"De cavalo a burro"
O brigadeiro diz que o Ministério da Defesa
diminuiu os chefes militares e que
sua demissão foi injusta
Sandra Brasil
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"Queriam que eu dissesse que
homem público tem de ser ladrão?"
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Claudio Rossi

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O brigadeiro Walter Werner Bräuer, 62 anos, gaúcho, casado,
pai de dois filhos, não se conforma com sua demissão do
Comando da Aeronáutica. Ele foi afastado do cargo por quebra
de hierarquia. Bräuer fez comentários ao trabalho da CPI
do Narcotráfico que desagradaram ao seu superior, o ministro
da Defesa, Élcio Álvares. Há duas semanas, já na reserva,
foi homenageado no Rio de Janeiro num almoço de oficiais
de pijama nostálgicos da fase áurea dos militares no poder.
A festa teve uma ocorrência grotesca: furioso com o governo,
como sempre, o deputado e capitão Jair Bolsonaro, do PPB
do Rio, chegou a pedir o fuzilamento do presidente Fernando
Henrique. O brigadeiro Bräuer também acha absurda a forma
como saiu. Soube de sua demissão pelo rádio. Curiosidade:
nunca votou em Fernando Henrique para a Presidência. Seu
voto foi para o desconhecido almirante Hernani Fortuna em
1994 e para Ciro Gomes em 1998. Afastado do poder, ele tem
alguns projetos, entre os quais aprender a usar o computador.
"Minha netinha de 6 anos já sabe e eu não", diz.
A seguir, a entrevista.
Veja O senhor considera uma injustiça sua demissão?
Bräuer Não houve quebra de hierarquia
e muito menos insubordinação nas minhas declarações. Eu
não estava me referindo à doutora Solange Resende. Disse
apenas que fiquei surpreso com a decisão da CPI de pedir
a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dela. Perguntaram-me
o que eu faria nessa situação. Disse que não sabia porque
nunca havia passado por algo semelhante e falei as célebres
frases que me derrubaram: "As pessoas que exercem cargos
públicos estão sujeitas a ser atacadas ou elogiadas. Daí
por que essas pessoas precisam ter uma vida transparente
e uma conduta ilibada". Será que queriam que eu dissesse
que todo homem público tem de ser ladrão, narcotraficante
ou do crime organizado? Não acho que houve insubordinação.
Veja O senhor ainda não digeriu sua demissão?
Bräuer
Eu fui mal interpretado. Não quis desafiar ninguém.
Fiquei sabendo que estava demitido pelo rádio. Não pode!
Como dão uma notícia dessas sem falar comigo? É, no mínimo,
falta de ética. O ministro Élcio Álvares me contou que o
presidente ficou irritado com as minhas declarações e que
não havia saída senão me demitir e também à doutora Solange.
Disse a ele que não aceitava isso como motivo para me demitirem.
Não é pelo rádio que se demite um comandante de Força. Isso
é grave.
Veja O senhor está dizendo então que o presidente
errou na forma de demiti-lo?
Bräuer Não sei
de quem foi... É, quem assina o ato é ele. Não é assim que
se tratam pessoas de determinado nível, principalmente porque
não cometi nenhum crime. O presidente devia chamar e, olho
no olho, demitir o comandante. Isso é o que eu faria se
fosse presidente.
Veja O ministro da Defesa disse à imprensa que o
presidente não queria mais voar no Boeing 707 que serve
à Presidência, apelidado ironicamente de "Sucatão"
por ser velho demais. Por que o senhor defendeu o uso do
Sucatão?
Bräuer Falei aos jornalistas que
não havia sido informado de que o presidente não mais voaria
no Sucatão e que o avião é bom e ainda tem trinta anos de
vida útil. Disse isso depois de ter, minutos antes, ouvido
de viva voz do próprio presidente a seguinte frase: "Eu
não tenho medo de voar no Sucatão. Eu sei que ele é um bom
avião". Dos 750 aviões da Força Aérea, apenas cinqüenta
são atuais. Fica difícil comprar um avião novo para o presidente
usar apenas em viagens internacionais se o 707 está em boas
condições.
Veja No ano passado, o senhor também teve divergências
com o Planalto por ter se oposto ao uso dos jatinhos da
Força Aérea pelos ministros que faziam passeios a Fernando
de Noronha e a outros lugares. Havia suspeita de que a Aeronáutica
vazou a relação das viagens.
Bräuer Adianta
eu dizer que não? Achavam que o ministro da Aeronáutica
deveria ter posto um paninho quente em cima desse assunto.
Nós só fornecemos essas informações ao Congresso e ao Ministério
Público porque eles haviam requisitado. Mas nunca discuti
com ninguém no Palácio por causa disso.
Veja Nem com o ex-ministro da Casa Civil Clóvis Carvalho?
