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Risco pesado
A obesidade, doença considerada
grave, afeta
milhões de brasileiros e não pára de
crescer
Aida Veiga
Perdido no meio das infindáveis conversas sobre dietas,
spas e calorias está um personagem que não
tem nada a ver com gordurinhas localizadas ou 4 ou 5 quilos
acima do que o espelho aprova e o guarda-roupa permite.
Trata-se do obeso de verdade, a pessoa que pesa muito mais
do que deve, não emagrece de jeito nenhum e, com
isso, vai acumulando uma coleção de problemas
de saúde. Muito além das considerações
estéticas que tiram o sono de boa parte do planeta,
obesidade é doença. Doença grave, e
disseminada, que no Brasil afeta atualmente 13% das mulheres,
7% dos homens e espantosos 15% das crianças, uma
multidão de cerca de 16 milhões de pessoas.
É o dobro de vinte anos atrás e, mantido esse
ritmo, será epidemia no país em trinta anos.
Não bastassem os números alarmantes, uma informação
divulgada recentemente, resultado de uma análise
dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística,
IBGE, pelo professor Carlos Augusto Monteiro, do departamento
de nutrição da Faculdade de Saúde Pública
da Universidade de São Paulo, aponta duas tendências
que, cruzadas, aumentam o peso das preocupações
nessa área. Na Região Sudeste, mostra o estudo,
a obesidade entre as mulheres de renda alta, aquelas que
lotam academias e vivem em dieta, caiu de 13% em 1989 para
8% em 1997. Em compensação, em vinte anos,
cresceu de 6% para 15% entre as mulheres das famílias
mais pobres culpa, acredita-se, de uma reviravolta
nos hábitos alimentares provocada pelo maior acesso
a salgadinhos, sanduíches e seus calóricos
companheiros. Ou seja: mais obesos à vista.
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Regina C. Schenker
Aguirre, 14 anos, 99
kg
"Sempre fui gordinha. Já fiz
dietas, mas me desanima perder, por exemplo, 4 quilos
em dois meses. Acabo recuperando em dobro. Não
tenho namorado, mas não me sinto discriminada.
Só fico realmente chateada quando vou às
lojas de que gosto e não encontro roupa do
meu tamanho."
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Ricardo Benichio

