Edição 1 631 -12/1/2000

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Especial

Mortos não falam?

Com a morte do general Figueiredo, vêm à tona
testemunhos inéditos do ex-presidente sobre
ocorrências dos governos militares e sua opinião,
sempre abrasiva, muitas vezes desrespeitosa,
a respeito de personagens da vida nacional

 

Orlando Brito

Figueiredo: conversas registradas em vídeo e depoimentos
informais demonstram que ele falou, e muito

O ex-presidente João Baptista Figueiredo impôs-se um silêncio tumular desde que deixou o poder, quinze anos atrás. Exceto por alguns esparsos e monossilábicos muxoxos, nunca mais se ouviu nenhuma análise de Figueiredo sobre a vida nacional. Nada de avaliações sobre os episódios que marcaram seus seis anos de governo. Tampouco foram registradas opiniões a respeito dos principais personagens da política brasileira. Com sua morte, na véspera do Natal, o Brasil pôde finalmente conhecer o que pensava o ex-presidente sobre todos esses assuntos. Na semana passada, a Rede Globo apresentou um vídeo gravado em setembro de 1987, durante um churrasco na cidade de Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. A fita contém declarações fortes que estão publicadas em resumo nas duas páginas seguintes desta reportagem. Mas não são as únicas manifestações do velho general que vêm a público neste momento. Na reportagem seguinte, VEJA reproduz com exclusividade o mais abrangente e detalhado depoimento dado pelo general Figueiredo, o fardado que por mais tempo comandou o Brasil durante o ciclo de 21 anos da ditadura militar.

O que está sendo publicado agora resultou de 25 longas conversas entre o ex-presidente e o repórter fotográfico Orlando Brito, jornalista com mais de 35 anos de dedicação à tarefa de registrar as cenas do poder, dezesseis deles em VEJA. Brito conheceu Figueiredo em 1967, em Brasília. Acompanhou sua carreira e o perdeu de vista quando o general saiu da Presidência e se refugiou, como aposentado, num prédio confortável da Praia do Pepino, no Rio de Janeiro. Voltou a encontrá-lo por acaso numa manhã ensolarada, no dia 13 de maio de 1989, caminhando pelo calçadão. Nessa época, o jornalista era editor de fotografia do Jornal do Brasil. Recepcionado inicialmente com frieza pelo ex-presidente, Brito acabou por se tornar seu companheiro habitual de caminhadas matinais. Entre maio de 1989 e dezembro de 1991, sentaram-se assiduamente em bancos da orla para os depoimentos que publicamos nesta edição. As conversas duravam de quarenta minutos a duas horas. À medida que foram ocorrendo, Brito se deu conta do valor histórico daqueles relatos e passou a anotá-los meticulosamente. Figueiredo deduzia que o jornalista estava registrando aquilo que ele falava e pedia cuidado. "Veja lá o que você vai fazer com isso", alertava o general.

O tom das conversas era informal. Muitas vezes, escorregava para a rudeza, um traço característico do ex-presidente. Figueiredo, como o Brasil descobriu durante seu governo, era um homem capaz de soltar grosserias verbais inimagináveis numa figura que, como ele, ocupou o mais alto posto da República. Na Presidência, o mesmo personagem que se empenhava valentemente pela abertura política era capaz de dizer que preferia cheiro de cavalo ao de povo. Ao sair, pediu aos brasileiros que o esquecessem, numa das mais melancólicas declarações já registradas em situação semelhante. Esse é o Figueiredo que foi capturado por Orlando Brito. Tem o traço positivo da sinceridade espontânea, do homem que fala sem rodeios aquilo que pensa e, não se pode negar, de uma pessoa dotada da coragem de insultar os semelhantes em aspectos constrangedores. Nada disso o exime da contrapartida negativa. Sempre faltou a Figueiredo a compostura verbal de um presidente. Como se viu na fita de vídeo divulgada no programa Fantástico, da Globo, e como se verá nos depoimentos da reportagem seguinte, o ex-presidente era um homem de absoluta incorreção política. Cometia deselegâncias e, muito pior, injustiças a respeito das pessoas que eram objeto de seus comentários. Trata-se de um depoimento valioso, não apenas pelos bastidores que abre em relação a episódios marcantes do período em que Figueiredo convivia com o poder ou já o exercia mas também como registro do estilo, das opiniões e dos preconceitos do general.

