Imigração
Em Nova York,
mas com dinheiro
Profissionais qualificados começam
a mudar
o perfil dos brasileiros nos Estados Unidos
Tania Menai
André Penner
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O carioca José Lavaquial com
a
mulher, Ana, no apartamento do
Upper East Side: classe ascendente
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Os Estados Unidos estão recebendo um novo tipo de
imigrante brasileiro, que nada tem de clandestino. Ele tem
boa qualificação profissional e entrou no
país pela porta da frente. A nova safra pode ser
conferida em recente pesquisa encomendada pela prefeitura
da cidade, segundo a qual aumentou o número de brasileiros
morando nos bairros mais nobres de Manhattan. Entre 1995
e 1996, 2 761 imigrantes oriundos
do Brasil obtiveram o green card (visto de permanência
ilimitada nos Estados Unidos) e vivem em Nova York. O estudo
da prefeitura mostra que, nessa última leva dos que
receberam visto permanente, a maior concentração
na ilha (27%) está no Upper East Side, onde se pagam
cerca de 4.000 a 6.000
dólares de aluguel por um apartamento de dois quartos
num prédio com porteiro. Esse número de green
cards é um terço maior que o dos quatro anos
anteriores. Outro bom indicativo do novo perfil está
nas estatísticas do Departamento de Imigração
e Naturalização, em Washington. Elas mostram
que, diferentemente do que ocorre com a maioria dos latino-americanos,
os brasileiros estão cada vez mais obtendo o visto
por motivos profissionais. Em 1997, de cada grupo de dez
brasileiros com visto de permanência ilimitada, sete
o receberam por causa de seu trabalho.
Os
novos imigrantes chegam com o inglês afiado, alguns
já estudaram ou moraram fora e muitos têm mestrado
ou mesmo doutorado. Essa turma é apaixonada pelo
que faz, trabalha de dez a doze horas por dia e, sobretudo,
não vive em um gueto étnico. Opta por gastar
mais para morar em Manhattan, em vez de viver em espaços
mais amplos e baratos no Queens, onde se concentram os imigrantes
brasileiros de classe média. Um bom exemplo é
o carioca José Lavaquial, 35 anos, que chegou à
cidade há cinco anos juntamente com sua mulher, Ana
Cláudia, quando o Bozano, Simonsen resolveu abrir
uma corretora em Manhattan. Transferido do Rio de Janeiro,
ele assumiu a direção dos negócios
internacionais da corretora, passou um ano em Hong Kong
e voltou para Nova York. "Muitos brasileiros almejam morar
aqui, mas não têm um projeto sólido",
diz.
O consulado em Nova York, que cobre também os Estados
da Pensilvânia, Delaware, Nova Jersey e Connecticut,
estima que 300.000 brasileiros
residam nessas áreas. Tereza Costa, responsável
pela área de atendimento do consulado, informa que
o grosso da imigração continua a ser dos chamados
"não documentados", maneira politicamente correta
de descrever quem entra nos Estados Unidos com uma mão
na frente e outra atrás. Continua a ser maioria aquele
imigrante que aceita lavar pratos, engraxar sapatos ou realizar
outro bico qualquer na esperança de juntar dinheiro
e comprar uma casinha para a família quando voltar
ao Brasil. Esse é o brasileiro típico que
se muda para Nova York. Entre os que chegam aos Estados
Unidos com dificuldade, só alguns poucos obtêm
um lugar ao sol. Estima-se que, para cada imigrante que
se integrou à sociedade local ou conseguiu firmar-se
financeiramente, há entre 300 e 400 outros lutando
para guardar alguns dólares no final do mês.
A grande maioria acaba padecendo diante da concorrência.
Os sérvios e croatas, recém-saídos
de uma guerra e dispostos a tudo, aprendem inglês
com facilidade e estão tomando o lugar de garçons
brasileiros. Na área de construção
civil, os operários brasileiros perdem espaço
para engenheiros russos. Babás agora competem com
as filipinas e as russas. No comércio, também
são grandes as adversidades. Quem nunca ouviu falar
da famosa Rua 46, conhecida como Little Brazil? Lá,
as lojas que dependiam do turista brasileiro estão
fechando as portas após a desvalorização
do real, eliminando assim diversas vagas. Na semana passada,
foi a vez da Brasil Som, que funcionava ali fazia quarenta
anos. Um dos pioneiros da rua, o proprietário Jaime
Felzen faturava 3 milhões de dólares por ano.
Nos últimos três meses, atendeu apenas dezesseis
clientes.
Poucos conseguem refazer a trajetória do empresário
Fábio Machado, que foi para Nova York em 1973. Ele
já fez um pouco de tudo antes de se casar com uma
americana e receber seu green card. Vendeu produtos eletrônicos
e roupas até se estabelecer em Long Island no ramo
de restaurantes. Nas últimas semanas, trabalhava
freneticamente para inaugurar a Saci Club, casa noturna
que montou com três sócios em Manhattan, onde
emprega quarenta pessoas, a maior parte brasileiros. "É
tão grande a concorrência para quem chega aqui
lavando pratos e permanecendo como trabalhador ilegal que
hoje é quase impossível ser bem-sucedido começando
dessa forma", diz.
Competitiva e agressiva O perfil do imigrante
sofreu uma alteração porque a economia americana
vive um momento esplêndido. O índice de desemprego
no país, de 4,1%, é o mais baixo desde 1970.
