e ao
Ministério Público. No caso, coube a um inquérito policial-militar,
IPM, realizado no âmbito do Exército, portanto do Executivo,
que tem no presidente seu chefe, já não fosse comandante
supremo das Forças Armadas. O resultado foi uma fraude.
Estranha a seguir, no relato de Figueiredo, que ele se
dirigisse a Geisel da maneira como apregoa: "Não vou
inventar um responsável, como o senhor inventou..."
A relação entre ambos era de subordinado para chefe, pupilo
para mestre. Figueiredo começa a trair-se por aí. O tom
improvável de que reveste a narração desvenda-lhe o caráter
de bravata. Quanto ao fundo, refugia-se numa lógica que,
de forma incoerente, para um militar, desconhece as implicações
da hierarquia e a responsabilidade do chefe. Geisel, que
possuía agudo sentido de autoridade, demitiu o comandante
em São Paulo, general Ednardo D'Ávila Mello, quando da morte
sob tortura, em dependência do Exército, do operário Manuel
Fiel Filho. Chefe é chefe, e se não sabe o que ocorre entre
os comandados, pior para ele. Já para Figueiredo, ou para
a conveniência de suas fabulações, Ednardo nada teria a
ver com o caso porque praticado por subordinados.
A argumentação de Figueiredo revela um drama íntimo, e
com isso ingressamos de vez no cabaré de Aldir Blanc. Seu
percurso no governo pode ser balizado por duas frases, uma
dita antes de assumir "Prendo e arrebento",
quando lhe perguntaram o que faria com quem se opusesse
à abertura e outra ao deixar o cargo "Me esqueçam".
Era o homem que ia fazer e acontecer. O machão. Posava de
sunga, para exibir os músculos. Veio o episódio do Riocentro...
e não se mostrou à altura do molde que se desenhara.
Não puniu. Acovardou-se. O Riocentro, tal desgraça que desencaminha
a vida de um homem, cortou-o em dois, antes e depois. Não
foi mais o mesmo. "Me esqueçam", pediu. Ele mesmo
não se esquecia e, como mostra o vídeo do Fantástico,
recorria à fábula para justificar-se. A letra de Aldir Blanc
tem seu melhor momento quando, "no drama sufocado em
cada rosto", percebe-se "a lama de não ser o que
se quis". Cabaré mata a charada de Figueiredo:
ele não conseguiu ser o que quis. Que repouse em paz.