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Edição 1 781 - 11 de dezembro de 2002
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O desafio de formar
um ministério

Lula não está demorando para
montar o novo governo, mas
declarações da cúpula petista
durante o processo criam uma
crise artificial

Felipe Patury e Maurício Lima


Joedson Alves/AE
José Dirceu, de óculos, e Antônio Palocci: divergência sobre a permanência de Armínio no BC


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O ex-presidente Tancredo Neves, que acabou não assumindo o governo, trocou nomes de ministros até 48 horas antes da posse – e convidou tanta gente que, dizia-se em Brasília, podia formar três governos diferentes. O ex-presidente Fernando Collor anunciou seu ministério aos poucos. O primeiro nome surgiu bem cedo, a dois meses da posse, mas o último, o de Alceni Guerra, para o Ministério da Saúde, só saiu dois dias antes de assumir. Em seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso só fechou sua equipe quatro dias antes do Natal. Levou onze semanas para definir o ministério e tinha a vantagem de ser um continuador do governo anterior, cuja grande bandeira era de sua própria lavra – o Plano Real.


Jamil Bittar/Reuters
Armínio Fraga, atual presidente do Banco Central: topa, desiste, convida, desconvida

Comparado a esses casos, não se pode dizer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteja demorando para montar todo o seu governo. Eleito há apenas seis semanas, Lula tem pela frente uma tarefa complexa, que não se conclui da noite para o dia. O petista precisa escolher pelo menos quarenta nomes, considerando-se aí apenas os postos mais importantes da administração federal. Ninguém faz isso às pressas – e, se faz, corre o risco de errar. Mas no caso de Lula há uma dificuldade adicional. No governo Fernando Henrique, a base de apoio abrigava quatro partidos que, juntos, respondiam por 70% das cadeiras do Congresso. O novo presidente se elegeu com o apoio de seis legendas, que somam menos de 40% das cadeiras. Ou seja: o petista precisa abrigar um número maior de partidos, o que complica as negociações em torno dos integrantes do novo governo. É por essa razão que Lula atravessou a semana passada dando declarações deste tipo: "Indicarei todos os ministros, o presidente do Banco Central e os diretores de outras empresas públicas, mas isso tem um tempo. E esse é um tempo que cabe a mim escolher".

Sem dúvida, o novo governo dispõe de um "tempo político" para ser organizado. Acontece que muito do nervosismo dos últimos dias foi provocado por declarações e movimentos contraditórios da própria cúpula petista. O novo governo, e não o velho mercado, foi o principal agente de uma crise artificial que provocou aumento do dólar e queda na bolsa de valores. A escolha do futuro presidente do Banco Central é o melhor exemplo. O mercado, naturalmente inquieto, clamava pela revelação da identidade do titular já durante a campanha eleitoral, mas se conformou com o mistério. Tranqüilizou-se quando Lula sugeriu que o coordenador do governo de transição, Antônio Palocci, seria ministro da Fazenda. Embora sua habilitação profissional seja de médico sanitarista e sua experiência, unicamente política, Palocci demonstrou desde o primeiro instante sensibilidade para compreender como funciona o mundo econômico. Mas ainda faltava o principal: quem iria comandar o BC.


Ricardo Benichio
Carol Carquejeiro/Valor
Barbosa, Senna (fotos) e Bodin: sondados para comandar o BC de Lula

Na ditadura militar, todas as atenções se concentravam na escolha do nome do novo ministro do Exército. Conhecendo-se o nome, tinha-se uma noção clara se o governo seria mais liberal ou mais linha-dura – jargão usado atualmente para definir o estilo do dirigente da área econômica. Ninguém se preocupava em conhecer a identidade do presidente do Banco Central. Não fazia sentido. Nos governos do regime democrático, época em que o país enfrentava uma interminável labareda inflacionária, os olhos voltavam-se para a definição de quem ocuparia o Ministério da Fazenda, órgão que só não era mais importante que a própria Presidência da República. Muita gente já ouviu falar dos ministros daquele tempo, como Dilson Funaro e Mailson da Nóbrega. Mas poucos se lembram de nomes que presidiram o Banco Central nessa fase, como Fernando Milliet e Elmo Camões.

Agora, embora a inflação dê sinais eloqüentes de que não está morta, vive-se um momento distinto: o cargo de presidente do Banco Central ganhou destaque durante o governo Fernando Henrique porque influi na definição da taxa de juros e nas metas de inflação. A importância do BC, no caso do governo de Lula, é ainda maior, dado que o petista tem dito que sua vitória nas urnas foi uma autorização popular para mudar a política econômica. Na semana passada, em entrevista coletiva, Lula voltou a falar em mudanças. A novela do BC começou em meados do ano, ainda durante a campanha, quando o PT sondou Armínio Fraga para ficar nos primeiros meses do novo governo. Armínio topou, mas voltou atrás depois que Lula, no final da disputa eleitoral, criticou sua atuação. O ex-prefeito de Ribeirão Preto Antônio Palocci, provável ministro da Fazenda no governo Lula, gostaria de manter o atual presidente do BC, mas o deputado José Dirceu, reforçado na semana passada pelo presidente eleito, tem dito que isso é impossível. Num ambiente em que o mercado está nervoso, tais posições contraditórias provocaram um zunzum de que Palocci e Dirceu, dois dos maiores caciques no novo governo, já travavam sua primeira disputa. O fica-e-sai de Armínio continuou até que, na quarta-feira da semana passada, Lula veio a público para dizer que o atual presidente do BC não pode permanecer no cargo. No dia seguinte, Lula encontrou-se com Armínio para discutir "economia". Na sexta-feira, a idéia de manter Armínio voltou a ser mencionada na reunião de Lula com a cúpula do PT, na Granja do Torto, em Brasília.