Nunca se precisou tanto de especialistas nas mais diversas
áreas. E o jeito foi importá-los. O paulista
Fernando Cotait Maluf, 28 anos, cursou medicina na Santa
Casa e já fez residência em clínica
médica no Hospital das Clínicas da Universidade
de São Paulo. Mas, quando foi aprovado nos testes
requeridos para uma residência nos Estados Unidos,
seus direitos e deveres se equipararam aos dos americanos.
Desde julho de 1998, Maluf é residente de oncologia
clínica e hematologia do Memorial Sloan-Kettering
Cancer Center, um dos principais centros de pesquisa e tratamento
de câncer do mundo. O programa tem três anos
de duração. "O Memorial possui uma equipe
multidisciplinar muito bem treinada e sólida pesquisa
laboratorial de novas drogas, que, se promissoras, são
estudadas em seres humanos", observa ele, que mora num estúdio
perto do hospital. "Esta é uma cidade extremamente
competitiva e agressiva, talvez porque as pessoas que vêm
para cá sejam bastante motivadas."
David Corio
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Medeiros e Ana Abdul:
aluguel de 6 000 dólares
no SoHo e loja de 2 500
metros em NoLIta
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Em comum, os novos imigrantes mudaram-se para Nova York
como uma etapa da carreira profissional. Ou foram transferidos
pela empresa ou escolheram a cidade para fazer um curso.
É o caso da brasiliense Ana Abdul, 30 anos, que junto
com Luís Felipe Medeiros, o "Lipe", de 31, é
dona de uma loja badalada, a Language, na Rua Mulberry,
no bairro de NoLIta. Ana e Lipe se conheceram em Nova York
e pagam 6.000 dólares
por mês para morar num loft no SoHo. Lipe deixou São
Paulo seis anos atrás para estudar artes plásticas.
Ana saiu de Brasília há cinco para cursar
mestrado na School of Visual Arts e chegou a estagiar com
Annie Leibovitz, uma das fotógrafas mais renomadas
do mundo, e no Museu de Arte Moderna, o MoMA. A loja, que
une os móveis desenhados por Lipe com a experiência
em moda de Ana, aberta em 1997, já fatura 1,5 milhão
de dólares anuais. Seus 2.500
metros quadrados são ocupados por móveis,
antiguidades, moda, acessórios, e ainda é
uma galeria de arte. Nada mais new yorker. "Investimos alto,
mas a burocracia é muito simples e funciona a nosso
favor", conta Ana. "No Brasil, você nunca sabe o que
vai acontecer no mês seguinte. Todos ficam dependendo
das medidas econômicas."
André Penner
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Zarvos, no apartamento
próprio no Upper East Side:
nada de guetos
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Uma característica do empreendimento bem-sucedido
de Ana e Lipe é justamente não depender da
colônia brasileira. Sua loja até pode ter clientes
brasileiros. Mas não é feita para eles nem
tem aquela nostalgia dos trópicos. "O que une o caldeirão
cultural da cidade é o idioma", diz o compositor
e pianista Marcelo Zarvos, 30 anos, que desembarcou em Nova
York há cinco anos e já tem o green card.
"Quem chega aqui sem falar inglês está condenado
a viver em um gueto de brasileiros. Sendo assim, é
melhor ficar no Brasil." O paulista Zarvos já gravou
três CDs, tem a agenda lotada de concertos e compõe
músicas para cinema. Seu estúdio ocupa um
dos dois quartos do apartamento que acaba de comprar no
Upper East Side. Apesar de sempre trabalhar com projetos
no Brasil, ele não pensa em voltar ao país.
Menos mineiros
Nos anos 80, nove entre dez imigrantes brasileiros
residentes no Estado americano de Massachusetts tinham
saído de Governador Valadares, cidade mineira
de 250 000 habitantes.
Agora, o fenômeno migratório alastrou-se
pelo Brasil todo. Minas Gerais continua sendo a origem
de quase metade dos brasileiros da região
que concentra o maior número de imigrantes
do Brasil depois da área metropolitana de Nova
York. Mas a soma dos cariocas, paulistas, capixabas
e goianos já chega a 45%, segundo pesquisa
feita pela socióloga Ana Cristina Braga Martes,
que morou dois anos em Boston e escreveu o livro Brasileiros
nos Estados Unidos Um Estudo sobre Imigrantes em
Massachusetts. Em 1990, uma reportagem de VEJA
mostrava que o imigrante típico era do sexo
masculino, jovem e solteiro. Quando casado, deixava
a família no Brasil. Na virada do século,
o número de mulheres praticamente se equipara
ao de homens. Os casados, que agora são 6%
mais que os solteiros, começaram a viajar com
a família.
Outra novidade é que 15% desses brasileiros
já não querem retornar ao Brasil. "É
um índice relevante, pois até pouco
tempo atrás eles iam juntar dinheiro para,
depois, voltar para cá", ressalta a socióloga.
Entre os que regressam, há quem se aproveite
da falta de referências do recém-chegado
para ganhar um dinheiro extra. Como já têm
mais contatos na cidade, muitos desses imigrantes
"vendem" seus postos de trabalho em funções
subalternas, como de faxineira. O preço da
"venda" é, em média, três vezes
o rendimento mensal que o novato irá receber.
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