A nova meia-idade
A geração que chegou aos
50 está
mais preocupada com a saúde e briga
por espaço no mercado de trabalho
Anna Paula Buchalla
|
Ricardo Benichio

|
Maria Luiza Dias, depois
de uma sessão de ginástica:
"Resolvi cuidar mais de mim" |
Se você está chegando aos 50 anos, faça
o teste: pegue sua fotografia mais recente e a compare com
uma de seu pai (no caso dos homens) ou de sua mãe
(para as mulheres) na mesma faixa de idade. A chance de
você estar mais bem conservado do que ele ou do que
ela é enorme. Uma das grandes diferenças da
atual geração de quarentões e de cinqüentões
em relação à turma que estava nessa
faixa etária há vinte ou trinta anos é
a necessidade de se conservar jovem. "É a chamada
geração Peter Pan", diz o gerontologista mexicano
Fernando Torres-Gil, diretor do centro de pesquisas em envelhecimento
da universidade americana da Califórnia, numa referência
ao personagem das histórias infantis que não
queria crescer. "Essas pessoas não aceitarão
ser chamadas de velhas nem mesmo quanto tiverem 60 ou 70
anos de idade."
As pessoas da nova geração da meia-idade,
de modo geral, adquiriram o hábito de fazer ginástica
poucos anos atrás, depois de atravessar a juventude
inteira dando pouquíssima importância à
forma física. Passaram a se preocupar com a qualidade
da alimentação após décadas
de devoção às frituras e à lasanha.
E derrubaram as barreiras que separavam a moda dos adultos
da moda dos jovens. Suas roupas têm cortes bem parecidos
com os modelos usados pela turma que está na casa
dos 20. Esse é o lado glamouroso da nova turma de
meia-idade. O problema é que, por trás dessa
aparência jovial, há mais que um estilo de
vida. Há também muitas exigências que
seus pais, por mais velhos que aparentassem, jamais tiveram
de enfrentar. Para a geração Peter Pan, conservar
a aparência não é só um traço
de vaidade. Em alguns casos é uma questão
de necessidade. Esse é o xis da questão.
Trabalho O trânsito pela casa dos 40 anos
significava, até a geração passada,
o início da contagem regressiva em direção
à aposentadoria. Era nessa época que as pessoas
começavam a merecer respeito dos colegas mais jovens
em razão da experiência adquirida durante a
carreira, que, em muitos casos, começava e terminava
numa mesma organização. Hoje em dia, o profissional
está no auge da carreira. E os cabelos brancos e
a barriguinha discreta que no passado inspiravam respeito
passaram a ser motivo de críticas. São sinais
que mostram o profissional como antiquado e lento. Por essa
razão, diz o consultor de recursos humanos Marcelo
Mariaca, quem entra na casa dos 50 tem mais razões
que os jovens para cuidar da aparência e não
deve ter vergonha de apelar para os recursos que a ciência
pôs a sua disposição. "Para os que têm
mais de 50 anos, cuidar do visual e dos modelos das roupas
é praticamente uma obrigação", afirma
Mariaca, ele mesmo um cinqüentão. "Não
vejo nada de errado com quem tinge o cabelo e faz lipoaspiração."
Vida afetiva Outra exigência que pesa sobre
a turma de meia-idade diz respeito ao casamento. Cerca de
vinte anos atrás, quem chegava aos 50 alcançava
um ponto de equilíbrio que dificilmente seria abalado.
Hoje, nessa faixa etária, muita gente está
apenas começando ou querendo começar tudo
de novo. (E todo mundo sabe que aparência é
meio caminho quando o assunto é paquera e namoro.)
O número de divórcios vem aumentando não
apenas entre os casais com menos de dez anos de vida em
comum. As separações também alcançam
casais que já comemoraram as bodas de prata. E mais:
se no passado uma separação nessa faixa de
idade era uma espécie de fim de linha para as mulheres,
o significado atualmente é bem diferente. Há
dois anos, a paulistana Maria Luiza de Aguiar e Dias, 52
anos, desfez seu casamento de 28 anos. Como os filhos estavam
criados, ela resolveu investir na própria saúde
e bem-estar. Matriculou-se na Fórmula, uma das mais
badaladas academias de ginástica de São Paulo,
e prestou vestibular para ciências sociais. "Achei
que era hora de cuidar de mim, de me atualizar", diz Maria
Luiza. "Não tenho medo de envelhecer, apenas quero
estar preparada para isso", revela.
Medo de envelhecer Os especialistas consideram
que os hábitos saudáveis adquiridos pelas
pessoas de meia-idade muitas vezes refletem apenas o temor
de envelhecer, próprio de uma geração
que tem no currículo mais conquistas que qualquer
outra que a precedeu. "Esse medo gera angústia e,
em muitos casos, depressão", afirma o psicólogo
Nicola Centrone, da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. A questão ainda não resolvida
é que a necessidade de se manter jovem não
consegue deter o processo de envelhecimento. E o medo de
envelhecer pode impedir que a pessoa viva e aproveite bastante
o momento atual que sempre pode ser um ponto de partida
para novas possibilidades.