Edição 1 631 -12/1/2000

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"De cavalo a burro"

O brigadeiro diz que o Ministério da Defesa
diminuiu os chefes militares e que
sua demissão foi injusta

Sandra Brasil

"Queriam que eu dissesse que homem público tem de ser ladrão?"

Claudio Rossi

O brigadeiro Walter Werner Bräuer, 62 anos, gaúcho, casado, pai de dois filhos, não se conforma com sua demissão do Comando da Aeronáutica. Ele foi afastado do cargo por quebra de hierarquia. Bräuer fez comentários ao trabalho da CPI do Narcotráfico que desagradaram ao seu superior, o ministro da Defesa, Élcio Álvares. Há duas semanas, já na reserva, foi homenageado no Rio de Janeiro num almoço de oficiais de pijama nostálgicos da fase áurea dos militares no poder. A festa teve uma ocorrência grotesca: furioso com o governo, como sempre, o deputado e capitão Jair Bolsonaro, do PPB do Rio, chegou a pedir o fuzilamento do presidente Fernando Henrique. O brigadeiro Bräuer também acha absurda a forma como saiu. Soube de sua demissão pelo rádio. Curiosidade: nunca votou em Fernando Henrique para a Presidência. Seu voto foi para o desconhecido almirante Hernani Fortuna em 1994 e para Ciro Gomes em 1998. Afastado do poder, ele tem alguns projetos, entre os quais aprender a usar o computador. "Minha netinha de 6 anos já sabe e eu não", diz. A seguir, a entrevista.

Veja – O senhor considera uma injustiça sua demissão?
Bräuer – Não houve quebra de hierarquia e muito menos insubordinação nas minhas declarações. Eu não estava me referindo à doutora Solange Resende. Disse apenas que fiquei surpreso com a decisão da CPI de pedir a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dela. Perguntaram-me o que eu faria nessa situação. Disse que não sabia porque nunca havia passado por algo semelhante e falei as célebres frases que me derrubaram: "As pessoas que exercem cargos públicos estão sujeitas a ser atacadas ou elogiadas. Daí por que essas pessoas precisam ter uma vida transparente e uma conduta ilibada". Será que queriam que eu dissesse que todo homem público tem de ser ladrão, narcotraficante ou do crime organizado? Não acho que houve insubordinação.

Veja – O senhor ainda não digeriu sua demissão?
Bräuer – Eu fui mal interpretado. Não quis desafiar ninguém. Fiquei sabendo que estava demitido pelo rádio. Não pode! Como dão uma notícia dessas sem falar comigo? É, no mínimo, falta de ética. O ministro Élcio Álvares me contou que o presidente ficou irritado com as minhas declarações e que não havia saída senão me demitir e também à doutora Solange. Disse a ele que não aceitava isso como motivo para me demitirem. Não é pelo rádio que se demite um comandante de Força. Isso é grave.

Veja – O senhor está dizendo então que o presidente errou na forma de demiti-lo?
Bräuer – Não sei de quem foi... É, quem assina o ato é ele. Não é assim que se tratam pessoas de determinado nível, principalmente porque não cometi nenhum crime. O presidente devia chamar e, olho no olho, demitir o comandante. Isso é o que eu faria se fosse presidente.

Veja – O ministro da Defesa disse à imprensa que o presidente não queria mais voar no Boeing 707 que serve à Presidência, apelidado ironicamente de "Sucatão" por ser velho demais. Por que o senhor defendeu o uso do Sucatão?
Bräuer – Falei aos jornalistas que não havia sido informado de que o presidente não mais voaria no Sucatão e que o avião é bom e ainda tem trinta anos de vida útil. Disse isso depois de ter, minutos antes, ouvido de viva voz do próprio presidente a seguinte frase: "Eu não tenho medo de voar no Sucatão. Eu sei que ele é um bom avião". Dos 750 aviões da Força Aérea, apenas cinqüenta são atuais. Fica difícil comprar um avião novo para o presidente usar apenas em viagens internacionais se o 707 está em boas condições.

Veja – No ano passado, o senhor também teve divergências com o Planalto por ter se oposto ao uso dos jatinhos da Força Aérea pelos ministros que faziam passeios a Fernando de Noronha e a outros lugares. Havia suspeita de que a Aeronáutica vazou a relação das viagens.
Bräuer – Adianta eu dizer que não? Achavam que o ministro da Aeronáutica deveria ter posto um paninho quente em cima desse assunto. Nós só fornecemos essas informações ao Congresso e ao Ministério Público porque eles haviam requisitado. Mas nunca discuti com ninguém no Palácio por causa disso.

