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Sérgio
Abranches
A
presidência do
Banco Central
"Um
presidente do BC que desfrutasse mais
confiança do governo que do mercado talvez
tivesse maior poder e autonomia para conduzir
uma política até mais ortodoxa"
Ilustração Ale Setti
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Nas últimas semanas o mercado pediu com ansiedade ao presidente
eleito a nomeação de um presidente para o Banco Central
afeito ao mercado e com idéias ortodoxas. É uma pressão
em torno de um perfil que só produz nomes de brasileiros que têm
competência, porém gozam mais da intimidade e confiança
do mercado financeiro do que do novo presidente ou de seu grupo político.
É como se a simples presença de determinada pessoa garantisse
ao mercado que todas as atitudes econômicas do governo teriam a
direção por ele desejada. Mas a vida é mais complexa
e a dinâmica de grupo, mais determinante, sobretudo no exercício
do poder.
Essa idéia de que uma pessoa teria a capacidade de eliminar o risco
de mudanças na política econômica e o condão
de transformar o presidente Lula numa espécie de FHC de barbas
tem sido desmentida reiteradamente pelos novos donos do poder e por sua
resistência em atender às aflições do mercado,
indicando o ungido rapidamente e antes do restante do gabinete.
José Dirceu, cujo papel tem sido o de dar a linha política
do novo governo, sempre repete, com franqueza, que eles foram eleitos
para mudar a política econômica do atual governo e que farão
uma política de transição em 2003, mantendo o superávit
primário, os juros e que não tolerarão a volta da
inflação. Está claro: a determinação
política do governo eleito é implantar uma nova política
econômica, mas com parâmetros razoáveis. E há
um prazo para a transição entre a velha e a nova política:
doze meses. Pode ser menos, dificilmente seria mais.
O futuro ministro Palocci não tem dito nada de muito diferente.
Apenas, por uma questão de estilo e de função, é
menos sistemático ao demarcar a linha estratégica do novo
governo, para facilitar a interlocução com os agentes econômicos.
Mas basta repassar suas entrevistas para encontrar nelas essas mesmas
definições estratégicas para a área econômica,
separando o curto e o médio prazo do novo governo. E não
poderia ser diferente, pois se trata de um governo programático,
que não abriu mão de suas convicções.
Na definição da montagem política do novo "organograma
do poder", o Ministério da Fazenda aparece como uma pasta crítica,
entregue a um "alto dirigente partidário" do núcleo de confiança
do presidente eleito, Antônio Palocci. Será responsável
pela definição da linha política da política
macroeconômica do governo. Por isso, integrará a "executiva
do governo" ou terá acesso privilegiado a ela e ao presidente.
O Banco Central exercerá funções técnicas.
Sua autonomia seria operacional, não política. A definição
estratégica das metas e da orientação de longo prazo
seria atribuição da Fazenda e da Presidência da República,
não do BC, que teria, entretanto, o domínio das definições
técnicas.
Na nova linguagem do poder, a diferença entre autonomia política
e autonomia operacional talvez seja maior e mais decisiva do que foi no
governo Fernando Henrique. Para o novo governo, dificilmente a autonomia
política excluiria a capacidade decisória quanto às
orientações estratégicas da política macroeconômica.
Já a autonomia operacional estaria restrita à escolha de
metodologias e dos atos técnicos necessários para implementar,
da melhor maneira possível, as metas estratégicas fixadas
pela instância que detém esse poder de definição
política: no caso, a Presidência e o núcleo político
do governo, no qual se incluiria o ministro da Fazenda.
A idéia de que o presidente do Banco Central seria a melhor garantia
da atitude monetária e fiscal do governo Lula pode não fazer
sentido. Alguém que desfrutasse mais a confiança do governo
que do mercado talvez tivesse maior poder e autonomia para conduzir uma
política até mais ortodoxa. O futuro ministro da Fazenda
ganhou confiança não só porque demonstrou bom senso,
mas porque mostrou poder. Na dúvida, o mercado pode acabar fazendo
demandas ao novo presidente do BC de "atos de responsabilidade" que o
levariam, rapidamente, ao limite de sua autonomia e, de quebra, esgotariam
a tolerância do novo governo com as pressões do mercado.
Um presidente do BC mais íntimo do poder que tivesse entendimento
adequado da situação econômica e conseguisse explicar
suas opções alternativas de política econômica,
mostrando como preservaria os fundamentos da economia, seria, no final
das contas, mais forte e mais eficaz. Em tese, há mais de uma linha
de política macroeconômica possível, com variações
não desprezíveis de ênfase, que respeitam os princípios
inarredáveis de responsabilidade fiscal e monetária.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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