Algumas histórias são assombrosas, como a que Brito obteve de Figueiredo sobre a escolha do político que seria seu vice, Aureliano Chaves. Conforme o general contou no depoimento ao jornalista, Aureliano virou o segundo homem do governo por acidente. Depois de convidar Figueiredo para suceder a ele, o general Ernesto Geisel quis saber a opinião do futuro presidente sobre a escolha de um vice. (Leia a reprodução dos principais trechos). Quando Geisel perguntou quem seria seu companheiro de chapa, Figueiredo ia começar a enumerar os que não escolheria:
– Esse governador mineiro, seu amigo, Aureliano Ch... – e foi interrompido.
– Ótimo, então não é bom comunicar logo a ele? – emendou Geisel.
Segundo Figueiredo, Geisel não esperou que ele terminasse o que ia dizer-lhe. E ele estava pronto para dizer o seguinte: "Esse governador mineiro, seu amigo, Aureliano Chaves, nããão!", narrou Figueiredo. Calou-se quando viu estampado no rosto de Geisel o entusiasmo diante da citação do nome de Aureliano Chaves. Assim, pode-se dizer que a ascensão de Aureliano resultou apenas de um instante de esperteza de Geisel e de constrangimento de Figueiredo, se a história não foi um pouco melhorada pelo general com o intuito de desmerecer um homem que odiava, Aureliano.

Na fita gravada no churrasco de Paraíba do Sul, flagra-se uma provável distorção da verdade na versão que Figueiredo dá aos ouvintes quando se refere à demissão do general Ednardo D'Ávila Mello, comandante do II Exército no governo Geisel. Ele classifica como injusta a exoneração de Ednardo, cujos motivos foram a morte do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho nas dependências do Exército. Instado por Geisel a apurar com rigor o caso Riocentro, no qual militares contrários à abertura planejaram jogar bombas num pavilhão onde acontecia um show de música, Figueiredo teria respondido: "Não vou inventar um responsável, como o senhor fez com o general D'Ávila Mello. Essa injustiça eu não vou fazer" (veja quadro).

O diálogo provavelmente está correto na essência e incorreto nos detalhes e no tom. É improvável que Figueiredo tivesse afrontado o seco e altivo general Ernesto Geisel, seu superior, acusando-o tão diretamente de ter cometido uma injustiça. "Ele nunca ousaria dizer isso a Geisel", afirma o senador Antonio Carlos Magalhães. Mesmo que o diálogo tenha ocorrido exatamente conforme a versão de Figueiredo, fica patente que ele não tinha disposição, como Geisel teve, para enfrentar as vísceras podres da linha-dura militar que estava metida com a tortura e o terrorismo. Essa fita mostrada pela Globo em primeira mão foi feita durante uma festa na casa do empresário e atual prefeito de Paraíba do Sul, Rogério Onofre de Oliveira, responsável pela gravação e por sua divulgação. Na fita, Figueiredo assume pela primeira vez que foi informado sobre o envolvimento de militares na explosão do Riocentro logo depois da detonação da bomba.

Trechos da fita gravada em 1987

RIOCENTRO

"Eu estava na Granja do Torto num sábado de manhã quando recebi o telefonema do Heitor de Aquino. Disse para ele: 'Até que enfim os comunistas fizeram uma bobagem'. Eu crente que os comunistas tinham posto a bomba no carro. Meia hora depois telefonaram. Não era o Heitor: 'Presidente, há indícios de que foi gente do nosso lado!' Aí chamei o Walter Pires e mandei abrir inquérito. O primeiro general que chamamos não quis ter a responsabilidade do inquérito. Se acovardou. Aí chamamos o coronel Job Lorena. Disse-lhe: 'O que você apurar traga para mim'. Até hoje não sei qual é a verdade".