Bräuer
Nem com ele. Aliás, essa história começou com uma
notícia sobre o Carnaval dele. Enquanto eu, que era ministro
da Aeronáutica, viajei com minha mulher de Corsa de Brasília
para São Paulo, o ministro Clóvis encheu o avião de convidados,
prancha de surfe e ainda exigiu que a aeronave saísse de
Brasília, fosse a São Paulo e de lá para Fernando de Noronha.
O uso de um jatinho é vinte vezes mais caro que o transporte
por vôo comercial. Eu falei isso ao presidente.
Veja O que disse o presidente?
Bräuer
Ele disse que era ruim para alguns ministros, como o ministro
Pedro Malan (da Fazenda), pegar um avião comercial
para não correr o risco de ter um chato sentado a seu lado
durante toda a viagem. O Malan mora em Brasília e só usava
os aviões a serviço. Sugeri que seria mais conveniente que,
quando as viagens não fossem a serviço, os ministros usassem
aviação comercial. Cada hora de vôo de um jatinho desses
custa 1.600 dólares. Ida e volta a São Paulo, três horas no total,
somam 4.800 dólares ou quase
9.000 reais. Pelas empresas
comerciais, esse mesmo trajeto custa 500 reais.
Veja Por que a Aeronáutica resiste tanto à criação
da Agência Nacional da Aviação Civil se o Brasil é um dos
poucos países que ainda mantêm a aviação civil sob o controle
militar?
Bräuer A aviação civil é um dos pilares
da Aeronáutica. Desde a criação do Ministério da Aeronáutica,
em 1941, nós cuidamos disso e, modéstia à parte, cuidamos
bem. Criar uma agência por criar, por quê?
Veja E por que não privatizar os aeroportos?
Bräuer
E por que privatizar? Os 600 aeroportos dos Estados
Unidos, considerados um dos países mais privativistas do
mundo, não são privatizados. Nós temos uma empresa que faz
isso bem, a Infraero. Se privatizarmos, corre-se o risco
de os aeroportos caírem em mãos de estrangeiros.
Veja E o que há de mais nisso num mundo globalizado?
Bräuer Não tem por que trazer estrangeiro.
Sou nacionalista. Por que vender para uma estatal estrangeira?
Eles só vão querer os aeroportos rentáveis, e nós vamos
ficar com os ruins. Dos 67 aeroportos que administramos,
apenas sete dão lucro. É esse lucro anual de 200 milhões
de reais dos aeroportos superavitários que nós investimos
nos outros deficitários.
Veja Os defensores da criação da agência argumentam
que os militares não querem perder a aviação civil por medo
de perderem o chamado "passe livre" que lhes permite
voar de graça nas empresas aéreas particulares mesmo quando
não estão trabalhando.
Bräuer O passe livre
é legal apenas para as viagens a serviço. Se algum militar
que cuida da aviação civil pede a uma empresa área passagem
para viagem particular, é achaque. Eu nunca pedi.
Veja O senhor nunca viajou de graça para lazer?
Bräuer
Uma vez, sim. Em novembro de 1995, aceitei um convite
para um vôo inaugural da Transbrasil para Nova York. Eu
não trabalhava com aviação civil e o convite foi feito para
o grupo de amigos que jogava tênis por um de seus integrantes,
o comandante Omar Fontana (dono da Transbrasil).
Isso não me constrange.
Veja Por que o senhor é contra a venda de ações da
Embraer, que já está privatizada, para empresas francesas?
O que a Aeronáutica tem com isso?
Bräuer Os
compradores são grupos estatais franceses poderosos. Eles
são do ramo aeronáutico e têm um potencial vinte vezes maior
que o da Embraer. O grupo de banqueiros que comprou a Embraer
não sabe fazer avião. Agora, 20% das ações ordinárias foram
vendidas. Para a Aeronáutica, a Embraer é estratégica. Tememos
que o controle da empresa fique em poder dos franceses.
Veja O que isso tem de mais?
Bräuer Eles
podem até fechar a empresa se entenderem que a Embraer está
concorrendo com alguma de suas empresas.
Veja Há alguma ilegalidade no negócio entre a Embraer
e os franceses?
Bräuer Ilegalidade não, mas
nós achamos que o negócio ainda pode ser desfeito e estamos
aguardando uma posição do governo sobre isso. As privatizações
no país deveriam ser feitas caso a caso. Não deveria ser
permitida a presença de grupos estrangeiros. Eu não engulo
essa globalização como uma coisa boa. É boa para os países
que têm grande poder econômico, como os Estados Unidos.
Para nós, não.
Veja O senhor foi contra a criação do Ministério
da Defesa. Por quê?
Bräuer Nós não precisamos de Ministério da
Defesa.
Veja Como foi para os comandantes militares perder
o status de ministro?
Bräuer Ninguém gosta.
