Edição 1 631 -12/1/2000

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Escada quente

Reformado, museu de Paris
quer ser mais que belvedere

Depois de passar por uma reforma que durou quase três anos, o Centro Georges Pompidou, de Paris, reabriu suas portas – ou melhor, suas escadas rolantes. Mais que qualquer outro museu parisiense, o Beaubourg, como também é conhecido, tornou-se uma atração turística não pelo acervo de arte moderna que possui ou pelas exposições que oferece. Seu maior chamariz de público é o próprio edifício, projetado no início dos anos 70 pelos arquitetos Renzo Piano, Richard Rogers e Gianfranco Franchini. Com uma estrutura de aço tubular recoberta de vidro, o prédio tem sete andares escaláveis por uma longa escada rolante externa. Segundo a direção do museu, essa peculiaridade arquitetônica faz mais sucesso que qualquer obra já exposta. Estima-se que apenas um quinto dos 175 milhões de visitantes que o Beaubourg recebeu entre 1977, quando foi inaugurado, e 1997, quando fechou para reforma, tenha sido fisgado por alguma mostra. O resto seguiu direto para o 7º andar, de onde se contempla uma belíssima vista da capital francesa. O Beaubourg virou um belvedere.

A reforma, confiada a um dos arquitetos responsáveis pelo projeto original, o italiano Renzo Piano, foi feita para mudar essa situação e também para devolver ao museu o posto de principal plataforma de lançamento da vanguarda artística européia. Para isso, além de praticamente dobrar o espaço dedicado ao acervo permanente, que passou de 800 para 1.400 peças expostas simultaneamente, o núcleo de curadores do museu pretende investir na aquisição de obras de artistas atuais capazes de causar impacto nos visitantes. A maior motivação nesse sentido é a concorrência britânica. Na década passada, o Beaubourg foi perdendo prestígio para a Tate Gallery, de Londres, que tem como um dos seus pontos fortes a arte contemporânea. Com a reforma, os franceses querem recuperar a posição.

Nostalgia – O discurso em favor da produção contemporânea é bonito, mas a realidade é que o público que não anda só de escada rolante gosta mesmo de ver as realizações de nomes consagrados. Tanto isso é verdade que, na reinauguração, a direção do museu confinou os jovens artistas franceses ao 6o andar do prédio, abrindo maior espaço para uma exposição do pintor Fernand Léger (1881-1955), artista influenciado pelo avanço da tecnologia industrial do início do século XX. Esse tipo de atitude, segundo alguns integrantes da associação de curadores do Beaubourg, pode fazer com que sua vocação original, de disseminar a criação contemporânea, seja ameaçada. Os turistas, ao que parece, não estão muito preocupados com isso. Afinal, o belvedere continua lá. E Paris continua linda. E os tais artistas contemporâneos, na esmagadora maioria das vezes, não passam de uns cretinóides sem talento para pintar uma parede. Todas as "instalações" do mundo não valem um único Kandinsky do acervo do Beaubourg.