Edição 1 631 -12/1/2000

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Morte e destruição

Descuido do governo e desrespeito ambiental
agravam os estragos das chuvas de janeiro

Viviane Kulczynski

Tragédias acontecem no mundo inteiro. Há casos em que nada se pode fazer, exceto torcer para que suas conseqüências não sejam tão graves e a desgraça não se repita. As enchentes que arrasaram a Região Sudeste do Brasil na semana passada mostram outra face do problema, ainda mais cruel. A combinação da força da natureza com a negligência do poder público ajudou a produzir um saldo que, em seu auge, beirou os 90.000 flagelados, dezessete cidades em estado de calamidade pública e outras dezoito em situação de emergência. Pelo menos 36 pessoas morreram, segundo os boletins da Defesa Civil divulgados na sexta-feira 7 – a maioria nas regiões serranas e ribeirinhas de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O descuido, se não a irresponsabilidade, das autoridades ao permitir construções em locais impróprios e o desmatamento descontrolado próximo ao leito dos rios vieram novamente à tona com as inundações. "A fiscalização é responsabilidade das prefeituras", afirma a capitã Eliane Nikoluk Scachetti, da Defesa Civil do Estado de São Paulo. "Para nós, sobra apenas o problema."

Desde 1965 não chovia tanto em Campos do Jordão, na serra paulista. Foram 476 milímetros de chuva em quatro dias, o suficiente para inundar qualquer cidade. Só que em Campos do Jordão, um dos principais pontos turísticos de São Paulo, o drama tomou conseqüências trágicas. Pelo menos dez pessoas morreram. A chuva derrubou casas, a correnteza impediu o trabalho de resgate dos bombeiros e o excesso de água desintegrou o morro. As construções erguidas irregularmente nas encostas foram soterradas. Elas tinham sido feitas havia mais de dez anos, num flagrante desrespeito à lei e sob um enorme risco de desabamento. Mas nenhuma administração havia tomado qualquer providência até o infortúnio da semana passada. Quantos votos poderia perder a autoridade que desalojasse aquela população das encostas dos morros? Em Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas, três de cada quatro moradores tiveram de abandonar suas casas. A cidade virou um enorme lago e o único transporte possível era por barcos e tratores. Em socorro às vítimas, o governo federal anunciou a liberação de 7,5 milhões de reais para a compra de remédios, alimentos, agasalhos e colchonetes. A verba representa um quarto do que estava previsto no Orçamento do ano passado para obras de prevenção de enchentes nos três Estados atingidos. O dinheiro, porém, não chegou a ser repassado. Para este ano, a proposta do Orçamento novamente não prevê verbas contra enchentes na Região Sudeste. Ainda dá tempo.