Se essa rua fosse minha
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Ilustração: Alê
Setti

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Agora que renunciou à Presidência da Rússia, Boris Ieltsin
pretende passar os poucos anos que lhe restam numa dacha
chamada Gorki 9. Depois da queda dos comunistas, uma das
primeiras providências dos novos governantes russos foi
restaurar nomes de cidades, ruas, praças e centros residenciais,
eliminando todos aqueles que recordassem o antigo regime.
Os exemplos mais conhecidos são Leningrado (atualmente São
Petersburgo) e Stalingrado (Volgogrado). O único nome que
parece ter resistido ao expurgo foi o de Máximo Gorki, embora
ele representasse, bem mais do que qualquer outro escritor,
o aparato literário soviético.
No Brasil, nunca houve um escritor que tivesse recebido
tantas homenagens assim. É possível que exista uma praça
Machado de Assis em algum lugar, ou uma escola Lima Barreto,
ou uma rua Graciliano Ramos, mas não as conheço. Em compensação,
conheço um monte de importantes obras públicas que perpetuam
o nome dos militares que deram o golpe de 1964, como a Rodovia
Castelo Branco, o Elevado Costa e Silva, o município de
Presidente Médici. A minha opinião é que deveríamos instituir
uma comissão toponomástica que liquidasse de vez com todos
os nomes relacionados a esse nosso passado recente. A ditadura
brasileira foi incomensuravelmente menos sangrenta do que
a soviética, claro. Mas isso não é desculpa, porque tudo
no Brasil funciona em escala reduzida, até a repressão.
Aliás, eu não me limitaria a cancelar o nome dos chefes
militares. Cancelaria também o nome de todos aqueles que,
de uma forma ou de outra, foram beneficiados pelo golpe.
Há uma infinidade de ruas, avenidas, bairros, creches, hospitais,
usinas hidrelétricas e estádios de futebol que até hoje
conservam o nome de velhas glórias do regime: ex-ministros,
senadores biônicos, governadores ou prefeitos nomeados.
Para não falar dos que, modestamente, decidiram homenagear
parentes, como os próprios pais ou avós.
E já que estou na onda do mais extremo revisionismo histórico,
acho que seria conveniente suprimir outros nomes, como os
de líderes civis e militares que apoiaram o Estado Novo
de Getúlio Vargas, ou os de comandantes daquele genocídio
que foi a Guerra do Paraguai, ou os de bandeirantes que
devastaram o território e escravizaram os índios, ou os
de senhores de engenho que estimularam a importação de mão-de-obra
negra.
Na verdade, a História brasileira é marcada por tantos
personagens infaustos que, eliminando todos eles, sobraria
um número insuficiente de nomes para satisfazer as necessidades
dos nossos administradores públicos. É nesse ponto que retorna
à minha mente Boris Ieltsin e a sua confortável aposentadoria
na dacha Gorki 9. Por que não imitar os russos e ter várias
construções homônimas espalhadas por uma mesma cidade? Por
que um lugar não pode ter a praça Machado de Assis 1, a
praça Machado de Assis 2, e assim por diante até a praça
Machado de Assis 23? E a escola Lima Barreto 51? E a rua
Graciliano Ramos 412? Não é uma boa idéia?