Ele colhe dinheiro em árvores
O banqueiro John Forgách
está mostrando
que preservar a natureza dá lucro. Muito lucro
Alexandre Mansur
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No começo, Forgách adquiriu
duas araras. Como eram
machos, comprou mais duas
fêmeas. Logo tinha mais de
200 aves. Aí decidiu que era
hora de salvar também a
floresta de onde vinham
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O banqueiro curitibano John Forgách,
51 anos, passa a maior parte do tempo visitando babaçuzais
no Tocantins, alimentando araras ameaçadas de extinção
em Mato Grosso, vistoriando toras de madeira no Amazonas
e examinando plantações de amora no Chile.
No tempo restante, fecha negócios em Londres ou Washington
e comanda milhões de dólares em investimentos
internacionais. Pela agenda, percebe-se que Forgách
é um banqueiro diferente. À frente do banco
Axial, em São Paulo, ele está conseguindo
concretizar uma idéia que, no início, parecia
boa demais para ser verdade: criar fundos de investimento
para financiar projetos ambientais, ajudar a preservar a
natureza e, ainda por cima, gerar lucro. Muito lucro. Mais
precisamente, 30% ao ano de retorno em dólar. Os
primeiros resultados estão vindo a galope. Sob a
batuta de Forgách, o Axial já botou de pé
a Ita, uma das maiores produtoras de palmito e polpa de
açaí do país, e no mês passado
anunciou a reestruturação da Gethal, uma das
principais madeireiras da Amazônia. "É uma
mudança de paradigma", diz o economista André
Guimarães, do Banco Mundial. "Pela primeira vez,
o empresariado da região, que estava acostumado com
subsídios do governo, vai conciliar práticas
ambientais com lucro."
De lucros, Forgách entende. Formado pela Universidade
Harvard, entrou para o banco Chase, de onde saiu como vice-presidente
nove anos depois. A seguir, fez fortuna comprando e vendendo
petróleo até 1985, quando largou o negócio
para administrar o próprio dinheiro, em Genebra,
na Suíça. "Em um país pacato como aquele,
comecei a gastar com bobagem", conta. O banqueiro comprou
duas araras para se divertir. Descobriu que eram machos
e decidiu adquirir duas fêmeas. Quando se deu conta,
estava com 200 aves raras e já tinha criado a Fundação
Hyazinthinus, organização internacional para
reproduzir em cativeiro araras ameaçadas de extinção,
e a Start, entidade especializada em socorrer animais recuperados
do tráfico. "Foi quando percebi que não tinha
sentido ficar cuidando apenas das araras", lembra. "Era
preciso salvar todo o ecossistema." Forgách, com
outros dois sócios, fundou o Axial em janeiro de
1997, em São Paulo. No mesmo mês, foram visitados
por uma equipe do Banco Mundial que estava procurando um
administrador para o fundo Terra Capital, o primeiro do
mundo destinado a capitalizar projetos empresariais para
preservar a biodiversidade. O negócio foi fechado
em março, e o banqueiro saiu atrás de investidores.
No final de 1998, o fundo já contava com 15 milhões
de dólares. Outros 10 milhões entrarão
em junho.
Com o dinheiro, Forgách está apostando na
Ita, que produz palmito e polpa de açaí em
Marajó. A empresa vai aumentar seu açaizal
de 8 000 para 30
000 hectares. "O açaí depende da floresta
para crescer", explica Georges Schnyder Jr., diretor da
Ita. "Investir nele é preservar a mata." Os produtos
que saem dali têm certificação ambiental
e sanitária. Com isso, além de abastecer o
mercado brasileiro, a Ita está começando a
exportar para a Itália. A empresa também ajuda
os ribeirinhos, que trabalham na colheita. Organizados,
eles estão ganhando terras e vão virar sócios
do projeto, dividindo até 10% dos lucros. Um negócio
semelhante à Ita está sendo feito com a Tobasa,
que industrializa babaçu no Tocantins, usa matéria-prima
fornecida pelos índios apinajés e preserva
a floresta de palmeiras naturais da região. Com o
dinheiro do Axial, a Tobasa vai beneficiar o miolo do babaçu
para fazer filtro de carvão ativado, um produto caro
usado por várias indústrias, da informática
à aeronáutica. O banco também ajudará
a Ouro Fértil, de Belém, a produzir fibra
de coco para estofar os bancos dos carros da Mercedes-Benz.
O sucesso do Terra Capital habilitou Forgách a
alçar vôos mais altos. Agora, ele está
acertando a criação do Fundo Florestal. O
negócio será feito em parceria com a GMO-RR,
administradora americana de fundos internacionais que tem
1 bilhão de dólares para negócios destinados
à preservação de florestas no mundo
inteiro. Para começar, a GMO-RR comprou a madeireira
Gethal. Capitalizada, a empresa se reestruturou e passou
a extrair madeira de forma sustentável, sem degradar
a floresta. "Seria impossível conseguir financiamento
em bancos tradicionais", conta Bruno Sterno, diretor da
Gethal. A chegada do dinheiro graúdo é explicada
por Forgách. "Nós conseguimos estabelecer
no mercado uma imagem de seriedade", afirma. "E os investidores
internacionais valorizam muito esse comportamento." O Axial
recusou entrar em projetos rentáveis (e polêmicos),
como o plantio de soja nas várzeas da Amazônia.
Também desistiu de participar da hidrovia no Rio
Araguaia em virtude dos protestos dos índios xavantes.
"Não podemos correr o risco de, amanhã, ter
as ONGs gritando em nossa porta", resume o banqueiro.