Edição 1 631 -12/1/2000

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Rússia

Na mão do desconhecido

Com uma guerra no quintal e a economia
aos pedaços, a Rússia arrisca a sorte
com um presidente sem passado

Rogério Simões

Desde que a União Soviética virou pó e a Rússia pisou no trilho incerto da transição para o capitalismo e para a democracia, os pensamentos do mundo sempre estiveram voltados para o dia em que o poder trocaria de mãos. De Boris Ieltsin se conheciam as bebedeiras, as misteriosas internações em sanatórios, o troca-troca de ministros e a crônica incapacidade de pôr ordem na corrupção e na economia. Do novo presidente, Vladimir Putin, sabe-se muito pouco. Quatro meses atrás, sua indicação para primeiro-ministro foi surpreendente como o coelho que surge da cartola do mágico. Como imaginar que Ieltsin se preparava para renunciar na virada do ano e lhe entregar de bandeja o comando de um país montado sobre um arsenal nuclear suficiente para pulverizar a civilização da face do planeta? A Rússia realmente precisa de um líder forte, que faça cumprir a lei, reconstrua as instituições e varra a corrupção. Será Putin?

Ele literalmente saiu do frio há seis anos. Um espião de carreira, Putin deixou a KGB (ou FSB, como se chama atualmente) e se tornou a eminência parda do prefeito de São Petersburgo, o liberal Anatoli Sobchak. Como agente do serviço secreto soviético, tinha trabalhado durante quinze anos na Alemanha Oriental, o ambiente mais sinistro da Guerra Fria. Dominado por essa herança, o novo presidente fala pouco, economiza sorrisos e, astuto, tem fama de dizer exatamente o que seu interlocutor deseja ouvir. Desde que se tornou primeiro-ministro, e especialmente desde que foi nomeado presidente, tem feito juras de amor à democracia e às reformas econômicas. É a música que encanta os governos dos países ricos. Para consumo interno, mostrou uma face mais dura. Foi a guerra na Chechênia, para punir os separatistas que explodiram prédios na Rússia (300 mortos) e tentavam levar uma segunda província à sedição. E, ao contrário da surra que levou na primeira fase da guerra, entre 1994 e 1996, desta vez o Exército russo está levando a melhor. Os russos estão encantados com seu implacável exterminador de terroristas chechenos.

O apoio se traduziu numa forte bancada parlamentar, eleita em dezembro. As eleições para presidente estão marcadas para 26 de março e, pelo que se vê até agora, as chances de Putin ser eleito são espetaculares. Somando tudo o que se sabe de sua carreira como político e como espião, o que se tem é um sujeito inteiramente desconhecido. "Putin é um produto da mídia, comparável a Fernando Collor", disse a VEJA o analista político russo Anatoli Sosnovski. "Num dia não era ninguém, no outro era o salvador da pátria." Para um país cansado da saúde debilitada de Ieltsin, o vigor físico de Putin caiu como uma luva. Durante a campanha para o Parlamento, foi intensamente fotografado com sua faixa preta de judô. Com 47 anos, ele é jovem o bastante para simbolizar a remoção da velha-guarda e uma nova disposição para combater a corrupção. Salta aos olhos que só poderá fazer isso se estiver disposto a cuspir no prato em que comeu. Até agora os sinais são de fidelidade canina aos compromissos assumidos com as pessoas que lhe abriram as portas do poder – sobretudo com Ieltsin, que renunciou a seu favor no último dia de 1999. O primeiro ato de governo foi anistiar seu antecessor. Não está claro se o perdão inclui sua filha Tatiana Diachenko, que as más línguas dizem ter acumulado 200 milhões de dólares em bancos no exterior. É, em parte, pela avidez com que a primeira-filha e amigos pilharam o patrimônio público que a revista inglesa The Economist chama a Rússia de "a maior cleptocracia da História". Aliviado do peso do poder, Ieltsin reapareceu transvestido de turista na Terra Santa, na semana passada. Sedento de champanhe, mostrou ter guardado saúde para desfrutar uma aposentadoria confortável.

A maior obra de Putin é a guerra na Chechênia, que tanto enche os russos de orgulho. Nem mesmo as dificuldades para dominar a capital, Grozni, que se tornaram evidentes na semana passada, acabaram com o entusiasmo da população. Na sexta-feira, o Exército anunciou a suspensão do avanço sobre a cidade, oficialmente para poupar a população civil, depois de ter perdido 84 homens em dez dias. O novo presidente sabe que corre contra o tempo nessa questão crucial. Faltam dois meses para as eleições e, até agora, a guerra é absolutamente tudo o que ele tem. Confirmado no cargo, ele terá pela frente desafios enormes. Ieltsin, o único chefe que a Rússia pós-soviética viu até agora, deu importantes passos rumo à economia de mercado. De forma atabalhoada, privatizou em três anos 70% da economia. Não funcionou muito bem porque os bens do Estado foram acabar nas mãos de uma patota de burocratas comunistas convertidos da noite para o dia em novos-ricos. A economia carece de competitividade e de uma gerência moderna. No campo, a privatização ainda está por ocorrer. A maioria dos russos está mais pobre e, exceto pelo poderio de seu arsenal nuclear, a Rússia está cada dia mais parecida com um país do Terceiro Mundo (veja quadro abaixo). Putin vai terminar o serviço? "Todo mundo sabe quais decisões precisam ser tomadas. Ele parece ser um homem de decisões. Se vai tomar as decisões certas é coisa que ainda vamos ver", acautela-se o economista Harry G. Broadman, do Banco Mundial. A bola agora está com Putin. Apoio político e ambição para vencer ele tem de sobra.