Edição 1 631 -12/1/2000

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Solidariedade

Ricos ficam sovinas

Maiores economias do mundo estão
reduzindo sua ajuda humanitária

Christian Schwartz

Os países mais ricos estão iniciando o novo milênio muito mais abastados do que eram no início da última década do século XX. Nos anos 90, as nações da Europa ocidental se fortaleceram graças ao mercado comum e a uma economia cada vez mais competitiva. O Japão parece haver superado as dificuldades dos últimos anos e está pronto para voltar a rugir. O exemplo mais eloqüente, porém, é o dos Estados Unidos. Para a maior economia do mundo, a década de 90 terminou como uma das melhores da História. A taxa de crescimento da economia foi de 5,5% no último ano fiscal americano (entre outubro de 1998 e setembro de 1999), um resultado para lá de expressivo para quem tem um produto interno bruto, PIB, de cerca de 9 trilhões de dólares – mais de dez vezes maior do que o brasileiro. A taxa de desemprego está em seu ponto mais baixo dos últimos trinta anos. Num cenário como esse, seria razoável supor que a parte milionária do mundo estivesse aumentando os recursos destinados aos programas de ajuda humanitária aos mais pobres. Não foi isso que aconteceu. À medida que os ricos ficam mais ricos, o dinheiro destinado a essas entidades torna-se mais minguado.

As doações de alimentos feitas pelos países ricos ao fundo das Nações Unidas contra a fome atingiram em 1999 os níveis mais baixos dos últimos vinte anos. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE, que reúne os países mais abastados do mundo, calcula que o volume de dinheiro destinado aos fundos de ajuda caiu 21% entre 1992 e 1997. O governo americano destinou, em 1997, um total de 6,9 bilhões de dólares a esse tipo de programa. O dinheiro, equivalente a 0,09% do PIB naquele ano (7,7 trilhões de dólares), representa menos da metade do volume doado pelos Estados Unidos no início da década de 90. Por que as doações estão caindo quando a impressão que se tem é de aumento do número de pessoas que necessitam de ajuda?

Uma das explicações para o fenômeno é o fim da Guerra Fria. O colapso da União Soviética de certa forma eliminou o argumento estratégico que justificava programas de ajuda a países sob ameaça de se bandear para a zona de influência do bloco comunista. Até o Brasil, nos anos 60, recebeu ajuda humanitária americana sob a forma de leite em pó e de programas educacionais. Com o fim do comunismo desapareceram as justificativas para as doações. A nova ordem acabou por criar entre os americanos uma corrente absolutamente contrária à doação de recursos aos pobres. Num discurso recente no Congresso, o deputado Harold Rogers, do Partido Republicano, fez uma crítica furiosa à assistência internacional. "Querem dar o dinheiro de nossos impostos para outros países e que se dane o que acontece aqui dentro", disse Rogers.

A escassez generalizada de recursos deu origem a um fenômeno batizado de "efeito CNN" pelo jornal americano The Washington Post. Na disputa pelos recursos disponíveis, diz o diário, levam vantagem as regiões cujas tragédias são acompanhadas pelas câmaras da emissora de televisão e chamam a atenção da opinião pública. Países como Angola, Libéria e Congo vivem situações de guerra civil que se arrastam há anos – e justamente por durar tanto tempo não despertam a curiosidade da imprensa internacional. São guerras sangrentas, que já ceifaram milhões de vidas e, tudo indica, continuarão levando a morte e a fome à população civil. A ajuda dada a cada um desses países durante um ano é menos do que a província de Kosovo recebia em um mês no auge da crise nos Bálcãs. "A televisão pode atrair mais atenção para a necessidade de um ou de outro país", diz Heather Hill, porta-voz do fundo das Nações Unidas contra a fome. "Mas a presença das câmaras não faz aparecer o dinheiro."

Além do fim da Guerra Fria, há outra explicação, mais palpável, para a redução da ajuda humanitária destinada aos países pobres: a dúvida quanto ao destino dado aos recursos. Uma das principais preocupações dos organismos que administram a ajuda internacional é ter a certeza de que o dinheiro oferecido chegará a seu destino final, ou seja, a população necessitada. O jornalista americano P.J. O'Rourke passou anos viajando por países ricos e pobres na tentativa de descobrir por que algumas nações dão certo enquanto outras não conseguem sair do estado de miséria em que sempre viveram. A pesquisa resultou num livro chamado Eat the Rich (Coma o Rico), ainda sem edição para o português, no qual o autor afirma que a corrupção e a ausência de democracia são os maiores obstáculos para o sucesso desses programas de ajuda. Um dos casos analisados por O'Rourke é a Tanzânia, no sudeste da África, destroçada por décadas de um governo socialista absolutamente incompetente. Desde a década de 60, a Tanzânia recebeu mais de 20 bilhões de dólares em ajuda humanitária, cifra superior ao PIB local. Mesmo assim, o país continua paupérrimo e atrasado. A renda per capita, de 128 dólares por ano, é hoje igual à do Brasil no início do século XIX.

A Libéria, um país do tamanho de Pernambuco para onde se transferiram milhares de ex-escravos americanos no século XIX, é outro caso em que a assistência internacional não tem funcionado. Só os Estados Unidos despejaram ali, entre 1990 e 1996, mais de 400 milhões de dólares. Pouco adiantou. No auge da guerra que dilacerou o país nos anos 90, morriam setenta pessoas por dia, a maior parte de fome ou por falta de assistência médica. Os recursos simplesmente não chegavam aonde eram necessários: os campos de refugiados. Em vez disso, eram desviados para os grupos armados que há anos disputam a hegemonia.

O problema, é claro, preocupa as lideranças mais sensatas do mundo. Há alguns anos, a OCDE estabeleceu o ano de 2015 como prazo para que metade da pobreza do mundo fosse erradicada. Em 1996, os países membros firmaram um compromisso: cada um deles passaria a gastar com programas de ajuda humanitária pelo menos 0,7% do PIB – promessa assumida também pelo G-7, o grupo das nações mais ricas. Dois anos depois, apenas quatro países – Dinamarca, Noruega, Holanda e Suécia – cumpriam o acordo. Quinze países da OCDE, inclusive os membros do G-7 (com exceção da França), não gastavam nem a metade do prometido. A necessidade desse tipo de ajuda aos povos mais pobres do mundo é cada vez mais urgente. Mas os países ricos querem cada vez mais garantias de que os recursos chegarão a seu destino. Sem isso não tem ajuda.