Veja – Nem com o ex-ministro da Casa Civil Clóvis Carvalho?
Bräuer – Nem com ele. Aliás, essa história começou com uma notícia sobre o Carnaval dele. Enquanto eu, que era ministro da Aeronáutica, viajei com minha mulher de Corsa de Brasília para São Paulo, o ministro Clóvis encheu o avião de convidados, prancha de surfe e ainda exigiu que a aeronave saísse de Brasília, fosse a São Paulo e de lá para Fernando de Noronha. O uso de um jatinho é vinte vezes mais caro que o transporte por vôo comercial. Eu falei isso ao presidente.

Veja – O que disse o presidente?
Bräuer – Ele disse que era ruim para alguns ministros, como o ministro Pedro Malan (da Fazenda), pegar um avião comercial para não correr o risco de ter um chato sentado a seu lado durante toda a viagem. O Malan mora em Brasília e só usava os aviões a serviço. Sugeri que seria mais conveniente que, quando as viagens não fossem a serviço, os ministros usassem aviação comercial. Cada hora de vôo de um jatinho desses custa 1.600 dólares. Ida e volta a São Paulo, três horas no total, somam 4.800 dólares ou quase 9.000 reais. Pelas empresas comerciais, esse mesmo trajeto custa 500 reais.

Veja – Por que a Aeronáutica resiste tanto à criação da Agência Nacional da Aviação Civil se o Brasil é um dos poucos países que ainda mantêm a aviação civil sob o controle militar?
Bräuer – A aviação civil é um dos pilares da Aeronáutica. Desde a criação do Ministério da Aeronáutica, em 1941, nós cuidamos disso e, modéstia à parte, cuidamos bem. Criar uma agência por criar, por quê?

Veja – E por que não privatizar os aeroportos?
Bräuer – E por que privatizar? Os 600 aeroportos dos Estados Unidos, considerados um dos países mais privativistas do mundo, não são privatizados. Nós temos uma empresa que faz isso bem, a Infraero. Se privatizarmos, corre-se o risco de os aeroportos caírem em mãos de estrangeiros.

Veja – E o que há de mais nisso num mundo globalizado?
Bräuer – Não tem por que trazer estrangeiro. Sou nacionalista. Por que vender para uma estatal estrangeira? Eles só vão querer os aeroportos rentáveis, e nós vamos ficar com os ruins. Dos 67 aeroportos que administramos, apenas sete dão lucro. É esse lucro anual de 200 milhões de reais dos aeroportos superavitários que nós investimos nos outros deficitários.

Veja – Os defensores da criação da agência argumentam que os militares não querem perder a aviação civil por medo de perderem o chamado "passe livre" que lhes permite voar de graça nas empresas aéreas particulares mesmo quando não estão trabalhando.
Bräuer – O passe livre é legal apenas para as viagens a serviço. Se algum militar que cuida da aviação civil pede a uma empresa área passagem para viagem particular, é achaque. Eu nunca pedi.

Veja – O senhor nunca viajou de graça para lazer?
Bräuer – Uma vez, sim. Em novembro de 1995, aceitei um convite para um vôo inaugural da Transbrasil para Nova York. Eu não trabalhava com aviação civil e o convite foi feito para o grupo de amigos que jogava tênis por um de seus integrantes, o comandante Omar Fontana (dono da Transbrasil). Isso não me constrange.

Veja – Por que o senhor é contra a venda de ações da Embraer, que já está privatizada, para empresas francesas? O que a Aeronáutica tem com isso?
Bräuer – Os compradores são grupos estatais franceses poderosos. Eles são do ramo aeronáutico e têm um potencial vinte vezes maior que o da Embraer. O grupo de banqueiros que comprou a Embraer não sabe fazer avião. Agora, 20% das ações ordinárias foram vendidas. Para a Aeronáutica, a Embraer é estratégica. Tememos que o controle da empresa fique em poder dos franceses.

Veja – O que isso tem de mais?
Bräuer – Eles podem até fechar a empresa se entenderem que a Embraer está concorrendo com alguma de suas empresas.

Veja – Há alguma ilegalidade no negócio entre a Embraer e os franceses?
Bräuer – Ilegalidade não, mas nós achamos que o negócio ainda pode ser desfeito e estamos aguardando uma posição do governo sobre isso. As privatizações no país deveriam ser feitas caso a caso. Não deveria ser permitida a presença de grupos estrangeiros. Eu não engulo essa globalização como uma coisa boa. É boa para os países que têm grande poder econômico, como os Estados Unidos. Para nós, não.

Veja – O senhor foi contra a criação do Ministério da Defesa. Por quê?
Bräuer – Nós não precisamos de Ministério da Defesa.

