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Como
abrir as
portas dos ricos
O comércio com os Estados Unidos
só sobe, mas, até hoje, o Brasil
não venceu um antigo dilema: o
protecionismo americano
Malu
Gaspar
Patrick Baz/AFP
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| Conferência
da OMC em Doha: finalmente, as barreiras contra produtos agrícolas
ganham atenção |

Veja também |
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Na
campanha presidencial, não houve candidato que deixasse de prometer,
uma vez eleito, transformar o Brasil em potência exportadora. Há
poucos dias, depois da visita de um funcionário americano ao Brasil,
o senador eleito Aloizio Mercadante, do PT de São Paulo, falou
em números. Disse que o governo do presidente eleito Luiz Inácio
Lula da Silva gostaria de, num período de oito anos, elevar o volume
de comércio com os Estados Unidos, que hoje não chega a
30 bilhões de dólares, para um patamar de 100 bilhões
de dólares. É uma belíssima notícia, mas é
uma meta ambiciosa. No ano passado, o Brasil despachou 25% de sua pauta
de exportação para os Estados Unidos e arrecadou apenas
14 bilhões de dólares quase o mesmo tanto que comprou
dos EUA. Na história das relações comerciais entre
os dois países, os números têm crescido ano após
ano, criando certa dinâmica de prosperidade, mas nunca houve negociação,
acordo nem tratado capaz de vencer um dilema antigo: as pesadas barreiras
protecionistas que os EUA impõem à entrada de produtos do
Brasil em seu mercado. O exemplo mais gritante é o fumo brasileiro,
que, para ser vendido no mercado americano, paga uma sobretaxa de estupendos
350%.
O protecionismo dos países ricos é assunto que ganhou certa
relevância nos últimos anos, com a onda de liberalização
dos mercados nacionais. No fim do ano passado, durante a conferência
da Organização Mundial do Comércio (OMC), realizada
em Doha, no Catar, o protecionismo dos ricos aplicado aos produtos agrícolas,
setor em que o Brasil é moderno e competitivo, finalmente ganhou
alguma atenção. Até agora, no entanto, os resultados
concretos são tímidos ou nulos. Em razão das barreiras
protecionistas, calcula-se que o Brasil perca cerca de 17 bilhões
de dólares por ano, a maior parte na venda de artigos de origem
agrícola. É mais do que o país exporta anualmente
para os Estados Unidos. Há estudos indicando que, de cada dez produtos
brasileiros que entram no mercado americano, seis sofrem algum tipo de
restrição. A situação chegou a tal ponto que
alguns exportadores brasileiros resolveram instalar suas fábricas
nos Estados Unidos e, assim, fugir das tarifas e taxas protecionistas.
Hoje,
metade do suco de laranja produzido na Flórida sai de fábricas
brasileiras, que se transferiram para lá fugindo das restrições
ao produto feito no Brasil. Como o aço também sofre restrições
severas, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Gerdau resolveram
criar subsidiárias em território americano. Com isso, os
empresários brasileiros conseguem vencer os obstáculos comerciais,
mas os empregos ficam lá fora. Se tivesse liberdade para exportar
suco de laranja para os americanos, o Brasil criaria, apenas neste caso,
cerca de150.000 novos postos de trabalho. Diante desses números,
é fácil concluir que, para atingir a meta de negociar 100
bilhões de dólares com a potência americana, o governo
de Lula terá uma batalha hercúlea pela frente. No governo
do presidente Fernando Henrique, em especial no segundo mandato, o Brasil
passou a adotar uma postura mais agressiva e organizada. Conseguiu derrubar
barreiras ambientais para vender gasolina no mercado americano e, hoje,
tem seis reclamações contra os Estados Unidos registradas
na OMC, referentes a suco de laranja, algodão, silício metálico
e aço.
Entre os exportadores brasileiros, espera-se que o governo de Lula seja
ainda mais agressivo nas negociações comerciais com outros
países. "Ser duro é uma obrigação do negociador.
Ele tem de ser firme na defesa dos interesses nacionais", diz o presidente
da Associação de Comércio Exterior do Brasil, Benedicto
Moreira. "Mas, primeiro, temos de saber o que o Brasil quer exatamente.
Para nós, ainda está um pouco confuso", completa ele. Enquanto
o governo não começa, os exportadores estão atentos
às atitudes do presidente eleito. Na semana passada, aplaudiram
a decisão de Lula de fazer sua primeira viagem internacional, com
destino à Argentina e ao Chile, a bordo de um Legacy, jato executivo
de treze lugares, que custa cerca de 20 milhões de dólares
e é produzido pela Embraer, uma das maiores fabricantes do mundo.
Para a viagem aos Estados Unidos, Lula pretende usar um Legacy de novo,
o que ajuda a divulgar o produto nacional. Os empresários também
gostaram de saber que Lula encomendou, para a posse presidencial, um par
de sapatos em Franca, o maior pólo calçadista do país.
São sinais a favor do produto nacional, mas, para desbravar o mercado
internacional, é preciso bem mais do que sinais.
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