Edição 1 631 -12/1/2000

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Ele colhe dinheiro em árvores

O banqueiro John Forgách está mostrando
que preservar a natureza dá lucro. Muito lucro

Alexandre Mansur

 

No começo, Forgách adquiriu
duas araras. Como eram
machos, comprou mais duas
fêmeas. Logo tinha mais de
200 aves. Aí decidiu que era
hora de salvar também a
floresta de onde vinham

O banqueiro curitibano John Forgách, 51 anos, passa a maior parte do tempo visitando babaçuzais no Tocantins, alimentando araras ameaçadas de extinção em Mato Grosso, vistoriando toras de madeira no Amazonas e examinando plantações de amora no Chile. No tempo restante, fecha negócios em Londres ou Washington e comanda milhões de dólares em investimentos internacionais. Pela agenda, percebe-se que Forgách é um banqueiro diferente. À frente do banco Axial, em São Paulo, ele está conseguindo concretizar uma idéia que, no início, parecia boa demais para ser verdade: criar fundos de investimento para financiar projetos ambientais, ajudar a preservar a natureza e, ainda por cima, gerar lucro. Muito lucro. Mais precisamente, 30% ao ano de retorno em dólar. Os primeiros resultados estão vindo a galope. Sob a batuta de Forgách, o Axial já botou de pé a Ita, uma das maiores produtoras de palmito e polpa de açaí do país, e no mês passado anunciou a reestruturação da Gethal, uma das principais madeireiras da Amazônia. "É uma mudança de paradigma", diz o economista André Guimarães, do Banco Mundial. "Pela primeira vez, o empresariado da região, que estava acostumado com subsídios do governo, vai conciliar práticas ambientais com lucro."

De lucros, Forgách entende. Formado pela Universidade Harvard, entrou para o banco Chase, de onde saiu como vice-presidente nove anos depois. A seguir, fez fortuna comprando e vendendo petróleo até 1985, quando largou o negócio para administrar o próprio dinheiro, em Genebra, na Suíça. "Em um país pacato como aquele, comecei a gastar com bobagem", conta. O banqueiro comprou duas araras para se divertir. Descobriu que eram machos e decidiu adquirir duas fêmeas. Quando se deu conta, estava com 200 aves raras e já tinha criado a Fundação Hyazinthinus, organização internacional para reproduzir em cativeiro araras ameaçadas de extinção, e a Start, entidade especializada em socorrer animais recuperados do tráfico. "Foi quando percebi que não tinha sentido ficar cuidando apenas das araras", lembra. "Era preciso salvar todo o ecossistema." Forgách, com outros dois sócios, fundou o Axial em janeiro de 1997, em São Paulo. No mesmo mês, foram visitados por uma equipe do Banco Mundial que estava procurando um administrador para o fundo Terra Capital, o primeiro do mundo destinado a capitalizar projetos empresariais para preservar a biodiversidade. O negócio foi fechado em março, e o banqueiro saiu atrás de investidores. No final de 1998, o fundo já contava com 15 milhões de dólares. Outros 10 milhões entrarão em junho.

Com o dinheiro, Forgách está apostando na Ita, que produz palmito e polpa de açaí em Marajó. A empresa vai aumentar seu açaizal de 8 000 para 30 000 hectares. "O açaí depende da floresta para crescer", explica Georges Schnyder Jr., diretor da Ita. "Investir nele é preservar a mata." Os produtos que saem dali têm certificação ambiental e sanitária. Com isso, além de abastecer o mercado brasileiro, a Ita está começando a exportar para a Itália. A empresa também ajuda os ribeirinhos, que trabalham na colheita. Organizados, eles estão ganhando terras e vão virar sócios do projeto, dividindo até 10% dos lucros. Um negócio semelhante à Ita está sendo feito com a Tobasa, que industrializa babaçu no Tocantins, usa matéria-prima fornecida pelos índios apinajés e preserva a floresta de palmeiras naturais da região. Com o dinheiro do Axial, a Tobasa vai beneficiar o miolo do babaçu para fazer filtro de carvão ativado, um produto caro usado por várias indústrias, da informática à aeronáutica. O banco também ajudará a Ouro Fértil, de Belém, a produzir fibra de coco para estofar os bancos dos carros da Mercedes-Benz.

O sucesso do Terra Capital habilitou Forgách a alçar vôos mais altos. Agora, ele está acertando a criação do Fundo Florestal. O negócio será feito em parceria com a GMO-RR, administradora americana de fundos internacionais que tem 1 bilhão de dólares para negócios destinados à preservação de florestas no mundo inteiro. Para começar, a GMO-RR comprou a madeireira Gethal. Capitalizada, a empresa se reestruturou e passou a extrair madeira de forma sustentável, sem degradar a floresta. "Seria impossível conseguir financiamento em bancos tradicionais", conta Bruno Sterno, diretor da Gethal. A chegada do dinheiro graúdo é explicada por Forgách. "Nós conseguimos estabelecer no mercado uma imagem de seriedade", afirma. "E os investidores internacionais valorizam muito esse comportamento." O Axial recusou entrar em projetos rentáveis (e polêmicos), como o plantio de soja nas várzeas da Amazônia. Também desistiu de participar da hidrovia no Rio Araguaia em virtude dos protestos dos índios xavantes. "Não podemos correr o risco de, amanhã, ter as ONGs gritando em nossa porta", resume o banqueiro.