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Edição 1 781 - 11 de dezembro de 2002
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O terninho é nosso!

Ao posar para a revista Manequim,
Marisa da Silva levou suas próprias
roupas e deixou claro: é mulher de um
modelo só. As companheiras apóiam

 
Fotos Eduardo Pozella
Na sessão de fotos, com a maquiadora Marcely (à esq.) e a consultora de moda Tata: as responsáveis pelo novo visual da futura primeira-dama

Avessa a situações que a coloquem em evidência e definindo-se como uma pessoa simplésima em se tratando do visual, Marisa Letícia Lula da Silva, a futura primeira-dama, prontificou-se a uma senhora guinada: posou para um editorial de moda da revista Manequim, publicada pela Editora Abril. As fotos, incomuns, naturalmente merecerão lugar de honra – na capa da revista de janeiro. Marisa não só enfrentou as câmeras com desenvoltura como levou peças de seu próprio guarda-roupa. Que modelos escolheu? Terninhos, claro. Das cinco roupas que usou, quatro eram conjuntos de calça e paletó; a quinta era um tailleur. A sessão de fotos levou meras duas horas e meia, um relâmpago para os padrões normais de uma não-profissional posando com cinco modelos. No intervalo entre um e outro modelo, ela levava no máximo quinze minutos para se produzir. A seu lado, o tempo todo, teve as duas responsáveis pela marcante mudança no visual da futura primeira-dama: Marcely Tobias, 35 anos, cabeleireira e maquiadora, e Tata Nicoletti, 44, que compra e compõe – tomando o cuidado de balancear o peso e o preço das grifes, de modo a não privilegiar nenhuma – todas as roupas que Marisa usa. Traduzindo: terninhos e mais terninhos.

Desde que foi convocada a marcar presença constante ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva na campanha eleitoral, em meados deste ano, Marisa praticamente só é vista com conjuntos do gênero – até quando o protocolo não recomenda, como nos compromissos oficiais desta semana na Argentina e no Chile. Não está sozinha na preferência. Desde a década de 70, o conjunto de calça e casaco ganhou espaço nos guarda-roupas femininos. A moda muda, o tempo passa e os terninhos sempre ressurgem. "O crédito é de Yves Saint Laurent, que inventou o smoking feminino. Prestou um enorme serviço às mulheres, dando-lhes acesso a uma roupa que é elegante, disfarça gordurinhas e esconde imperfeições", diz Miti Shitara, professora de história da moda e do design da Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo.

Na esfera política, em que as mulheres sempre foram mais coadjuvantes do que protagonistas, o terninho demorou mais para vencer as barreiras protocolares. Primeiras-damas como Hillary Clinton e Ruth Cardoso, mulheres com vida e profissão próprias que acompanharam seus maridos no poder, quebraram as últimas resistências. Hillary desceu do avião para uma visita ao Brasil de terninho amarelo-canário. Manteve o figurino na campanha para o Senado e, uma vez eleita, não sai de casa sem a dupla paletó-calça. Ruth usou tanto que pode ser considerada desbravadora: chegou aonde nunca antes uma mulher de presidente pisara de calça comprida, como programas de TV e passeios em viagens oficiais. A senadora eleita Roseana Sarney é adepta ardorosa – e invoca problemas de saúde para se permitir a ousadia de eventualmente combinar os terninhos com tênis, uma parceria que exige muito senso de estilo para dar certo. A deputada Rita Camata não desgruda deles. Marta Suplicy, a prefeita de São Paulo, também não – embora seu estilo seja, em geral, mais audacioso que o das colegas políticas. Tirando a rainha da Inglaterra, que em matéria de calça comprida só se permite a de montaria, o terninho, discreto e correto por excelência, pendura-se com desenvoltura em todo e qualquer closet feminino.

 
Lula Marques/Folha Imagem
Beto Barata/Folha Imagem
Cida Souza
Roseana, de tênis, Marta e Ruth Cardoso na TV: uniforme de quem circula na política

A idéia de que o terninho é uma roupa combinadinha demais, sem imaginação, também pode ser facilmente detonada. A jornalista Erika Palomino, 35 anos, pajé da tribo dos modernos de São Paulo, tem quatro, sendo três pretos e um de jeans listrado. "Sou uma jovem executiva de negócios. Vou a muitas reuniões e acho que terninho impõe respeito. Depois, as pessoas não esperam me ver com um. Gosto de surpreender", diz Erika. No extremo oposto, Vera Loyola, a socialite neopetista da Barra da Tijuca, louca por brilhos, rendas e tapetes persas, tem uns vinte, entre eles alguns Giorgio Armani e Yves Saint Laurent. Mesmo com tamanha variedade ensina um truque: "Sempre dá para repetir. Ninguém percebe" – sem falar na possibilidade de usar casaco de um com calça de outro e parecer roupa nova. Lucília Diniz, empresária e acionista do Grupo Pão de Açúcar, tem cinco (sendo um Valentino e um Versace), mas não gosta muito. "Se tenho um convite para almoçar no palácio do governo, o terninho sai do armário. Mas acho muito sério. Minha maneira de vestir é alegre", explica. Estilo por estilo, até Luma de Oliveira, a musa do quanto menos pano, melhor, acha utilidade para o conjunto calça-paletó: "Tenho três, que uso quando viajo. No Brasil, acho meio claustrofóbico". Não faltam, como se vê, companheiras de estrada para Marisa da Silva.

   
 
   
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