Desde o início do governo eu sabia que isso ia acontecer.
Nós passamos de cavalo a burro. Deixamos de ser ministros
e passamos a ser comandantes. Os salários também foram reduzidos.
Veja O que o senhor achou das declarações do ex-presidente
João Baptista Figueiredo?
Bräuer Achei de
um extremo mau gosto colocar aquilo no ar. Ele falou como
se fala numa roda de amigos, tomando uma cervejinha, e o
álcool solta um pouco a língua. Também não gostei do que
ele disse. Não era maneira de um presidente falar. Ele era
preparado, foi sempre primeiro de turma. O que aconteceu
com o Figueiredo é que ele ficou um homem diferente após
aquela cirurgia de coração. Depois que viu a morte de perto,
ele passou a ser um homem irreverente e vivia cada dia como
se fosse o último.
Veja Por que os militares resistem em falar dos vinte
anos de ditadura militar?
Bräuer Nesse ponto
nós temos uma grande mágoa. Primeiro, não foi uma ditadura.
Ditadura é quando se fecha o Congresso...
Veja Mas isso aconteceu...
Bräuer O
presidente Geisel fechou durante uns meses, mas depois reabriu.
É verdade que o Congresso era mais colaborador. Eu ouvi
dizer que houve excessos, morreu Herzog, Fiel (o jornalista
Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho morreram
respectivamente em 1975 e 1976, em dependências militares
em São Paulo). Agora, colocar o Carlos Lamarca como
herói foi provocação. Indenizar a família dele... (indenizada
pelo governo em 1996). Um traidor, desertor e ladrão
de armas. E as indenizações são só para os guerrilheiros?
E os militares que morreram defendendo o governo? As viúvas
deles estão aí com um salariozinho deste tamanho. Por que
foram ressuscitar o assunto do Riocentro agora?
Veja Só que o caso Riocentro não foi esclarecido
até hoje...
Bräuer Houve um inquérito que teve
início, meio e fim. Pronto, acabou. Se chegou à verdade
ou não, não sei. Para que desarquivar isso agora?
Veja O senhor não acha que a nação tem o direito
de saber o que aconteceu?
Bräuer Na minha
opinião, eles querem colocar um general desses que ainda
estão aí no banco dos réus. Por quê? Não sei.
Veja "Eles" quem?
Bräuer
Os civis.
Veja Como foi a infância de um filho de alemão no
Brasil?
Bräuer Foi difícil. Durante a II Guerra,
eu cheguei a passar fome quando tinha 5, 6 anos. Nós fomos
muito perseguidos no Brasil. Meu pai foi demitido por ser
alemão. Não podíamos falar alemão em casa. Meu pai quase
foi preso por isso. O rádio da minha casa foi confiscado
pela polícia porque era de ondas curtas e pegava as pregações
de Hitler na Alemanha.
Veja Seu pai ouvia pregações de Hitler pelo rádio?
Bräuer
Meu pai ouvia o radinho e torcia pelo povo dele.
Mas ele não pregava o anti-semitismo. Ele ficou magoado
com o que aconteceu com ele aqui por causa da guerra e por
isso torcia para o lado de lá.
Veja Qual sua opinião sobre Adolf Hitler?
Bräuer
Hitler foi um líder. Ele tinha uma visão ou uma personalidade
um pouco distorcida. Eu não defendo Hitler, mas também não
posso atacá-lo. Se ele conseguiu mobilizar uma nação como
a Alemanha, ele devia ter seu valor, claro. Era um homem
carismático. Mas se superestimou.
Veja E a ideologia da superioridade da raça pregada
por Hitler...
Bräuer ...Suponho que foi isso
que mexeu com a cabeça dos alemães, sabidamente inteligentes
e perfeccionistas. Hoje, a partir da unificação das duas
Alemanhas, a Alemanha já está na ponta na Europa, mesmo
depois de ter sofrido duas guerras, duas derrotas e de ter
sido monitorada e humilhada nesse tempo todo.
Veja O senhor acredita mesmo que exista algo especial
nos alemães?
Bräuer Não sei o que é. Não sei
se é genético, mas pode até ser. As características são
de pessoas organizadas, disciplinadas, trabalhadoras e com
uma cabeça muito boa. A gente diz que os alemães são os
portugueses que deram certo. Ambos são muito trabalhadores,
só que as coisas que os alemães fazem dão certo e as dos
portugueses, nem sempre.
Veja E o senhor acha que herdou essas características
dos alemães?
Bräuer Sou disciplinado e honesto. Sempre
fui primeiro de turma, desde o primário até o generalato.
Sempre fui o primeiro a chegar ao trabalho e o último a
sair. Creio que o exemplo é a melhor escola de convencimento.
Não é dizer "Façam o que eu digo, mas não façam o que
eu faço". Meu lema é: faça o que eu faço.