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A farra dos canudos
Nada de
"prefiro dinheiro para
viajar" acabada
a faculdade,
os formandos agora
querem
festa e colação grandiosas
Ariel Kostman
Antonio Milena
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| Baile
a rigor de escola de medicina: 3 000 reais cada um, em prestações,
pela formatura |
Ao som de
um quarteto de violinos, 66 rapazes e moças vestidos a rigor entraram
no pavilhão amarelo de um centro de exposições em
São Paulo, numa noite quente do fim do mês passado. Estavam
alegres e emocionados, como adolescentes em seu primeiro baile
mas, em lugar de uma festa de 15 anos, era uma turma de novos médicos
comemorando de maneira perfeitamente tradicional o fim do curso. Pela
avaliação de empresas especializadas, os bailes de formatura
praticamente dobraram nos últimos cinco anos. E não se trata
de festinha pouca, não. O baile da turma de medicina da Universidade
de Santo Amaro teve jantar, regado a vinho, uísque e champanhe,
e banda ao vivo, que começou, sem nenhuma surpresa, com três
valsas. Às 5 e meia da manhã, depois de muito samba, pagode
e axé, os últimos remanescentes da turma da Santo Amaro
foram embora, felizes. Para marcar a conclusão do curso, cada um
desembolsou 3.000 reais, parcelados em até
dezessete vezes, com direito a vinte convidados e à cerimônia
de colação de grau, realizada três dias antes numa
casa de shows. Caro é, mas quem paga acha que compensa. "Considero
importante. É uma forma de dar uma satisfação à
família. Já pensou se formar e ir para casa ver televisão?",
argumenta Eduardo Nogueira Magri, vice-presidente da comissão de
formatura.
Houve
um tempo em que as festas de formatura andavam em baixa. Jovem moderno
preferia pegar o dinheiro e ir viajar, cair numa baladinha com a turma
ou ignorar solenemente a ultrapassada convenção. Nos últimos
anos, passaram por um renascimento, como um outro rito de passagem, os
bailes de 15 anos. A ciranda de festas também é estimulada
pela incessante abertura de novas faculdades no Brasil: o número
de universitários passou de 1,6 milhão em 1994 para 3 milhões
em 2001, um crescimento de 82%. A temporada mais agitada começa
agora e vai até o fim de fevereiro, mas a disseminação
dos vestibulares no meio do ano garante festa o ano todo. Na labuta por
atrair clientes, as empresas especializadas disputam quem consegue organizar
a megaprodução mais mega de todas. Baile de formatura e
colações de grau atualmente têm de ter efeitos especiais
de raio laser, cascatas de fogos, chuva de papel (perdão, skypaper).
"As festas estão cada vez mais grandiosas e sofisticadas", resume
Virgulino Mota, dono da empresa especializada Dorana Forte Real, que até
o fim do ano terá realizado 100 formaturas. "Cada um tenta superar
o outro."
Divulgação
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| Colação
de grau de curso de direito: no final, balões e capelos ao ar |
A Brilho,
outra empresa do ramo com sede em São Paulo, coloca um balão
dirigível dentro do local da festa. Com uma câmera de vídeo
acoplada, ele transmite as imagens captadas nas mesas formando,
papai, mamãe, vovó, vovô, namorada, pais da namorada
e na pista de dança para os telões instalados no
salão. Como nas festinhas de aniversário mais incrementadas,
os mesmos telões, presença quase tão indispensável
quanto o smoking deles e o longo delas, a certa altura do baile mostram
imagens dos formandos em diversas fases da vida. Há bailes que
terminam com um trio elétrico ou alas e bateria de escola de samba
em pleno salão. Já na colação de grau
comandada por um mestre-de-cerimônia de pomposa entonação
, os formandos, de beca e capelo, enfrentam sonolentos discursos
e homenagens à espera do final apoteótico. Sob uma chuva
de papel picado ou de balões coloridos, entra o coral: "Amigo é
coisa para se guardar do lado esquerdo do peito....". A turma se abraça,
muitos choram e todos, repetindo o que viram em dezenas de seriados e
filmes americanos, atiram o capelo para o alto.
A mania
das formaturas caprichadas é nacional. No Buffet Catarina, um dos
mais tradicionais de Belo Horizonte, elas já ocupam o segundo lugar
no ranking, atrás apenas dos casamentos. Em agosto, os 150 formandos
do curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) fizeram
lá um baile para quase 3.000 convidados,
com iluminação especial, canhões de luz e um telão
"importado" de São Paulo. Cada estudante pagou cerca de 1.600
reais. Em Goiânia, o ritual é similar: colação
de grau, culto ecumênico e um grande baile, ocasionalmente abrilhantado
por artistas convidados. No ano passado, a turma de medicina da Universidade
Federal de Goiás (UFG) dançou embalada pelo cantor Oswaldo
Montenegro, mas ninguém vai dizer aqui se foi prêmio ou castigo.
De tão pujante, o setor já sustenta uma revista, a Diplomando,
e até uma feira anual, a Expo Diplomando. Na última, a novidade
eram becas em cores variadas, lembrando a profissão: azul para
administração, vermelha para direito. É garantido
que logo, logo vão animar as celebrações.
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