Morte e destruição
Descuido do governo e desrespeito ambiental
agravam os estragos das chuvas de janeiro
Viviane Kulczynski
Tragédias acontecem no mundo inteiro. Há
casos em que nada se pode fazer, exceto torcer para que
suas conseqüências não sejam tão
graves e a desgraça não se repita. As enchentes
que arrasaram a Região Sudeste do Brasil na semana
passada mostram outra face do problema, ainda mais cruel.
A combinação da força da natureza com
a negligência do poder público ajudou a produzir
um saldo que, em seu auge, beirou os 90.000
flagelados, dezessete cidades em estado de calamidade pública
e outras dezoito em situação de emergência.
Pelo menos 36 pessoas morreram, segundo os boletins da Defesa
Civil divulgados na sexta-feira 7 a maioria nas regiões
serranas e ribeirinhas de Minas Gerais, São Paulo
e Rio de Janeiro. O descuido, se não a irresponsabilidade,
das autoridades ao permitir construções em
locais impróprios e o desmatamento descontrolado
próximo ao leito dos rios vieram novamente à
tona com as inundações. "A fiscalização
é responsabilidade das prefeituras", afirma a capitã
Eliane Nikoluk Scachetti, da Defesa Civil do Estado de São
Paulo. "Para nós, sobra apenas o problema."
Desde
1965 não chovia tanto em Campos do Jordão,
na serra paulista. Foram 476 milímetros de chuva
em quatro dias, o suficiente para inundar qualquer cidade.
Só que em Campos do Jordão, um dos principais
pontos turísticos de São Paulo, o drama tomou
conseqüências trágicas. Pelo menos dez
pessoas morreram. A chuva derrubou casas, a correnteza impediu
o trabalho de resgate dos bombeiros e o excesso de água
desintegrou o morro. As construções erguidas
irregularmente nas encostas foram soterradas. Elas tinham
sido feitas havia mais de dez anos, num flagrante desrespeito
à lei e sob um enorme risco de desabamento. Mas nenhuma
administração havia tomado qualquer providência
até o infortúnio da semana passada. Quantos
votos poderia perder a autoridade que desalojasse aquela
população das encostas dos morros? Em Santa
Rita do Sapucaí, no sul de Minas, três de cada
quatro moradores tiveram de abandonar suas casas.
A
cidade virou um enorme lago e o único transporte
possível era por barcos e tratores. Em socorro às
vítimas, o governo federal anunciou a liberação
de 7,5 milhões de reais para a compra de remédios,
alimentos, agasalhos e colchonetes. A verba representa um
quarto do que estava previsto no Orçamento do ano
passado para obras de prevenção de enchentes
nos três Estados atingidos. O dinheiro, porém,
não chegou a ser repassado. Para este ano, a proposta
do Orçamento novamente não prevê verbas
contra enchentes na Região Sudeste. Ainda dá
tempo.