Solidariedade
Ricos ficam sovinas
Maiores economias do mundo estão
reduzindo sua ajuda humanitária
Christian Schwartz
Os países mais ricos estão iniciando o novo
milênio muito mais abastados do que eram no início
da última década do século XX. Nos
anos 90, as nações da Europa ocidental se
fortaleceram graças ao mercado comum e a uma economia
cada vez mais competitiva. O Japão parece haver superado
as dificuldades dos últimos anos e está pronto
para voltar a rugir. O exemplo mais eloqüente, porém,
é o dos Estados Unidos. Para a maior economia do
mundo, a década de 90 terminou como uma das melhores
da História. A taxa de crescimento da economia foi
de 5,5% no último ano fiscal americano (entre outubro
de 1998 e setembro de 1999), um resultado para lá
de expressivo para quem tem um produto interno bruto, PIB,
de cerca de 9 trilhões de dólares mais
de dez vezes maior do que o brasileiro. A taxa de desemprego
está em seu ponto mais baixo dos últimos trinta
anos. Num cenário como esse, seria razoável
supor que a parte milionária do mundo estivesse aumentando
os recursos destinados aos programas de ajuda humanitária
aos mais pobres. Não foi isso que aconteceu. À
medida que os ricos ficam mais ricos, o dinheiro destinado
a essas entidades torna-se mais minguado.
As
doações de alimentos feitas pelos países
ricos ao fundo das Nações Unidas contra a
fome atingiram em 1999 os níveis mais baixos dos
últimos vinte anos. A Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico,
OCDE, que reúne os países mais abastados do
mundo, calcula que o volume de dinheiro destinado aos fundos
de ajuda caiu 21% entre 1992 e 1997. O governo americano
destinou, em 1997, um total de 6,9 bilhões de dólares
a esse tipo de programa. O dinheiro, equivalente a 0,09%
do PIB naquele ano (7,7 trilhões de dólares),
representa menos da metade do volume doado pelos Estados
Unidos no início da década de 90. Por que
as doações estão caindo quando a impressão
que se tem é de aumento do número de pessoas
que necessitam de ajuda?
Uma das explicações para o fenômeno
é o fim da Guerra Fria. O colapso da União
Soviética de certa forma eliminou o argumento estratégico
que justificava programas de ajuda a países sob ameaça
de se bandear para a zona de influência do bloco comunista.
Até o Brasil, nos anos 60, recebeu ajuda humanitária
americana sob a forma de leite em pó e de programas
educacionais. Com o fim do comunismo desapareceram as justificativas
para as doações. A nova ordem acabou por criar
entre os americanos uma corrente absolutamente contrária
à doação de recursos aos pobres. Num
discurso recente no Congresso, o deputado Harold Rogers,
do Partido Republicano, fez uma crítica furiosa à
assistência internacional. "Querem dar o dinheiro
de nossos impostos para outros países e que se dane
o que acontece aqui dentro", disse Rogers.
A
escassez generalizada de recursos deu origem a um fenômeno
batizado de "efeito CNN" pelo jornal americano The Washington
Post. Na disputa pelos recursos disponíveis,
diz o diário, levam vantagem as regiões cujas
tragédias são acompanhadas pelas câmaras
da emissora de televisão e chamam a atenção
da opinião pública. Países como Angola,
Libéria e Congo vivem situações de
guerra civil que se arrastam há anos e justamente
por durar tanto tempo não despertam a curiosidade
da imprensa internacional. São guerras sangrentas,
que já ceifaram milhões de vidas e, tudo indica,
continuarão levando a morte e a fome à população
civil. A ajuda dada a cada um desses países durante
um ano é menos do que a província de Kosovo
recebia em um mês no auge da crise nos Bálcãs.
"A televisão pode atrair mais atenção
para a necessidade de um ou de outro país", diz Heather
Hill, porta-voz do fundo das Nações Unidas
contra a fome. "Mas a presença das câmaras
não faz aparecer o dinheiro."
Além do fim da Guerra Fria, há outra explicação,
mais palpável, para a redução da ajuda
humanitária destinada aos países pobres: a
dúvida quanto ao destino dado aos recursos. Uma das
principais preocupações dos organismos que
administram a ajuda internacional é ter a certeza
de que o dinheiro oferecido chegará a seu destino
final, ou seja, a população necessitada. O
jornalista americano P.J. O'Rourke passou anos viajando
por países ricos e pobres na tentativa de descobrir
por que algumas nações dão certo enquanto
outras não conseguem sair do estado de miséria
em que sempre viveram. A pesquisa resultou num livro chamado
Eat the Rich (Coma o Rico), ainda sem edição
para o português, no qual o autor afirma que a corrupção
e a ausência de democracia são os maiores obstáculos
para o sucesso desses programas de ajuda. Um dos casos analisados
por O'Rourke é a Tanzânia, no sudeste da África,
destroçada por décadas de um governo socialista
absolutamente incompetente. Desde a década de 60,
a Tanzânia recebeu mais de 20 bilhões de dólares
em ajuda humanitária, cifra superior ao PIB local.
Mesmo assim, o país continua paupérrimo e
atrasado. A renda per capita, de 128 dólares por
ano, é hoje igual à do Brasil no início
do século XIX.
A Libéria, um país do tamanho de Pernambuco
para onde se transferiram milhares de ex-escravos americanos
no século XIX, é outro caso em que a assistência
internacional não tem funcionado. Só os Estados
Unidos despejaram ali, entre 1990 e 1996, mais de 400 milhões
de dólares. Pouco adiantou. No auge da guerra que
dilacerou o país nos anos 90, morriam setenta pessoas
por dia, a maior parte de fome ou por falta de assistência
médica. Os recursos simplesmente não chegavam
aonde eram necessários: os campos de refugiados.
Em vez disso, eram desviados para os grupos armados que
há anos disputam a hegemonia.
O problema, é claro, preocupa as lideranças
mais sensatas do mundo. Há alguns anos, a OCDE estabeleceu
o ano de 2015 como prazo para que metade da pobreza do mundo
fosse erradicada. Em 1996, os países membros firmaram
um compromisso: cada um deles passaria a gastar com programas
de ajuda humanitária pelo menos 0,7% do PIB promessa
assumida também pelo G-7, o grupo das nações
mais ricas. Dois anos depois, apenas quatro países
Dinamarca, Noruega, Holanda e Suécia cumpriam
o acordo. Quinze países da OCDE, inclusive os membros
do G-7 (com exceção da França), não
gastavam nem a metade do prometido. A necessidade desse
tipo de ajuda aos povos mais pobres do mundo é cada
vez mais urgente. Mas os países ricos querem cada
vez mais garantias de que os recursos chegarão a
seu destino. Sem isso não tem ajuda.