Rússia
Na mão do desconhecido
Com uma guerra no quintal e a economia
aos pedaços, a Rússia arrisca a sorte
com um presidente sem passado
Rogério Simões
Desde que a União Soviética virou pó e a Rússia pisou no
trilho incerto da transição para o capitalismo e para a
democracia, os pensamentos do mundo sempre estiveram voltados
para o dia em que o poder trocaria de mãos. De Boris Ieltsin
se conheciam as bebedeiras, as misteriosas internações em
sanatórios, o troca-troca de ministros e a crônica incapacidade
de pôr ordem na corrupção e na economia. Do novo presidente,
Vladimir Putin, sabe-se muito pouco. Quatro meses atrás,
sua indicação para primeiro-ministro foi surpreendente como
o coelho que surge da cartola do mágico. Como imaginar que
Ieltsin se preparava para renunciar na virada do ano e lhe
entregar de bandeja o comando de um país montado sobre um
arsenal nuclear suficiente para pulverizar a civilização
da face do planeta? A Rússia realmente precisa de um líder
forte, que faça cumprir a lei, reconstrua as instituições
e varra a corrupção. Será Putin?
Ele literalmente saiu do frio há seis anos. Um espião de
carreira, Putin deixou a KGB (ou FSB, como se chama atualmente)
e se tornou a eminência parda do prefeito de São Petersburgo,
o liberal Anatoli Sobchak. Como agente do serviço secreto
soviético, tinha trabalhado durante quinze anos na Alemanha
Oriental, o ambiente mais sinistro da Guerra Fria. Dominado
por essa herança, o novo presidente fala pouco, economiza
sorrisos e, astuto, tem fama de dizer exatamente o que seu
interlocutor deseja ouvir. Desde que se tornou primeiro-ministro,
e especialmente desde que foi nomeado presidente, tem feito
juras de amor à democracia e às reformas econômicas. É a
música que encanta os governos dos países ricos. Para consumo
interno, mostrou uma face mais dura. Foi a guerra na Chechênia,
para punir os separatistas que explodiram prédios na Rússia
(300 mortos) e tentavam levar uma segunda província à sedição.
E, ao contrário da surra que levou na primeira fase da guerra,
entre 1994 e 1996, desta vez o Exército russo está levando
a melhor. Os russos estão encantados com seu implacável
exterminador de terroristas chechenos.
O apoio se traduziu numa forte bancada parlamentar, eleita
em dezembro. As eleições para presidente estão marcadas
para 26 de março e, pelo que se vê até agora, as chances
de Putin ser eleito são espetaculares. Somando tudo o que
se sabe de sua carreira como político e como espião, o que
se tem é um sujeito inteiramente desconhecido. "Putin
é um produto da mídia, comparável a Fernando Collor",
disse a VEJA o analista político russo Anatoli Sosnovski.
"Num dia não era ninguém, no outro era o salvador da
pátria." Para um país cansado da saúde debilitada de
Ieltsin, o vigor físico de Putin caiu como uma luva. Durante
a campanha para o Parlamento, foi intensamente fotografado
com sua faixa preta de judô. Com 47 anos, ele é jovem o
bastante para simbolizar a remoção da velha-guarda e uma
nova disposição para combater a corrupção. Salta aos olhos
que só poderá fazer isso se estiver disposto a cuspir no
prato em que comeu. Até agora os sinais são de fidelidade
canina aos compromissos assumidos com as pessoas que lhe
abriram as portas do poder sobretudo com Ieltsin, que
renunciou a seu favor no último dia de 1999. O primeiro
ato de governo foi anistiar seu antecessor. Não está claro
se o perdão inclui sua filha Tatiana Diachenko, que as más
línguas dizem ter acumulado 200 milhões de dólares em bancos
no exterior. É, em parte, pela avidez com que a primeira-filha
e amigos pilharam o patrimônio público que a revista inglesa
The Economist chama a Rússia de "a maior cleptocracia
da História". Aliviado do peso do poder, Ieltsin reapareceu
transvestido de turista na Terra Santa, na semana passada.
Sedento de champanhe, mostrou ter guardado saúde para desfrutar
uma aposentadoria confortável.
A maior obra de Putin é a guerra na Chechênia, que tanto
enche os russos de orgulho. Nem mesmo as dificuldades para
dominar a capital, Grozni, que se tornaram evidentes na
semana passada, acabaram com o entusiasmo da população.
Na sexta-feira, o Exército anunciou a suspensão do avanço
sobre a cidade, oficialmente para poupar a população civil,
depois de ter perdido 84 homens em dez dias. O novo presidente
sabe que corre contra o tempo nessa questão crucial. Faltam
dois meses para as eleições e, até agora, a guerra é absolutamente
tudo o que ele tem. Confirmado no cargo, ele terá pela frente
desafios enormes. Ieltsin, o único chefe que a Rússia pós-soviética
viu até agora, deu importantes passos rumo à economia de
mercado. De forma atabalhoada, privatizou em três anos 70%
da economia. Não funcionou muito bem porque os bens do Estado
foram acabar nas mãos de uma patota de burocratas comunistas
convertidos da noite para o dia em novos-ricos. A economia
carece de competitividade e de uma gerência moderna. No
campo, a privatização ainda está por ocorrer. A maioria
dos russos está mais pobre e, exceto pelo poderio de seu
arsenal nuclear, a Rússia está cada dia mais parecida com
um país do Terceiro Mundo (veja quadro abaixo). Putin
vai terminar o serviço? "Todo mundo sabe quais decisões
precisam ser tomadas. Ele parece ser um homem de decisões.
Se vai tomar as decisões certas é coisa que ainda vamos
ver", acautela-se o economista Harry G. Broadman, do
Banco Mundial. A bola agora está com Putin. Apoio político
e ambição para vencer ele tem de sobra.