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Edição 1 781 - 11 de dezembro de 2002
Diogo Mainardi

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Lula me diverte

"Para impedir escutas telefônicas,
Lula tem um celular com misturador de
vozes. Como se ele precisasse desses
expedientes tecnológicos para tornar sua
linguagem absolutamente
incompreensível"

Quatro por cento de antipatriotas, segundo o Ibope, acham que Lula fará um governo ruim ou péssimo. Como se atrevem? Considerando os trinta e poucos dias desde seu triunfo eleitoral, Lula está destinado à glória.

Em Pernambuco, ele declarou que "Fernando Henrique viajou muito pela China, Inglaterra, mas eu vou viajar pelo Brasil". De fato, antes mesmo de assumir ele já terá visitado Argentina, Chile, Estados Unidos, México e, sobrando um tempinho, Dinamarca.

Pernambuco é a terra natal de Lula. Ele chorou muito num comício em Garanhuns. Depois chorou muito em Caetés. Para acabar com a seca no Nordeste, sua melhor idéia até agora foi recriar a Sudene. Quanto à transposição do Rio São Francisco, evitou posicionar-se, dizendo que "será uma decisão técnica, política e do povo". Difícil saber o que acontecerá se os técnicos recomendarem uma coisa e o povo quiser outra.

Ainda a propósito da seca no Nordeste, Lula propôs criar um conselho para discutir a questão da água. Ele também propôs um conselho para a política previdenciária, outro para o combate à violência e outro para o pacto social. Este último conselho se reuniu pela primeira vez em novembro. O presidente da Fiesp considerou-o "sem agenda, foco e método". Lula rebateu que era exatamente o que ele pretendia: "É maravilhoso que tenhamos vindo para cá sem que tivéssemos definido o que fará o conselho". Muito mais maravilhoso, claro, é ir para o Palácio do Planalto sem ter definido o que fará o governo.

Ao ser eleito, quando lhe perguntaram qual seria sua primeira medida como presidente, Lula disse que evitaria fazer algo que pudesse parecer "apenas um merchandising". No dia seguinte, anunciou o Fome Zero.

Para financiar o Fome Zero e outros programas assistenciais, Lula resolveu aumentar o Cide, um imposto sobre a gasolina. Até o último debate do primeiro turno, Lula nem sabia o que era o Cide, tanto que foi incapaz de responder a uma pergunta de Garotinho sobre o assunto. Espera-se que ele continue ignorando a existência de muitos outros impostos, caso contrário vem aumento por aí.

Nas últimas semanas, Lula sempre apareceu em companhia de Marisa, sua mulher. Ela foi vista toda de branco no dia das eleições ("Para atrair boas vibrações") e tremendo de medo num avião ("Eu sou ariana"). Lula tem uma visão doméstica da política. Comparou a atividade de um presidente à do síndico de um prédio e comentou que governar "é igualzinho ao que a gente faz em casa, quando marido e mulher discutem para comprar uma geladeira". Além disso, jurou cuidar dos pobres como se fossem seus filhos. É disso que a gente precisava: de um novo "Pai dos pobres".

Lula disse: "Eu gosto do povo, e o povo gosta de mim". Lula também gosta de ser fotografado no meio do povo. Volta e meia ele desce do BMW blindado para autografar a perna engessada ou a camisa do Corinthians de algum eleitor. Quem se preocupa com essa sua exuberância é o serviço de segurança, que não sabe como protegê-lo. O mesmo serviço de segurança, para impedir escutas telefônicas, dotou-o de um celular com misturador de vozes. Como se Lula precisasse desses expedientes tecnológicos para tornar sua linguagem absolutamente incompreensível.

Lula prometeu que não vai decepcionar o povo brasileiro. A julgar por esse começo, realmente será uma festa. Eu já comecei a me divertir.

 
 
   
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