Receita para fugir do abismo
Estudos mostram que tendência
ao vício começa
em casa. E que a ajuda
dos pais é decisiva
Consuelo Dieguez
Selmy Yassuda
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Lucilda, com Gabriel
e Vinícius: "Há grande
cumplicidade entre nós"
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Ver um filho envolvido com drogas é uma das situações
mais desesperadoras que os pais podem enfrentar. Geralmente,
eles tendem a atribuir a culpa às más companhias,
à personalidade rebelde do filho, à televisão
e até à escola. Mas, por trás de um viciado,
há influências bem maiores que a dos amigos esquisitões,
do traficante da esquina ou dos modismos. O que muitos pais
ainda não perceberam acaba de ser confirmado em estudos
inéditos feitos por três centros de pesquisa
a Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil, a Universidade
do País Basco, na Espanha, e a Universidade de Los Andes,
na Colômbia. Essas pesquisas mostram que um jovem drogado
não se forma na rua. A tendência ao vício
começa a ser desenvolvida dentro de casa talvez
antes mesmo de pronunciar as primeiras palavras. Segundo os
estudos, a qualidade da vida familiar é o que dita o
comportamento futuro do jovem em relação aos tóxicos.
Para pais de drogados, essa pode ser uma dura constatação.
Mas, para muitas outras famílias, a notícia é
tranqüilizadora: uma boa educação é,
sim, a melhor proteção contra o horror das drogas
(veja quadro).
A novidade dessas pesquisas é que elas não analisam
a questão só pelo ângulo do drogado. Elas
estudam também os jovens que não consomem entorpecentes.
O que faz com que essa garotada, mesmo submetida a diversos
apelos, não se sinta atraída pelas drogas? A resposta,
tanto no Brasil quanto na Colômbia ou na Espanha, é
que nos lares em que há afeto, diálogo e aconchego
os filhos não sentem necessidade de buscar refúgio
em drogas. Depois de analisar a rotina dessas famílias,
os pesquisadores concluíram que atenção,
orientação e carinho cuidados cada vez mais
raros nas relações familiares do mundo moderno
são os antídotos naturais contra o vício.
Na Colômbia, onde o uso de maconha e cocaína
já se transformou num problema de calamidade pública,
o estudo ouviu 600 famílias das classes média
e alta cujos filhos nunca se haviam drogado. As respostas ao
questionário, que indagava sobre as relações
conjugais, entre pais e filhos e entre irmãos, revelam
grandes coincidências, como existência de diálogo,
respeito às idéias dos outros membros da família,
afeto e imposição de limites. As conclusões
despertaram a atenção dos estudiosos do Nepad,
o conceituado Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção
ao Uso de Drogas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
que agora usam o trabalho como base de seus programas de prevenção
e tratamento. "É claro que já havíamos
percebido a influência familiar na decisão do indivíduo
de se drogar", diz a psiquiatra Maria Thereza Aquino, diretora
do Nepad. "Mas isso nunca tinha sido pesquisado e confirmado
em tantos detalhes."
Na Espanha, onde foram estudadas 36 famílias de não
usuários e sessenta de viciados, concluiu-se que nos
lares de toxicômanos há escassez de apoio mútuo,
pouco espaço para expressar sentimentos e menos interesses
em comum. Os três levantamentos apontam a importância
da convivência familiar. Pais e filhos revelaram compartilhar
atividades recreativas, como passear, praticar esportes e participar
de reuniões sociais. A grande maioria respondeu ainda
que o afeto é expresso abertamente, com beijos, abraços
e palavras de incentivo. Educar, contudo, não é
apenas dar afeto, mas também impor limites. "Amar é
também saber dizer não", afirma Maria Thereza.
A idéia pode parecer óbvia, todavia muitos pais
simplesmente não conseguem colocá-la em prática.
A criança que é criada sem noção
de limites acaba não se sentindo amada. É importante,
contudo, não confundir imposição de limites
com cerceamento de liberdade. Os filhos precisam ter seu espaço
e, quando impedidos de fazer algo, devem receber uma clara explicação
para a negativa.
É dessa forma que a psicóloga carioca Lucilda
Gayer cria os filhos Gabriel, de 17 anos, e Vinícius,
de 15. Separada do marido desde que os meninos eram pequenos,
Lucilda educa-os sozinha. Entre as regras familiares estão
a negociação e o diálogo. "Minha mãe
sempre teve paciência para educar a gente", diz Gabriel.
"Ela sabe ouvir nossos argumentos com atenção."
A preocupação inicial da mãe quanto aos
efeitos da separação sobre os filhos foi atenuada
pela forte presença do avô, dos tios, primos e
outros parentes na vida dos garotos. "Há grande cumplicidade
entre nós", observa Lucilda. A certeza de ser amado e
cuidado pela família é que faz com que o jovem
não precise buscar guarida em outros grupos.
Esse tipo de apoio é bastante forte na casa do representante
comercial Lidio Cupello. Pelo menos uma vez por ano, ele, sua
mulher, Penha, e os dois filhos, Lidia, de 17 anos, e Leandro,
de 15, saem juntos de férias. Sempre que possível,
os pais acompanham as atividades dos filhos. E, muito importante,
a cada noite há um horário reservado para conversas.
"Não é nada formal, mas nós sempre trocamos
impressões sobre o que fizemos durante o dia", conta
Lidio. A solução, muitas vezes, é de uma
simplicidade espantosa e pode ser definida em uma palavra: presença
dos pais. É o que se viu na pesquisa "Drogas, indivíduo
e família responsável", coordenada por Zélia
Caldeira, mestre em saúde pública pela Fundação
Oswaldo Cruz, que estudou o tema em comunidades carentes. Um
dos entrevistados contou que o pai várias vezes foi atrás
dele para evitar que se envolvesse com traficantes. "Bastou
a preocupação do pai para desestimular o filho
a procurar drogas", conta Zélia.