Para ganhar 2000 de virada
Passamos na classificatória,
mas agora começa
o campeonato, e o prêmio é
imperdível
Ilustração Alê
Setti
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A conjuntura neste ano será melhor que a de 1999,
mas, por isto mesmo, enfrentaremos desafios maiores. A inflação
será menor, mas teremos de conquistar a estabilidade
durável. Para isso, nosso regime fiscal, que avançou
quantitativamente, terá de melhorar qualitativamente.
Teremos crescimento, mas, para que ele seja sustentável,
precisará basear-se em produtividade e competitividade
crescentes. O desemprego não muda muito. Contudo,
se formos bem-sucedidos na transição de 2000,
a lógica do emprego vai mudar muito nos próximos
dez anos e precisamos nos preparar para isso. Em 2000, começa
o desafio real e ele tem cara: o máximo de estabilidade
macroeconômica, com dinamismo, e o máximo de
ousadia na educação. Entramos na década
do conhecimento e estamos em desvantagem. Se quisermos ganhar
a década, terá de ser de virada.
O ano passado foi o segundo pior da década. Só
perdeu para o de 1990. Ambos foram traumáticos. Mas
1999 terminou muito melhor. A década fecha de forma
muito mais positiva também. Em dezembro de 1990,
o IPCA acumulava 1.620% e o PIB
recuava 4,17%. Hiperinflação com recessão.
Ano passado, o IPCA fechou alto, mas muito mais civilizado,
perto dos 9%. O PIB não avançou nem recuou.
Houve quem imaginasse um retrocesso semelhante ao do início
da década. Em 1990, acordamos um dia sabendo que
o Banco Central havia invadido nossas contas particulares
e nossas poupanças, confiscando a maior parte de
nosso dinheiro. Tratava-se do primeiro presidente eleito
pelo voto direto desde 1960. Ele e o presidente do Banco
Central rasgavam a Constituição, confiscando
os direitos elementares dos cidadãos.
Em 1999, foi o presidente do Banco Central quem teve seus
direitos sonegados pela CPI dos bancos. O presidente do
BC de 1990, que feriu todos os direitos individuais, saiu
ileso da aventura. O presidente do BC de 1999, Francisco
Lopes, cujo principal crime comprovado foi estar na presidência
do Banco Central durante o colapso cambial, tenta a duras
penas salvar a carreira e a reputação. Saiu,
em questão de meses, de uma sabatina quase unânime
no Senado, para receber ordem de prisão de uma CPI,
também no Senado, desinformada dos limites da lei.
Mas 1999 guarda mais lições. Descobrimos
que o Brasil não é tão vulnerável
quanto imaginávamos. Conseguimos superar todas as
previsões pessimistas e encerramos o ano quase sãos
e salvos. Aprendemos que não adianta Deus ser brasileiro.
Se não fazemos a coisa certa, pagamos o preço
do mau comportamento. Vimos que temos a memória curta
e, por isso, não usamos bem as lições
do passado. Temos a visão para a frente curta também:
nos perdemos no primeiro semestre em muito pessimismo, previmos
mal o curso do ano e não temos, hoje, uma boa visão
do ano 2000.
Continuaremos dependentes dos humores do mercado financeiro
internacional, pois ainda teremos déficit externo
para financiar. O mundo já não assusta tanto.
Só os EUA, a única peça do dominó
global capaz de arrastar todas as outras para uma crise
geral. Por isso Nova York abalou nos primeiros pregões
do século. Mas vamos precisar de menos dinheiro novo
porque a balança comercial reagirá um pouco
e os compromissos externos são menores. O investimento
estrangeiro direto deve atingir volume expressivo e crescente.
Ele vem para a produção, para aquisições
e fusões de empresas. O Brasil tem hoje atratividade
para 40 bilhões de dólares de investimento
direto externo. Só não o alcança por
causa de sua estrutura tributária obsoleta, dos riscos
que os investidores ainda percebem para a estabilidade dos
contratos e porque há dúvida sobre o controle
da inflação e a saúde macroeconômica
do país. Mas todas as previsões de investimento
direto para 1999 ficaram muito aquém da realidade.
Fechamos o ano com quase 30 bilhões de dólares,
para previsões da ordem de 18 bilhões. Temos
um dos maiores mercados internos do globo, que dobrou na
década de 90 e mais que dobrará nesta. Passamos
na classificatória, mas agora começa o campeonato,
e o prêmio é imperdível.
Sérgio Abranches
é cientista político