Orlando Brito
Reunião ministerial do governo Collor: a primeira composição ignorou os partidos e durou pouco

Enquanto discutia a manutenção temporária do atual presidente do BC, o novo governo buscava um nome alternativo. A preferência recaiu sobre Fábio Barbosa, o presidente do ABN Amro. Sondado há um mês, Barbosa recusou. Daí em diante, uma multidão de estrelas começou a brilhar no noticiário. Na semana passada, o alvo era o carioca Pedro Bodin, sócio do grupo Icatu. No meio financeiro, Bodin é descrito como alguém ideologicamente idêntico a Armínio, de quem é amigo desde a juventude. Os dois têm formação acadêmica semelhante, ambos foram alunos do ministro Pedro Malan e trabalharam juntos no BC durante o governo de Collor. O outro alvo foi José Júlio Senna, da consultoria MCM. Com doutorado pela Universidade John Hopkins, Senna já passou pelo BC, mas não é o candidato dos sonhos do mercado.

Mesmo antes da eleição, Lula deu sinais de que não queria colidir com o mercado, e sua postura foi aplaudida, tida como sensata. Na reta final do processo de formação de equipe, cabe uma pergunta: faz sentido buscar um presidente do BC afinado com o mercado ou deve-se buscar um nome da confiança irrestrita do presidente? Durante os dois anos em que ocupou o Planalto, Itamar Franco escolheu para o Banco Central três nomes da confiança do mercado (Gustavo Loyola, Paulo César Ximenes e Pedro Malan). De nada adiantou. O presidente torturava esses sucessivos presidentes do Banco Central dizendo que era preciso abrir "aquela caixa-preta do BC". Talvez um nome mais próximo do ninho petista tenha mais poder e influência para conduzir uma política adequada do que alguém com um perfil ideal segundo os termos do mercado. "Se alguém afinado com o partido ocupasse a presidência do BC, e fosse persuadido da necessidade de manter uma linha de rigorosa austeridade monetária e fiscal, atenderia muito melhor aos interesses do mercado do que essa solução meio postiça que pode estar se desenhando: a busca de um técnico do mercado que seja minimamente aceitável pelo novo grupo dirigente", diz Sérgio Abranches, cientista político e colunista de VEJA. O risco, na opinião de Abranches, é que se volte aos tempos em que Itamar vivia de embates com o Banco Central.


Ugo Koyama
Tancredo, logo depois de ganhar a Presidência: definições até as vésperas

Mais importante do que o tempo gasto por Lula para montar seu ministério é a energia com que o PT alimenta crises artificiais durante esse processo. Nos últimos dias, Lula anunciou que não se reunirá com dois governadores de Estado, um deles Joaquim Roriz, do Distrito Federal. Também disse, sobre o PMDB, que o partido é muito dividido e que ele tem dificuldade para saber quem são seus verdadeiros interlocutores na legenda. Como se o PT fosse um partido coeso, sem correntes. Num presidencialismo de coalizão como o brasileiro, ninguém compõe um governo sem negociar muito, sem conceder, sem evitar arestas. Lula foi negociador competente durante a campanha e logo após a vitória eleitoral. Nos últimos dias, talvez por cansaço, perdeu a mão. O clima de nervosismo e ansiedade pôde ser conferido até mesmo no processo de escolha do novo ministro da Justiça, cargo que pertencia a Márcio Thomaz Bastos desde os tempos da campanha. Na semana passada, perguntado se seria ou não ministro, o criminalista, que é dono de um dos grandes escritórios de advocacia de São Paulo e antigo defensor da estrela vermelha, disse aos jornalistas: "Eu não iria para o governo, mas mudei de idéia. Fui sondado, mas não convidado. Se convidado, aceito".

Declarações desse tipo enervam a praça, em vez de tranqüilizá-la. Entre as raposas mais experientes de Brasília, foi o que aconteceu no caso BC. Lula poderia ter evitado desgastes se nada tivesse declarado sobre a permanência de Armínio. Nesse caso, poderia escolher o novo presidente só no ano que vem. Ao falar em mudanças, o PT colocou um guizo no próprio pescoço ao impor a si mesmo um prazo mais estreito. Terá de escolher um nome até esta semana, de modo que o Senado, antes do recesso parlamentar do início do ano, tenha prazo hábil para sabatinar e aprovar o indicado.

 
 
   
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