Edição 1 631 -12/1/2000

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Receita para fugir do abismo

Estudos mostram que tendência ao vício começa
em casa.
E que a ajuda dos pais é decisiva

Consuelo Dieguez

 
Selmy Yassuda

Lucilda, com Gabriel
e Vinícius: "Há grande
cumplicidade entre nós"

Ver um filho envolvido com drogas é uma das situações mais desesperadoras que os pais podem enfrentar. Geralmente, eles tendem a atribuir a culpa às más companhias, à personalidade rebelde do filho, à televisão e até à escola. Mas, por trás de um viciado, há influências bem maiores que a dos amigos esquisitões, do traficante da esquina ou dos modismos. O que muitos pais ainda não perceberam acaba de ser confirmado em estudos inéditos feitos por três centros de pesquisa – a Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil, a Universidade do País Basco, na Espanha, e a Universidade de Los Andes, na Colômbia. Essas pesquisas mostram que um jovem drogado não se forma na rua. A tendência ao vício começa a ser desenvolvida dentro de casa – talvez antes mesmo de pronunciar as primeiras palavras. Segundo os estudos, a qualidade da vida familiar é o que dita o comportamento futuro do jovem em relação aos tóxicos. Para pais de drogados, essa pode ser uma dura constatação. Mas, para muitas outras famílias, a notícia é tranqüilizadora: uma boa educação é, sim, a melhor proteção contra o horror das drogas (veja quadro).

A novidade dessas pesquisas é que elas não analisam a questão só pelo ângulo do drogado. Elas estudam também os jovens que não consomem entorpecentes. O que faz com que essa garotada, mesmo submetida a diversos apelos, não se sinta atraída pelas drogas? A resposta, tanto no Brasil quanto na Colômbia ou na Espanha, é que nos lares em que há afeto, diálogo e aconchego os filhos não sentem necessidade de buscar refúgio em drogas. Depois de analisar a rotina dessas famílias, os pesquisadores concluíram que atenção, orientação e carinho – cuidados cada vez mais raros nas relações familiares do mundo moderno – são os antídotos naturais contra o vício.

Na Colômbia, onde o uso de maconha e cocaína já se transformou num problema de calamidade pública, o estudo ouviu 600 famílias das classes média e alta cujos filhos nunca se haviam drogado. As respostas ao questionário, que indagava sobre as relações conjugais, entre pais e filhos e entre irmãos, revelam grandes coincidências, como existência de diálogo, respeito às idéias dos outros membros da família, afeto e imposição de limites. As conclusões despertaram a atenção dos estudiosos do Nepad, o conceituado Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que agora usam o trabalho como base de seus programas de prevenção e tratamento. "É claro que já havíamos percebido a influência familiar na decisão do indivíduo de se drogar", diz a psiquiatra Maria Thereza Aquino, diretora do Nepad. "Mas isso nunca tinha sido pesquisado e confirmado em tantos detalhes."

Na Espanha, onde foram estudadas 36 famílias de não usuários e sessenta de viciados, concluiu-se que nos lares de toxicômanos há escassez de apoio mútuo, pouco espaço para expressar sentimentos e menos interesses em comum. Os três levantamentos apontam a importância da convivência familiar. Pais e filhos revelaram compartilhar atividades recreativas, como passear, praticar esportes e participar de reuniões sociais. A grande maioria respondeu ainda que o afeto é expresso abertamente, com beijos, abraços e palavras de incentivo. Educar, contudo, não é apenas dar afeto, mas também impor limites. "Amar é também saber dizer não", afirma Maria Thereza. A idéia pode parecer óbvia, todavia muitos pais simplesmente não conseguem colocá-la em prática. A criança que é criada sem noção de limites acaba não se sentindo amada. É importante, contudo, não confundir imposição de limites com cerceamento de liberdade. Os filhos precisam ter seu espaço e, quando impedidos de fazer algo, devem receber uma clara explicação para a negativa.

É dessa forma que a psicóloga carioca Lucilda Gayer cria os filhos Gabriel, de 17 anos, e Vinícius, de 15. Separada do marido desde que os meninos eram pequenos, Lucilda educa-os sozinha. Entre as regras familiares estão a negociação e o diálogo. "Minha mãe sempre teve paciência para educar a gente", diz Gabriel. "Ela sabe ouvir nossos argumentos com atenção." A preocupação inicial da mãe quanto aos efeitos da separação sobre os filhos foi atenuada pela forte presença do avô, dos tios, primos e outros parentes na vida dos garotos. "Há grande cumplicidade entre nós", observa Lucilda. A certeza de ser amado e cuidado pela família é que faz com que o jovem não precise buscar guarida em outros grupos.

Esse tipo de apoio é bastante forte na casa do representante comercial Lidio Cupello. Pelo menos uma vez por ano, ele, sua mulher, Penha, e os dois filhos, Lidia, de 17 anos, e Leandro, de 15, saem juntos de férias. Sempre que possível, os pais acompanham as atividades dos filhos. E, muito importante, a cada noite há um horário reservado para conversas. "Não é nada formal, mas nós sempre trocamos impressões sobre o que fizemos durante o dia", conta Lidio. A solução, muitas vezes, é de uma simplicidade espantosa e pode ser definida em uma palavra: presença dos pais. É o que se viu na pesquisa "Drogas, indivíduo e família responsável", coordenada por Zélia Caldeira, mestre em saúde pública pela Fundação Oswaldo Cruz, que estudou o tema em comunidades carentes. Um dos entrevistados contou que o pai várias vezes foi atrás dele para evitar que se envolvesse com traficantes. "Bastou a preocupação do pai para desestimular o filho a procurar drogas", conta Zélia.

 

 



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