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Célia Schenker,
53 anos, 79 kg, mãe
de Regina
"Engordei mais de 30 quilos durante
a gravidez e, desde então, venho lutando com
a balança. Emagrecer é muito difícil
para pessoas que, como eu, são preguiçosas
e detestam exercícios. Já tomei remédios,
mas, como não consigo resistir aos doces, acabo
engordando novamente. Agora estou fazendo o regime
por pontos."
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Obesidade é doença mensurável, e seu
parâmetro é o índice de massa corporal,
o IMC. Para calculá-lo, basta dividir o peso pela
altura ao quadrado. Se der 30 ou mais, a pessoa é
obesa, e está com a saúde em risco. Estudos
mostram que cerca de 40% dos homens que sofrem ataques cardíacos
e metade das mulheres com câncer de mama são
obesos. Nos gordos demais, a propensão para a hipertensão
e para o diabetes é três vezes maior. No somatório
geral, eles têm, em média, seis anos a menos
de vida. Vistos como sujeitos preguiçosos, sem força
de vontade, os obesos têm na verdade imensa dificuldade
em seguir a regra básica para emagrecer, que é
comer menos e fazer mais exercício. Sacrifício
para qualquer um, para o obeso comer pouco é tão
difícil quanto, para um alcoólatra, parar
de beber. Com uma agravante: ele precisa continuar comendo
para sobreviver. "Lutamos pela prevenção da
doença, porque recuperar um obeso é missão
quase impossível", afirma Walmir Coutinho, presidente
da Associação Brasileira para o Estudo da
Obesidade, Abeso.
Antonio Milena
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Juliana Calestine,
27 anos, 101 kg
"Dos 14 aos 17 anos, não saía
de casa porque me achava feia. Depois de anos de análise,
consegui superar a cobrança dos meus pais,
que, magros, não queriam uma filha gorda em
casa. Já fiz todos os tipos de dieta. Como
tenho colesterol alto e sinto muito cansaço,
tento me controlar. Mas não abro mão
de chocolate todo dia."
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Quem é
Obesas são as pessoas com índice de
massa corporal, IMC, igual ou maior que 30. Para calculá-lo,
divida o peso pela altura ao quadrado
O
que fazer
As saídas para a obesidade atualmente são:
Dieta
Super-rigorosa, com uso de remédio e acompanhamento
médico
Cirurgia
Reduz ou "afivela" o estômago, fazendo com que
a pessoa passe mal quando come demais
Balão intragástrico
Introduzido pela boca e depois inflado, dá
a sensação de estômago cheio
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Tirando a dieta eterna e dolorosa, restam ao obeso duas
opções (veja quadro ao lado). Uma é
a cirurgia que corta ou interdita uma parte do estômago,
fazendo com que a pessoa se sinta mal cada vez que exagera
na alimentação. Outra, mais controvertida,
é a introdução pela boca de uma espécie
de balão que, ao ser inflado, passa a sensação
de estômago cheio. A cantora Célia conhece
os riscos, as opções e a tabela de calorias
de cor e salteado, mas, como todo mundo que ultrapassou
o limite entre gordo e obeso, não consegue dar marcha
à ré. Aos 50 anos, está pesando 110
quilos e sofre de diabetes. "Como todo bom gordo, gosto
de comer. Faço regime por dois, três meses,
mas quem agüenta passar a vida comendo verdinhos insossos?",
pergunta, suspirando. Célia tem certeza de que teria
tido mais sucesso na carreira se fosse magra. Uma pesquisa
do Grupo Catho, especializado em recolocação
de executivos no mercado de trabalho, apontou que metade
das empresas tem alguma restrição aos obesos.
Nos Estados Unidos, país campeão de obesidade,
onde 25% da população está muito acima
do peso (veja quadro abaixo), já existem mais
de 1 000 escritórios de advocacia especializados
em arrancar indenizações de quem discrimina
obesos.
Bem-sucedido
e conformado Quem é gordo mas bem-sucedido
muitas vezes desiste de brigar com a balança. O humorista
Jô Soares, 61 anos, 115 quilos, não se considera
obeso, garante que não sofre de nenhuma doença
ligada ao excesso de gordura porque "se cuida" e, depois
de tentar todo tipo de dieta, remédio e spa, parece
conformado. "Só fico incomodado quando tenho de ir
ao alfaiate refazer o guarda-roupa", diz. Não é
fácil chegar a essa atitude. A estudante de ciências
sociais Juliana Calestine, 27 anos, 101 quilos, era cobrada
pela mãe, pelo pai e pelo irmão todos
magros e diz que só chegou a um acordo com
seu tamanho depois de muito engorda-emagrece e anos de análise.
"Acabei me assumindo e sou feliz assim", afirma. A maioria
das pessoas, porém, continua tentando emagrecer.
"Já fiz de tudo, mas sempre acabava recuperando o
peso perdido. Quando cheguei aos 152 quilos, fiquei preocupado",
relata o apresentador Fausto Silva, que partiu para a reeducação
alimentar com exercícios e, nestes últimos
quatro anos, emagreceu 30 quilos.
Campanha
para crianças A maioria dos gordos joga
a culpa nos genes, como se ter pai ou mãe gordos
justificasse os abusos à mesa. Não é
bem assim. "A interferência do meio ambiente conta
muito mais", informa o endocrinologista Amélio de
Godoy, professor da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro. O cantor Ed Motta, 29 anos, 1,80 metro
e 170 quilos, sobrinho do também obeso Tim Maia,
está ciente disso. "Fui acostumado a comer demais
desde criança. Meus pais enchiam meu prato, davam
sobremesa, lanche, enfim, comiam muito e faziam todo mundo
ser como eles. Posso ter os genes, mas sou gordo porque
herdei o hábito e o prazer de comer." Na opinião
unânime dos especialistas, o maior de todos os vilões,
em se tratando de peso excessivo, é a mudança
no estilo de vida. No início do século XX
quase não existia carro, nem eletrodoméstico,
nem controle remoto, e as pessoas se movimentavam bem mais.
A qualidade da comida também era outra. Em 1974,
a gordura representava 26% da alimentação
do carioca. Em 1989 tinha pulado para 36%.
Batendo
de frente com a sedução irresistível
do hambúrguer, da pizza e do sofá diante da
TV, diversos governos investem em pesquisas e campanhas
educativas para barrar a disseminação da obesidade.
A Inglaterra pensa em proibir a venda de fast food nas cantinas
escolares. Cingapura, eterna campeã do rigor, decretou
que criança gorda que não emagrecer também
não vai passar de ano. O Brasil vai adotar um "selo
verde" para alimentos saudáveis e lançar uma
cartilha com um personagem da Turma da Mônica criado
para abordar o assunto. "Nosso objetivo é evitar
que as crianças aprendam a comer errado", diz Godoy.
Não vai ser fácil. "Faço dieta, mas
não deixo de ir ao McDonald's", teima a estudante
Regina Célia Schenker Aguirre, 14 anos, 99 quilos.
Sua mãe, Célia Schenker, 53, 79 quilos, entende
a resistência da filha. "Sou preguiçosa e gosto
de comer", diz.
Lourival Ribeiro

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"Sou gordinho desde criança,
mas, como jogava bola, conseguia me manter. Quando
entrei para a televisão, minha vida ficou mais
sedentária e o peso desandou."
Fausto Silva, apresentador, 116
kg
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Ronaldo Ceravolo

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"Não teria a cultura que tenho
hoje se não fosse gordo. Enquanto meus amigos
iam namorar, eu ficava em casa estudando."
Ed Motta, cantor,
170 kg
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Flávio Torres

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"Não me considero
obeso. Só fico realmente incomodado quando
tenho de ir ao alfaiate refazer o guarda-roupa."
Jô
Soares, apresentador,
115 kg
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Oscar Cabral
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"A gordura atrapalhou
minha carreira. Se fosse magra e bonita, teria tido
muito mais espaço, mais sucesso."
Célia, cantora,
110 kg
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