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O desafio de formar
um ministério
Lula não
está demorando para
montar o novo governo, mas
declarações da cúpula petista
durante o processo criam uma
crise artificial

Felipe Patury
e Maurício Lima
Joedson Alves/AE
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| José
Dirceu, de óculos, e Antônio Palocci: divergência sobre a permanência
de Armínio no BC |

Veja também |
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O ex-presidente
Tancredo Neves, que acabou não assumindo o governo, trocou nomes
de ministros até 48 horas antes da posse e convidou tanta
gente que, dizia-se em Brasília, podia formar três governos
diferentes. O ex-presidente Fernando Collor anunciou seu ministério
aos poucos. O primeiro nome surgiu bem cedo, a dois meses da posse, mas
o último, o de Alceni Guerra, para o Ministério da Saúde,
só saiu dois dias antes de assumir. Em seu primeiro mandato, o
presidente Fernando Henrique Cardoso só fechou sua equipe quatro
dias antes do Natal. Levou onze semanas para definir o ministério
e tinha a vantagem de ser um continuador do governo anterior, cuja grande
bandeira era de sua própria lavra o Plano Real.
Jamil Bittar/Reuters
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| Armínio
Fraga, atual presidente do Banco Central: topa, desiste, convida,
desconvida |
Comparado
a esses casos, não se pode dizer que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva esteja demorando para montar todo o seu governo. Eleito
há apenas seis semanas, Lula tem pela frente uma tarefa complexa,
que não se conclui da noite para o dia. O petista precisa escolher
pelo menos quarenta nomes, considerando-se aí apenas os postos
mais importantes da administração federal. Ninguém
faz isso às pressas e, se faz, corre o risco de errar. Mas
no caso de Lula há uma dificuldade adicional. No governo Fernando
Henrique, a base de apoio abrigava quatro partidos que, juntos, respondiam
por 70% das cadeiras do Congresso. O novo presidente se elegeu com o apoio
de seis legendas, que somam menos de 40% das cadeiras. Ou seja: o petista
precisa abrigar um número maior de partidos, o que complica as
negociações em torno dos integrantes do novo governo. É
por essa razão que Lula atravessou a semana passada dando declarações
deste tipo: "Indicarei todos os ministros, o presidente do Banco Central
e os diretores de outras empresas públicas, mas isso tem um tempo.
E esse é um tempo que cabe a mim escolher".
Sem dúvida,
o novo governo dispõe de um "tempo político" para ser organizado.
Acontece que muito do nervosismo dos últimos dias foi provocado
por declarações e movimentos contraditórios da própria
cúpula petista. O novo governo, e não o velho mercado, foi
o principal agente de uma crise artificial que provocou aumento do dólar
e queda na bolsa de valores. A escolha do futuro presidente do Banco Central
é o melhor exemplo. O mercado, naturalmente inquieto, clamava pela
revelação da identidade do titular já durante a campanha
eleitoral, mas se conformou com o mistério. Tranqüilizou-se
quando Lula sugeriu que o coordenador do governo de transição,
Antônio Palocci, seria ministro da Fazenda. Embora sua habilitação
profissional seja de médico sanitarista e sua experiência,
unicamente política, Palocci demonstrou desde o primeiro instante
sensibilidade para compreender como funciona o mundo econômico.
Mas ainda faltava o principal: quem iria comandar o BC.
Ricardo Benichio
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Carol Carquejeiro/Valor
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| Barbosa,
Senna (fotos) e Bodin: sondados para comandar o BC de Lula
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Na ditadura
militar, todas as atenções se concentravam na escolha do
nome do novo ministro do Exército. Conhecendo-se o nome, tinha-se
uma noção clara se o governo seria mais liberal ou mais
linha-dura jargão usado atualmente para definir o estilo
do dirigente da área econômica. Ninguém se preocupava
em conhecer a identidade do presidente do Banco Central. Não fazia
sentido. Nos governos do regime democrático, época em que
o país enfrentava uma interminável labareda inflacionária,
os olhos voltavam-se para a definição de quem ocuparia o
Ministério da Fazenda, órgão que só não
era mais importante que a própria Presidência da República.
Muita gente já ouviu falar dos ministros daquele tempo, como Dilson
Funaro e Mailson da Nóbrega. Mas poucos se lembram de nomes que
presidiram o Banco Central nessa fase, como Fernando Milliet e Elmo Camões.
Agora, embora
a inflação dê sinais eloqüentes de que não
está morta, vive-se um momento distinto: o cargo de presidente
do Banco Central ganhou destaque durante o governo Fernando Henrique porque
influi na definição da taxa de juros e nas metas de inflação.
A importância do BC, no caso do governo de Lula, é ainda
maior, dado que o petista tem dito que sua vitória nas urnas foi
uma autorização popular para mudar a política econômica.
Na semana passada, em entrevista coletiva, Lula voltou a falar em mudanças.
A novela do BC começou em meados do ano, ainda durante a campanha,
quando o PT sondou Armínio Fraga para ficar nos primeiros meses
do novo governo. Armínio topou, mas voltou atrás depois
que Lula, no final da disputa eleitoral, criticou sua atuação.