Veja – Como foi para os comandantes militares perder o status de ministro?
Bräuer – Ninguém gosta. Desde o início do governo eu sabia que isso ia acontecer. Nós passamos de cavalo a burro. Deixamos de ser ministros e passamos a ser comandantes. Os salários também foram reduzidos.

Veja – O que o senhor achou das declarações do ex-presidente João Baptista Figueiredo?
Bräuer – Achei de um extremo mau gosto colocar aquilo no ar. Ele falou como se fala numa roda de amigos, tomando uma cervejinha, e o álcool solta um pouco a língua. Também não gostei do que ele disse. Não era maneira de um presidente falar. Ele era preparado, foi sempre primeiro de turma. O que aconteceu com o Figueiredo é que ele ficou um homem diferente após aquela cirurgia de coração. Depois que viu a morte de perto, ele passou a ser um homem irreverente e vivia cada dia como se fosse o último.

Veja – Por que os militares resistem em falar dos vinte anos de ditadura militar?
Bräuer – Nesse ponto nós temos uma grande mágoa. Primeiro, não foi uma ditadura. Ditadura é quando se fecha o Congresso...

Veja – Mas isso aconteceu...
Bräuer – O presidente Geisel fechou durante uns meses, mas depois reabriu. É verdade que o Congresso era mais colaborador. Eu ouvi dizer que houve excessos, morreu Herzog, Fiel (o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho morreram respectivamente em 1975 e 1976, em dependências militares em São Paulo). Agora, colocar o Carlos Lamarca como herói foi provocação. Indenizar a família dele... (indenizada pelo governo em 1996). Um traidor, desertor e ladrão de armas. E as indenizações são só para os guerrilheiros? E os militares que morreram defendendo o governo? As viúvas deles estão aí com um salariozinho deste tamanho. Por que foram ressuscitar o assunto do Riocentro agora?

Veja – Só que o caso Riocentro não foi esclarecido até hoje...
Bräuer – Houve um inquérito que teve início, meio e fim. Pronto, acabou. Se chegou à verdade ou não, não sei. Para que desarquivar isso agora?

Veja – O senhor não acha que a nação tem o direito de saber o que aconteceu?
Bräuer – Na minha opinião, eles querem colocar um general desses que ainda estão aí no banco dos réus. Por quê? Não sei.

Veja – "Eles" quem?
Bräuer – Os civis.

Veja – Como foi a infância de um filho de alemão no Brasil?
Bräuer – Foi difícil. Durante a II Guerra, eu cheguei a passar fome quando tinha 5, 6 anos. Nós fomos muito perseguidos no Brasil. Meu pai foi demitido por ser alemão. Não podíamos falar alemão em casa. Meu pai quase foi preso por isso. O rádio da minha casa foi confiscado pela polícia porque era de ondas curtas e pegava as pregações de Hitler na Alemanha.

Veja – Seu pai ouvia pregações de Hitler pelo rádio?
Bräuer – Meu pai ouvia o radinho e torcia pelo povo dele. Mas ele não pregava o anti-semitismo. Ele ficou magoado com o que aconteceu com ele aqui por causa da guerra e por isso torcia para o lado de lá.

Veja – Qual sua opinião sobre Adolf Hitler?
Bräuer – Hitler foi um líder. Ele tinha uma visão ou uma personalidade um pouco distorcida. Eu não defendo Hitler, mas também não posso atacá-lo. Se ele conseguiu mobilizar uma nação como a Alemanha, ele devia ter seu valor, claro. Era um homem carismático. Mas se superestimou.

Veja – E a ideologia da superioridade da raça pregada por Hitler...
Bräuer – ...Suponho que foi isso que mexeu com a cabeça dos alemães, sabidamente inteligentes e perfeccionistas. Hoje, a partir da unificação das duas Alemanhas, a Alemanha já está na ponta na Europa, mesmo depois de ter sofrido duas guerras, duas derrotas e de ter sido monitorada e humilhada nesse tempo todo.

Veja – O senhor acredita mesmo que exista algo especial nos alemães?
Bräuer – Não sei o que é. Não sei se é genético, mas pode até ser. As características são de pessoas organizadas, disciplinadas, trabalhadoras e com uma cabeça muito boa. A gente diz que os alemães são os portugueses que deram certo. Ambos são muito trabalhadores, só que as coisas que os alemães fazem dão certo e as dos portugueses, nem sempre.

Veja – E o senhor acha que herdou essas características dos alemães?
Bräuer – Sou disciplinado e honesto. Sempre fui primeiro de turma, desde o primário até o generalato. Sempre fui o primeiro a chegar ao trabalho e o último a sair. Creio que o exemplo é a melhor escola de convencimento. Não é dizer "Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço". Meu lema é: faça o que eu faço.