Jerimum tresandado

Por que é ridículo o sotaque dos atores da
Globo que interpretam personagens nordestinos

A professora Iris,
com a atriz mirim
Carolina Pavanelli,
de
Meu Bem Querer:
ela bem que tenta
Foto: Selmy Yassuda  

Sempre que a Rede Globo coloca no ar uma novela passada fora do eixo RioSão Paulo, nordestinos alisam o cabo da peixeira. Tudo por causa do sotaque dos personagens, que soa ridículo aos ouvidos dos moradores dessa região do Brasil. Segundo pesquisa do Ipesp, instituto pernambucano, feita no Ceará durante a exibição da novela A Indomada, no ano passado, apenas 13% dos moradores da região se sentiram bem representados nas falas dos personagens. Os demais se dividiam entre os que achavam ridículo e os que encaravam tudo como piada. No centro dessa discussão está a professora de prosódia da Globo, Iris Gomes da Costa, hoje responsável pelas aulas de "dialeto cearense" da novela Meu Bem Querer. Fluminense de São Fidélis, Iris é formada em português e francês e faz um trabalho meticuloso. Sempre que viaja leva um gravadorzinho na bolsa. Quando entabula uma conversa com alguém do lugar que está visitando, pede autorização para gravar um trecho do diálogo. Com isso, formou um arquivo de prosódias que mapeia o jeito de falar de cada região. Ela o usa em suas aulas na emissora.

Foto: Mario Llaguno, Cida Souza, Dorival Elze  
Tom Cavalcante: "É sempre uma coisa falsa. Imitações só ficam bem em piadas" Daniela Mercury: "Pelo menos a televisão não fica massificada com a fala carioca e paulista" Ariano Suassuna: "É tão pejorativo quanto um nordestino tentando imitar o acento do sul do país"

Mesmo com esses cuidados, o sotaque nordestino dos atores da Globo está longe de ser realista. Um dos motivos principais é que imitar o jeito de falar de uma região é uma das coisas mais difíceis da arte dramática. Se atores de cinema tarimbados evitam esse constrangimento o britânico Hugh Grant, por exemplo, sempre faz papel de inglês em filmes americanos , que dizer, então, de galãs da Globo, recém-saídos da escola de modelos, que tentam aprender o sotaque nos intervalos entre uma gravação e outra? A própria Iris admite que a fala cearense da novela é de mentirinha. "É uma obra de ficção, o importante é ter uma referência vaga", defende-se.

A Globo começou a utilizar sotaques regionais em novelas em 1975, quando o diretor Walter Avancini contratou Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber, para ensinar os personagens de Gabriela a falar "baianês". Quando fez isso, contrariou uma regra de ouro da dramaturgia: aquela que reza que sotaques falsos devem ser utilizados apenas em peças cômicas, já que soam invariavelmente ridículos. É assim desde a commedia dell'arte, italiana, na qual os criados falavam sempre com acento napolitano uma brincadeira com o fato de que era do sul pobre do país que vinham os serviçais da nobreza. A cantora baiana Daniela Mercury não se importa com a fajutice do sotaque nordestino global. "Tem a vantagem de não massificar a televisão com as falas de São Paulo e Rio." O humorista Tom Cavalcante, que é cearense, acha que imitações só caem bem em piadas. O escritor Ariano Suassuna, paraibano, é radicalmente contra. "Nas adaptações de minhas peças para a TV exijo que não façam sotaque nenhum." Quando o interlocutor pergunta a razão, Ariano começa a imitar o jeito de falar de cariocas e paulistas e se diverte com as risadas que provoca.

Ricardo Valladares




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line