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Edição 1 781 - 11 de dezembro de 2002
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A obra de 1,5 bi de reais

Valencia, na Espanha, cria
uma bilionária atração turística

Raul Juste Lores, de Valencia

 
Divulgação CAC

Cidade das Artes e das Ciências: objetivo de atrair turistas e investimentos



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Galeria de fotos: A cidade das Artes e das Ciências

Quando um país fica rico, a auto-estima não tem preço. Valencia, a terceira maior cidade da Espanha, sempre foi um patinho feio perto das riquezas arquitetônicas (e dos milhões de turistas) de Madri, Barcelona e Sevilha. Seguindo o exemplo da ex-feiosa Bilbao, que ganhou notoriedade com o espetacular Museu Guggenheim, Valencia decidiu investir 400 milhões de dólares – algo como 1,5 bilhão de reais – na construção de um complexo turístico de linhas arrojadas. O custo é quatro vezes o preço do Guggenheim desenhado por Frank Gehry. Em uma área de 350.000 metros quadrados, o equivalente a dois Maracanãs, a Cidade das Artes e das Ciências reúne um museu científico interativo, um cinema de terceira dimensão, um aquário e uma ópera. Depois de seis anos de obras, a "Cidade" está quase toda pronta. Com tanques que equivalem a quinze piscinas olímpicas cheias e 10.000 animais de 500 espécies, o aquário, que será o maior da Europa, será inaugurado nesta semana. Terá também golfinhos, tubarões e até morsas. Em fevereiro será a vez da abertura da Ópera, com quatro auditórios e 5.000 lugares. A bonita cidade mediterrânea de apenas 800.000 habitantes, menor que Campinas, famosa por ser a terra da paella, vai competir por um naco maior dos 49 milhões de turistas estrangeiros que visitam a Espanha- todos os anos.

O megaempreendimento começou com o cinema em terceira dimensão, há quatro anos, e a inauguração do museu científico, há dois. Só o museu recebeu 7 milhões de visitantes nesse período. A aposta do governo valenciano (o projeto é iniciativa pública) já teve retorno de rechear os cofres da região. Valencia recebeu 500 milhões de dólares de investimentos desde que o parque começou a ser construído – catorze novos hotéis foram abertos e outros 22 estão em construção, além de um grande shopping center vizinho. Mais de 5 000 apartamentos de luxo foram construídos ao redor, no que já se tornou o metro quadrado mais caro da cidade. Os habitantes comemoram os 16.000 novos empregos surgidos graças ao projeto. O aquário será administrado como concessão privada e já se fala em privatização, no futuro.

Para o turista, as atrações são imperdíveis. Com seu jeito de esqueleto de animal pré-histórico, o Museu das Ciências Príncipe Felipe tem o dobro do tamanho do Guggenheim de Bilbao. O pé-direito, com 45 metros de altura, permite que até aviões-caça sejam expostos em seu interior. O lema por lá é "proibido não tocar". Atualmente, há mais de trinta exposições em cartaz, todas interativas, que apresentam desde os estudos sobre o genoma até objetos da Nasa e da conquista espacial soviética. O traje original do astronauta Yuri Gagarin está lá. Há grandes alas infantis, onde as crianças aprendem como funcionam os cinco sentidos, como se constrói uma casa e como é o sistema solar. Demonstrações da geração do laser até as transformações no corpo humano durante a prática de esportes estão na programação do museu, que recebe excursões de escolas de toda a Europa.

Ao lado do museu, dentro de uma grande piscina, levanta-se um gigantesco olho de vidro, chamado Hemisférico. Lá funcionam o planetário e um cinema em terceira dimensão. Os 1.200 espectadores assistem às projeções em uma tela esférica de 25 metros de altura, o tamanho de um prédio de oito andares. Há algumas excentricidades no projeto. Como o estacionamento que fica escondido sob uma passarela de 320 metros de comprimento, que imita uma estufa, com coqueiros, palmeiras e buganvílias. O prédio que mais chama a atenção no conjunto (e também o mais alto) é o gigantesco Palácio das Artes, ainda em obras, que será a ópera de Valencia. Com a forma de um navio, homenageando o porto da cidade, terá 75 metros de altura, o equivalente a um prédio de 25 andares.

 
Carlos Goldgrub
Museu Guggenheim, em Bilbao: ícone turístico e 2 bilhões de reais em novos investimentos

A tarefa de projetar um empreendimento tão ambicioso foi delegada ao arquiteto e engenheiro Santiago Calatrava, de 51 anos. Valenciano, voltou à terra natal em grande estilo, depois de ficar famoso por pontes, aeroportos e museus construídos pela Europa, Argentina e Estados Unidos. O estilo de arquitetura-espetáculo de Calatrava, em que os prédios parecem esculturas, é ideal para cidades que querem atrair turistas e investimentos. Valencia conseguiu dar um bom destino a uma área pouco valorizada da cidade. Depois de grandes inundações, a cidade decidiu desviar o Rio Turia do centro. Várias obras foram criadas no imenso leito seco, de um museu de arte moderna a jardins. Até um enorme playground em formato de Gulliver, o gigante das histórias infantis, foi instalado, com diversos tobogãs e escorregadores para as crianças saindo do corpo do personagem. Bilbao realizou a mesma façanha com o Guggenheim desenhado por Frank Gehry, que atraiu quase 2 bilhões de reais e 5 milhões de turistas nos últimos cinco anos. Berlim também aproveitou a reunificação para dar uma embelezada geral nas áreas da velha Berlim Oriental. Por enquanto, Valencia já garantiu essa grande virada com uma aposta em linhas arrojadas e senso de oportunidade turística para ter mais dinheiro no bolso.

   
 
   
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