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Edição 1 781 - 11 de dezembro de 2002
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A farra dos canudos

Nada de "prefiro dinheiro para
viajar" –
acabada a faculdade,
os formandos
agora querem
festa e colação grandiosas

Ariel Kostman

 
Antonio Milena
Baile a rigor de escola de medicina: 3 000 reais cada um, em prestações, pela formatura

Ao som de um quarteto de violinos, 66 rapazes e moças vestidos a rigor entraram no pavilhão amarelo de um centro de exposições em São Paulo, numa noite quente do fim do mês passado. Estavam alegres e emocionados, como adolescentes em seu primeiro baile – mas, em lugar de uma festa de 15 anos, era uma turma de novos médicos comemorando de maneira perfeitamente tradicional o fim do curso. Pela avaliação de empresas especializadas, os bailes de formatura praticamente dobraram nos últimos cinco anos. E não se trata de festinha pouca, não. O baile da turma de medicina da Universidade de Santo Amaro teve jantar, regado a vinho, uísque e champanhe, e banda ao vivo, que começou, sem nenhuma surpresa, com três valsas. Às 5 e meia da manhã, depois de muito samba, pagode e axé, os últimos remanescentes da turma da Santo Amaro foram embora, felizes. Para marcar a conclusão do curso, cada um desembolsou 3.000 reais, parcelados em até dezessete vezes, com direito a vinte convidados e à cerimônia de colação de grau, realizada três dias antes numa casa de shows. Caro é, mas quem paga acha que compensa. "Considero importante. É uma forma de dar uma satisfação à família. Já pensou se formar e ir para casa ver televisão?", argumenta Eduardo Nogueira Magri, vice-presidente da comissão de formatura.


Houve um tempo em que as festas de formatura andavam em baixa. Jovem moderno preferia pegar o dinheiro e ir viajar, cair numa baladinha com a turma ou ignorar solenemente a ultrapassada convenção. Nos últimos anos, passaram por um renascimento, como um outro rito de passagem, os bailes de 15 anos. A ciranda de festas também é estimulada pela incessante abertura de novas faculdades no Brasil: o número de universitários passou de 1,6 milhão em 1994 para 3 milhões em 2001, um crescimento de 82%. A temporada mais agitada começa agora e vai até o fim de fevereiro, mas a disseminação dos vestibulares no meio do ano garante festa o ano todo. Na labuta por atrair clientes, as empresas especializadas disputam quem consegue organizar a megaprodução mais mega de todas. Baile de formatura e colações de grau atualmente têm de ter efeitos especiais de raio laser, cascatas de fogos, chuva de papel (perdão, skypaper). "As festas estão cada vez mais grandiosas e sofisticadas", resume Virgulino Mota, dono da empresa especializada Dorana Forte Real, que até o fim do ano terá realizado 100 formaturas. "Cada um tenta superar o outro."

 
Divulgação
Colação de grau de curso de direito: no final, balões e capelos ao ar

A Brilho, outra empresa do ramo com sede em São Paulo, coloca um balão dirigível dentro do local da festa. Com uma câmera de vídeo acoplada, ele transmite as imagens captadas nas mesas – formando, papai, mamãe, vovó, vovô, namorada, pais da namorada – e na pista de dança para os telões instalados no salão. Como nas festinhas de aniversário mais incrementadas, os mesmos telões, presença quase tão indispensável quanto o smoking deles e o longo delas, a certa altura do baile mostram imagens dos formandos em diversas fases da vida. Há bailes que terminam com um trio elétrico ou alas e bateria de escola de samba em pleno salão. Já na colação de grau – comandada por um mestre-de-cerimônia de pomposa entonação –, os formandos, de beca e capelo, enfrentam sonolentos discursos e homenagens à espera do final apoteótico. Sob uma chuva de papel picado ou de balões coloridos, entra o coral: "Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito....". A turma se abraça, muitos choram e todos, repetindo o que viram em dezenas de seriados e filmes americanos, atiram o capelo para o alto.

A mania das formaturas caprichadas é nacional. No Buffet Catarina, um dos mais tradicionais de Belo Horizonte, elas já ocupam o segundo lugar no ranking, atrás apenas dos casamentos. Em agosto, os 150 formandos do curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) fizeram lá um baile para quase 3.000 convidados, com iluminação especial, canhões de luz e um telão "importado" de São Paulo. Cada estudante pagou cerca de 1.600 reais. Em Goiânia, o ritual é similar: colação de grau, culto ecumênico e um grande baile, ocasionalmente abrilhantado por artistas convidados. No ano passado, a turma de medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) dançou embalada pelo cantor Oswaldo Montenegro, mas ninguém vai dizer aqui se foi prêmio ou castigo. De tão pujante, o setor já sustenta uma revista, a Diplomando, e até uma feira anual, a Expo Diplomando. Na última, a novidade eram becas em cores variadas, lembrando a profissão: azul para administração, vermelha para direito. É garantido que logo, logo vão animar as celebrações.

   
 
   
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