Edição 1 631 -12/1/2000

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Noruega

Encrenca gelada

Índio brasileiro é preso na Noruega acusado
de bater na mulher e seqüestrar o vizinho

Theo Solnik, de Oslo

Nos últimos meses, o índio brasileiro Daniel Cohkaxa Kanela passou a maior parte do tempo trancafiado numa cela de presídio na pequena e gélida cidade de Kristiansand, extremo sul da Noruega. A polícia norueguesa suspeita que em oito anos vivendo no país Kanela invadiu terras, consumiu drogas, espancou a própria mulher, ameaçou um vizinho de morte e seqüestrou a mão armada. Em sua defesa, ele diz que as terras eram emprestadas, que só deu uns cascudos na mulher porque ela o proibira de ver a filha e que nunca seqüestrou nem pretendeu matar ninguém. "O índio brasileiro está sendo vítima de um complô racista", afirma o advogado norueguês Torgeir Helle, que o defendeu no início do processo e se tornou seu amigo. "Nunca vi um norueguês ficar tanto tempo preso sem ser julgado."

O inferno gelado do índio brasileiro começou com jeito de conto de fadas. Em 1992, Kanela vivia num vilarejo na fronteira do Brasil com a Colômbia quando conheceu Anne Siri Horverak, uma turista norueguesa em visita à região. Foi amor à primeira vista. Casaram-se e se mudaram para uma fazenda abandonada da família de Anne no sul da Noruega. Juntos, iniciaram uma criação de ovelhas. Até 1995, tudo correu bem. O casal teve uma filha e recuperou a fazenda. Os primeiros atritos aconteceram por causa dos limites das terras. Um vizinho reclamou que as ovelhas do casal viviam num pasto que não lhe pertencia. As discussões ficaram acaloradas até que o vizinho acusou o índio de tê-lo atacado com um ancinho. O caso foi parar na Justiça e Kanela foi absolvido. Como a questão da terra não foi resolvida, as brigas continuaram. Pouco a pouco, toda a comunidade voltou-se contra o índio. Do início de 1998 até a semana passada, ele separou-se da mulher, foi preso três vezes e passou quase doze meses na cadeia. Na primeira vez, por suspeita de ter seqüestrado a mão armada o vizinho. Na segunda, por ter sido flagrado fumando um cigarro de haxixe. Na terceira, por ter ido visitar a mulher e a filha armado com facas quando estava proibido pela Justiça de se aproximar da família. Desesperado, numa das temporadas na cadeia, tentou se matar usando uma faca de cozinha surrupiada do refeitório.

Antes mesmo de mudar-se para a Noruega, Kanela já mostrara talento para meter-se em confusão. Nascido numa tribo Kanela, em Barra do Corda, no Maranhão, foi trocado por 25 vacas e adotado por uma família inglesa aos 8 anos de idade. Aos 20, conheceu uma alemã com o dobro de sua idade. Casaram-se em Gibraltar e foram morar na Espanha. Alguns anos depois, foi expulso do país acusado de ter espancado a mulher. Foi quando voltou ao Brasil, conheceu Anne Siri e mudou-se para a Noruega. Diz já ter visitado 38 países. Quando fala, mistura português com sotaque de espanhol e frases em norueguês. O julgamento está marcado para março. Seu maior temor é ser deportado para o Brasil e ficar proibido de voltar à Noruega. "Tudo o que eu quero é rever minha filha. Se não, não me interessa mais viver", diz.