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Edição 1 781 - 11 de dezembro de 2002
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Como abrir as
portas dos ricos

O comércio com os Estados Unidos
só sobe, mas, até hoje, o Brasil
não venceu um antigo dilema: o
protecionismo americano

Malu Gaspar

 

Patrick Baz/AFP
Conferência da OMC em Doha: finalmente, as barreiras contra produtos agrícolas ganham atenção


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O Brasil decide seu futuro no império
O desafio de formar um ministério

Na campanha presidencial, não houve candidato que deixasse de prometer, uma vez eleito, transformar o Brasil em potência exportadora. Há poucos dias, depois da visita de um funcionário americano ao Brasil, o senador eleito Aloizio Mercadante, do PT de São Paulo, falou em números. Disse que o governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva gostaria de, num período de oito anos, elevar o volume de comércio com os Estados Unidos, que hoje não chega a 30 bilhões de dólares, para um patamar de 100 bilhões de dólares. É uma belíssima notícia, mas é uma meta ambiciosa. No ano passado, o Brasil despachou 25% de sua pauta de exportação para os Estados Unidos e arrecadou apenas 14 bilhões de dólares – quase o mesmo tanto que comprou dos EUA. Na história das relações comerciais entre os dois países, os números têm crescido ano após ano, criando certa dinâmica de prosperidade, mas nunca houve negociação, acordo nem tratado capaz de vencer um dilema antigo: as pesadas barreiras protecionistas que os EUA impõem à entrada de produtos do Brasil em seu mercado. O exemplo mais gritante é o fumo brasileiro, que, para ser vendido no mercado americano, paga uma sobretaxa de estupendos 350%.

O protecionismo dos países ricos é assunto que ganhou certa relevância nos últimos anos, com a onda de liberalização dos mercados nacionais. No fim do ano passado, durante a conferência da Organização Mundial do Comércio (OMC), realizada em Doha, no Catar, o protecionismo dos ricos aplicado aos produtos agrícolas, setor em que o Brasil é moderno e competitivo, finalmente ganhou alguma atenção. Até agora, no entanto, os resultados concretos são tímidos ou nulos. Em razão das barreiras protecionistas, calcula-se que o Brasil perca cerca de 17 bilhões de dólares por ano, a maior parte na venda de artigos de origem agrícola. É mais do que o país exporta anualmente para os Estados Unidos. Há estudos indicando que, de cada dez produtos brasileiros que entram no mercado americano, seis sofrem algum tipo de restrição. A situação chegou a tal ponto que alguns exportadores brasileiros resolveram instalar suas fábricas nos Estados Unidos e, assim, fugir das tarifas e taxas protecionistas.


Hoje, metade do suco de laranja produzido na Flórida sai de fábricas brasileiras, que se transferiram para lá fugindo das restrições ao produto feito no Brasil. Como o aço também sofre restrições severas, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Gerdau resolveram criar subsidiárias em território americano. Com isso, os empresários brasileiros conseguem vencer os obstáculos comerciais, mas os empregos ficam lá fora. Se tivesse liberdade para exportar suco de laranja para os americanos, o Brasil criaria, apenas neste caso, cerca de150.000 novos postos de trabalho. Diante desses números, é fácil concluir que, para atingir a meta de negociar 100 bilhões de dólares com a potência americana, o governo de Lula terá uma batalha hercúlea pela frente. No governo do presidente Fernando Henrique, em especial no segundo mandato, o Brasil passou a adotar uma postura mais agressiva e organizada. Conseguiu derrubar barreiras ambientais para vender gasolina no mercado americano e, hoje, tem seis reclamações contra os Estados Unidos registradas na OMC, referentes a suco de laranja, algodão, silício metálico e aço.

Entre os exportadores brasileiros, espera-se que o governo de Lula seja ainda mais agressivo nas negociações comerciais com outros países. "Ser duro é uma obrigação do negociador. Ele tem de ser firme na defesa dos interesses nacionais", diz o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, Benedicto Moreira. "Mas, primeiro, temos de saber o que o Brasil quer exatamente. Para nós, ainda está um pouco confuso", completa ele. Enquanto o governo não começa, os exportadores estão atentos às atitudes do presidente eleito. Na semana passada, aplaudiram a decisão de Lula de fazer sua primeira viagem internacional, com destino à Argentina e ao Chile, a bordo de um Legacy, jato executivo de treze lugares, que custa cerca de 20 milhões de dólares e é produzido pela Embraer, uma das maiores fabricantes do mundo. Para a viagem aos Estados Unidos, Lula pretende usar um Legacy de novo, o que ajuda a divulgar o produto nacional. Os empresários também gostaram de saber que Lula encomendou, para a posse presidencial, um par de sapatos em Franca, o maior pólo calçadista do país. São sinais a favor do produto nacional, mas, para desbravar o mercado internacional, é preciso bem mais do que sinais.

 
 
   
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