Edição 1 631 -12/1/2000

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Para ganhar 2000 de virada

Passamos na classificatória, mas agora começa
o campeonato, e o prêmio é imperdível

 
Ilustração Alê Setti

A conjuntura neste ano será melhor que a de 1999, mas, por isto mesmo, enfrentaremos desafios maiores. A inflação será menor, mas teremos de conquistar a estabilidade durável. Para isso, nosso regime fiscal, que avançou quantitativamente, terá de melhorar qualitativamente. Teremos crescimento, mas, para que ele seja sustentável, precisará basear-se em produtividade e competitividade crescentes. O desemprego não muda muito. Contudo, se formos bem-sucedidos na transição de 2000, a lógica do emprego vai mudar muito nos próximos dez anos e precisamos nos preparar para isso. Em 2000, começa o desafio real e ele tem cara: o máximo de estabilidade macroeconômica, com dinamismo, e o máximo de ousadia na educação. Entramos na década do conhecimento e estamos em desvantagem. Se quisermos ganhar a década, terá de ser de virada.

O ano passado foi o segundo pior da década. Só perdeu para o de 1990. Ambos foram traumáticos. Mas 1999 terminou muito melhor. A década fecha de forma muito mais positiva também. Em dezembro de 1990, o IPCA acumulava 1.620% e o PIB recuava 4,17%. Hiperinflação com recessão. Ano passado, o IPCA fechou alto, mas muito mais civilizado, perto dos 9%. O PIB não avançou nem recuou. Houve quem imaginasse um retrocesso semelhante ao do início da década. Em 1990, acordamos um dia sabendo que o Banco Central havia invadido nossas contas particulares e nossas poupanças, confiscando a maior parte de nosso dinheiro. Tratava-se do primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960. Ele e o presidente do Banco Central rasgavam a Constituição, confiscando os direitos elementares dos cidadãos.

Em 1999, foi o presidente do Banco Central quem teve seus direitos sonegados pela CPI dos bancos. O presidente do BC de 1990, que feriu todos os direitos individuais, saiu ileso da aventura. O presidente do BC de 1999, Francisco Lopes, cujo principal crime comprovado foi estar na presidência do Banco Central durante o colapso cambial, tenta a duras penas salvar a carreira e a reputação. Saiu, em questão de meses, de uma sabatina quase unânime no Senado, para receber ordem de prisão de uma CPI, também no Senado, desinformada dos limites da lei.

Mas 1999 guarda mais lições. Descobrimos que o Brasil não é tão vulnerável quanto imaginávamos. Conseguimos superar todas as previsões pessimistas e encerramos o ano quase sãos e salvos. Aprendemos que não adianta Deus ser brasileiro. Se não fazemos a coisa certa, pagamos o preço do mau comportamento. Vimos que temos a memória curta e, por isso, não usamos bem as lições do passado. Temos a visão para a frente curta também: nos perdemos no primeiro semestre em muito pessimismo, previmos mal o curso do ano e não temos, hoje, uma boa visão do ano 2000.

Continuaremos dependentes dos humores do mercado financeiro internacional, pois ainda teremos déficit externo para financiar. O mundo já não assusta tanto. Só os EUA, a única peça do dominó global capaz de arrastar todas as outras para uma crise geral. Por isso Nova York abalou nos primeiros pregões do século. Mas vamos precisar de menos dinheiro novo porque a balança comercial reagirá um pouco e os compromissos externos são menores. O investimento estrangeiro direto deve atingir volume expressivo e crescente. Ele vem para a produção, para aquisições e fusões de empresas. O Brasil tem hoje atratividade para 40 bilhões de dólares de investimento direto externo. Só não o alcança por causa de sua estrutura tributária obsoleta, dos riscos que os investidores ainda percebem para a estabilidade dos contratos e porque há dúvida sobre o controle da inflação e a saúde macroeconômica do país. Mas todas as previsões de investimento direto para 1999 ficaram muito aquém da realidade. Fechamos o ano com quase 30 bilhões de dólares, para previsões da ordem de 18 bilhões. Temos um dos maiores mercados internos do globo, que dobrou na década de 90 e mais que dobrará nesta. Passamos na classificatória, mas agora começa o campeonato, e o prêmio é imperdível.

 

Sérgio Abranches é cientista político