Edição 1 631 -12/1/2000

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Se essa rua fosse minha

 

Ilustração: Alê Setti


Agora que renunciou à Presidência da Rússia, Boris Ieltsin pretende passar os poucos anos que lhe restam numa dacha chamada Gorki 9. Depois da queda dos comunistas, uma das primeiras providências dos novos governantes russos foi restaurar nomes de cidades, ruas, praças e centros residenciais, eliminando todos aqueles que recordassem o antigo regime. Os exemplos mais conhecidos são Leningrado (atualmente São Petersburgo) e Stalingrado (Volgogrado). O único nome que parece ter resistido ao expurgo foi o de Máximo Gorki, embora ele representasse, bem mais do que qualquer outro escritor, o aparato literário soviético.

No Brasil, nunca houve um escritor que tivesse recebido tantas homenagens assim. É possível que exista uma praça Machado de Assis em algum lugar, ou uma escola Lima Barreto, ou uma rua Graciliano Ramos, mas não as conheço. Em compensação, conheço um monte de importantes obras públicas que perpetuam o nome dos militares que deram o golpe de 1964, como a Rodovia Castelo Branco, o Elevado Costa e Silva, o município de Presidente Médici. A minha opinião é que deveríamos instituir uma comissão toponomástica que liquidasse de vez com todos os nomes relacionados a esse nosso passado recente. A ditadura brasileira foi incomensuravelmente menos sangrenta do que a soviética, claro. Mas isso não é desculpa, porque tudo no Brasil funciona em escala reduzida, até a repressão.

Aliás, eu não me limitaria a cancelar o nome dos chefes militares. Cancelaria também o nome de todos aqueles que, de uma forma ou de outra, foram beneficiados pelo golpe. Há uma infinidade de ruas, avenidas, bairros, creches, hospitais, usinas hidrelétricas e estádios de futebol que até hoje conservam o nome de velhas glórias do regime: ex-ministros, senadores biônicos, governadores ou prefeitos nomeados. Para não falar dos que, modestamente, decidiram homenagear parentes, como os próprios pais ou avós.

E já que estou na onda do mais extremo revisionismo histórico, acho que seria conveniente suprimir outros nomes, como os de líderes civis e militares que apoiaram o Estado Novo de Getúlio Vargas, ou os de comandantes daquele genocídio que foi a Guerra do Paraguai, ou os de bandeirantes que devastaram o território e escravizaram os índios, ou os de senhores de engenho que estimularam a importação de mão-de-obra negra.

Na verdade, a História brasileira é marcada por tantos personagens infaustos que, eliminando todos eles, sobraria um número insuficiente de nomes para satisfazer as necessidades dos nossos administradores públicos. É nesse ponto que retorna à minha mente Boris Ieltsin e a sua confortável aposentadoria na dacha Gorki 9. Por que não imitar os russos e ter várias construções homônimas espalhadas por uma mesma cidade? Por que um lugar não pode ter a praça Machado de Assis 1, a praça Machado de Assis 2, e assim por diante até a praça Machado de Assis 23? E a escola Lima Barreto 51? E a rua Graciliano Ramos 412? Não é uma boa idéia?