GEISEL

"Ele sentou ao meu lado e disse:
– Figueiredo, tem de apurar o negócio do Riocentro!
– Não tem, não! Primeiro que não sou a Justiça. Eu sou Executivo. Quem vai apurar é a Justiça!
– Mas tem de punir!
– Quem vai punir é a Justiça também. Eu não tenho nada a fazer que não seja dar força à Justiça para ter liberdade de apurar e punir os responsáveis.
– Mas tem de haver um responsável!
– Mas eu não vou inventar um responsável, como o senhor fez com o general D'Ávila Mello!

D'Ávila Mello estava no comando do II Exército em São Paulo, mataram ou morreu um camarada (jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975), sei lá, nas dependências do Dops, e demitiram o general. Achei uma barbaridade. Porque duvido que o D'Ávila Mello estivesse metido naquela história. E eu disse: 'Essa injustiça não vou fazer. Não vou procurar um inocente para acusar. Ou provo que o sujeito é culpado e puno, ou então não é'."

BRIZOLA

"É o maior líder do país. O povão gosta de ouvir a palavra do Brizola. Mas ele não faz aquilo que diz. No dia em que chegar à Presidência será o maior ditador que o país já viu, porque ele é um caudilho mesmo. Esteve na minha casa duas vezes. Perguntei-lhe:
– O senhor é socialista?
– Sou.
– O senhor vem a minha casa e acaba de me confessar que acaba de vender sua estância em São Borja e comprar outra no Uruguai. O senhor não pode ser socialista no Uruguai. Tem de ser no Brasil. Por isso o senhor vendeu a sua estância no Brasil, para poder defender a bandeira da reforma agrária. Eu quero ver, se houver um socialismo no Uruguai, o que o senhor vai fazer."

ACM

"Se houvesse um sistema mundial para medir mau-caráter, ele seria a unidade do sistema. Ele é mau, é mau."

MOREIRA FRANCO

"Não quero falar dele porque, se tivesse de falar, eu diria que é uma besta. Safado! Safado! Ordinário! Minha mulher foi para o comício, botou a camisa dele porque ele pediu. Fomos para o comício e recebemos vaias na Quinta da Boa Vista. Foi a primeira vez que a Dulce participou de um comício e o Moreira disse: 'Vocês foram porque quiseram, eu não pedi'. O Moreira, depois de derrotado, veio pedir-me um lugar de ministro".

ROBERTO MARINHO

"Um horror, um horror (endossando comentário de um convidado sobre o poderio das Organizações Globo). É a melhor rede que existe no Brasil. Ele é dono da opinião pública do país. Faz o ministro das Comunicações e muda quem ele quiser. O dia em que o Roberto Marinho quiser se virar contra o governo, o governo cai. Ele não chegou a influenciar-me porque brigou comigo. Não lhe dei uma concessão de rádio e de televisão e ainda lhe disse: Não vou dar porque já tem demais! Criei três redes de TV: a Manchete, a do Silvio Santos e a Bandeirantes. Aí o Roberto Marinho ficou com raiva de mim porque antes era só ele."

TANCREDO NEVES

"Esse não era de nada. Nunca realizou coisa nenhuma. Só fez politicagem em Minas. Nunca faria nada. Disse para o Tancredo que ele estava fazendo um mingau para vencer a eleição indireta, com a direita e com a esquerda. Ele não ia conseguir governar porque, com aquele ministério..."

JÂNIO QUADROS

"Ele é um louco. Nasceu louco. É uma inteligência fora do comum, mas é louco."