Automóveis
Encalhou de novo
Estoque de carros chega a 120 000 e projeto
para renovar a frota pode sair da gaveta
Volta e meia, a indústria automobilística
brasileira produz mais do que vende, e o resultado é
um grande encalhe nos pátios das montadoras e revendedoras.
O governo e os fabricantes fazem acordos de redução
de preço com hora marcada para acabar, e a história
se repete: carros, consumidor arredio e demissão
nas fábricas. Na semana passada havia 120.000
veículos na praça esperando por compradores
e uma idéia nova no ar: o projeto do Ministério
da Fazenda para modernizar a frota brasileira, à
semelhança do que se está fazendo na Argentina.
O Brasil tem 20 milhões de automóveis com
média de dez anos de idade. Quanto mais velho o carro,
mais ele polui o ar das grandes cidades. De acordo com o
projeto, quem trocar o carro velho por um modelo zero-quilômetro
ganha um belo desconto no preço do novo. As carroças
vão para o forno das siderúrgicas para reciclagem.
Na Argentina, o acordo está em prática desde
o ano passado e vem obtendo sucesso. No Brasil, continua
estacionado. Para funcionar seria preciso que cada parte
envolvida desse sua cota de sacrifício. As montadoras
teriam de abrir mão de parte do lucro, o governo
cederia uma lasca na montanha de impostos com que soterra
cada automóvel vendido no país e os sindicatos
teriam de convencer os filiados a ganhar menos em troca
da garantia de emprego que o aquecimento das vendas traria.
Talvez o impasse atual provocado pelo pátios lotados
comece a amolecer os envolvidos. "Agora aceito qualquer
proposta, porque o que quero é vender carros", diz
José Carlos Pinheiro Neto, presidente da Anfavea,
a associação dos fabricantes. Enquanto não
sai coelho da cartola, o jeito é procurar soluções
mais tradicionais. A temporada de liquidação
está no ar. As revendedoras estão dando descontos
de até 15% e vendendo carros a preço de setembro
do ano passado. "Os clientes ainda estão achando
os carros muito caros", diz Anselmo Louzada, sócio
da consultoria KPMG.