O ex-prefeito de Ribeirão Preto Antônio Palocci, provável
ministro da Fazenda no governo Lula, gostaria de manter o atual presidente
do BC, mas o deputado José Dirceu, reforçado na semana passada
pelo presidente eleito, tem dito que isso é impossível.
Num ambiente em que o mercado está nervoso, tais posições
contraditórias provocaram um zunzum de que Palocci e Dirceu, dois
dos maiores caciques no novo governo, já travavam sua primeira
disputa. O fica-e-sai de Armínio continuou até que, na quarta-feira
da semana passada, Lula veio a público para dizer que o atual presidente
do BC não pode permanecer no cargo. No dia seguinte, Lula encontrou-se
com Armínio para discutir "economia". Na sexta-feira, a idéia
de manter Armínio voltou a ser mencionada na reunião de
Lula com a cúpula do PT, na Granja do Torto, em Brasília.
Orlando Brito
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| Reunião
ministerial do governo Collor: a primeira composição ignorou os partidos
e durou pouco |
Enquanto
discutia a manutenção temporária do atual presidente
do BC, o novo governo buscava um nome alternativo. A preferência
recaiu sobre Fábio Barbosa, o presidente do ABN Amro. Sondado há
um mês, Barbosa recusou. Daí em diante, uma multidão
de estrelas começou a brilhar no noticiário. Na semana passada,
o alvo era o carioca Pedro Bodin, sócio do grupo Icatu. No meio
financeiro, Bodin é descrito como alguém ideologicamente
idêntico a Armínio, de quem é amigo desde a juventude.
Os dois têm formação acadêmica semelhante, ambos
foram alunos do ministro Pedro Malan e trabalharam juntos no BC durante
o governo de Collor. O outro alvo foi José Júlio Senna,
da consultoria MCM. Com doutorado pela Universidade John Hopkins, Senna
já passou pelo BC, mas não é o candidato dos sonhos
do mercado.
Mesmo antes
da eleição, Lula deu sinais de que não queria colidir
com o mercado, e sua postura foi aplaudida, tida como sensata. Na reta
final do processo de formação de equipe, cabe uma pergunta:
faz sentido buscar um presidente do BC afinado com o mercado ou deve-se
buscar um nome da confiança irrestrita do presidente? Durante os
dois anos em que ocupou o Planalto, Itamar Franco escolheu para o Banco
Central três nomes da confiança do mercado (Gustavo Loyola,
Paulo César Ximenes e Pedro Malan). De nada adiantou. O presidente
torturava esses sucessivos presidentes do Banco Central dizendo que era
preciso abrir "aquela caixa-preta do BC". Talvez um nome mais próximo
do ninho petista tenha mais poder e influência para conduzir uma
política adequada do que alguém com um perfil ideal segundo
os termos do mercado. "Se alguém afinado com o partido ocupasse
a presidência do BC, e fosse persuadido da necessidade de manter
uma linha de rigorosa austeridade monetária e fiscal, atenderia
muito melhor aos interesses do mercado do que essa solução
meio postiça que pode estar se desenhando: a busca de um técnico
do mercado que seja minimamente aceitável pelo novo grupo dirigente",
diz Sérgio Abranches, cientista político e colunista de
VEJA. O risco, na opinião de Abranches, é que se volte aos
tempos em que Itamar vivia de embates com o Banco Central.
Ugo Koyama
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| Tancredo,
logo depois de ganhar a Presidência: definições até as vésperas |
Mais importante
do que o tempo gasto por Lula para montar seu ministério é
a energia com que o PT alimenta crises artificiais durante esse processo.
Nos últimos dias, Lula anunciou que não se reunirá
com dois governadores de Estado, um deles Joaquim Roriz, do Distrito Federal.
Também disse, sobre o PMDB, que o partido é muito dividido
e que ele tem dificuldade para saber quem são seus verdadeiros
interlocutores na legenda. Como se o PT fosse um partido coeso, sem correntes.
Num presidencialismo de coalizão como o brasileiro, ninguém
compõe um governo sem negociar muito, sem conceder, sem evitar
arestas. Lula foi negociador competente durante a campanha e logo após
a vitória eleitoral. Nos últimos dias, talvez por cansaço,
perdeu a mão. O clima de nervosismo e ansiedade pôde ser
conferido até mesmo no processo de escolha do novo ministro da
Justiça, cargo que pertencia a Márcio Thomaz Bastos desde
os tempos da campanha. Na semana passada, perguntado se seria ou não
ministro, o criminalista, que é dono de um dos grandes escritórios
de advocacia de São Paulo e antigo defensor da estrela vermelha,
disse aos jornalistas: "Eu não iria para o governo, mas mudei de
idéia. Fui sondado, mas não convidado. Se convidado, aceito".
Declarações
desse tipo enervam a praça, em vez de tranqüilizá-la.
Entre as raposas mais experientes de Brasília, foi o que aconteceu
no caso BC. Lula poderia ter evitado desgastes se nada tivesse declarado
sobre a permanência de Armínio. Nesse caso, poderia escolher
o novo presidente só no ano que vem. Ao falar em mudanças,
o PT colocou um guizo no próprio pescoço ao impor a si mesmo
um prazo mais estreito. Terá de escolher um nome até esta
semana, de modo que o Senado, antes do recesso parlamentar do início
do ano, tenha prazo hábil para sabatinar e aprovar o indicado.
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